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A BRAAMCAMP NÃO SABE NADAR
Por André Carapinha
Barreiro

A BRAAMCAMP NÃO SABE NADAR<br />
Por André Carapinha<br />
BarreiroO mundo que queremos deixar para os nossos filhos e netos depende das opções de hoje. É por este motivo que deixo o repto aos nosso executivo municipal, em nome pessoal e da Plataforma, para que abandone este projecto sem sentido e se junte a todos aqueles que querem fazer da Quinta do Braamcamp um espaço que sirva verdadeiramente o interesse dos barreirenses, dos que agora são idosos, adultos, crianças e dos que ainda estão por nascer.

A Plataforma Cidadã Braamcamp é de Todos, de que me orgulho em pertencer, organizou no passado sábado, dia 6 de Julho de 2019, na Escola Superior de Tecnologia do Barreiro, o seminário “Que Futuro para a Quinta do Braamcamp”. Este evento foi mais uma iniciativa com que a Plataforma, bem como outras organizações da sociedade civil barreirense, têm contribuído para um debate informado sobre o futuro de um território que, consideramos, é estratégico para o futuro do Barreiro e cujo destino definirá também uma certa ideia de cidade. Uma cidade inclusiva, sustentável, distinta e distinguível no contexto da Área Metropolitana de Lisboa e que dessa forma reconhece que o seu maior capital para o futuro é o acumular do seu património material e imaterial muito especial; ou, em alternativa, a sua dissolução como subúrbio integrado na grande capital, na lógica dos interesses, dos negócios de ocasião e da ausência de estratégia própria, ansiando pelas migalhas de uma aparente prosperidade que se baseia numa actividade – o turismo de massas – que, sabemo-lo, é de todas a mais volátil e a primeira a cair em qualquer contexto de crise; e numa realidade – a da gentrificação – que causa graves danos no tecido social das cidades em troca do lucro mais imediato. Como aliás se assiste neste momento em Lisboa.

Neste seminário contámos com vários especialista de áreas como a Arqueologia Industrial, a Arquitectura Paisagistica ou a Biologia, todos eles conhecedores da singularidade e da importância da Quinta do Braamcamp no contexto da Área Metropolitana de Lisboa e mesmo do país. Mas de todas as intervenções, nenhuma foi mais impressionante e esclarecedora que a do Professor Carlos Antunes. Este engenheiro geográfico, especializado em Geoedesia, Hidrografia e Engenharia Geoespacial, é provavelmente o maior especialista português no estudo do efeito das alterações climáticas ao nível da subida das marés. O seu estudo de “Cartografia de Risco Costeiro associado à subida do nível do mar como consequência das alterações climáticas", desenvolvido com Carolina Rocha e Cristina Catita e disponível em http://snmportugal.pt, foi premiado pela Ordem dos Engenheiros em 2018 e é neste momento utilizado pela Agência Portuguesa do Ambiente (APA) como principal referência para as suas avaliações sobre este problema.

É de algum modo compreensível que muitos barreirenses não conheçam a importância histórica e económica da Quinta do Braamcamp. Afinal esteve fechada durante muitos anos à população, que se limitava a passar ao lado dos seus altos muros. Pelo mesmo motivo, também só agora vamos descobrindo a sua paisagem única, os seus recantos maravilhosos, a sua relevância como lugar de nidificação de aves ou mesmo os seus edifícios históricos, agora parcialmente em ruínas, como o Moinho de Maré, um edificado que se pensa vir desde o século XIV. Mas mesmo este debate, que é essencial ter, sobre a importância e o futuro da Quinta à luz destes factores, tem de ser relegado para segundo plano quando se percebe um aspecto essencial: a Braamcamp não sabe nadar, e o que se decida sobre ela deve ter em conta aquilo que a ciência já sabe, e que é absolutamente consensual, sobre a subida das marés em resultado das alterações climáticas. E o que a ciência sabe é que, mesmo nos cenários mais optimistas, daqui a 20 ou 30 anos as marés irão subir de tal forma que todo aquele território será inundado várias vezes por ano, quando da ocorrência de marés vivas.

Mesmo neste país em que planear a prazo e tendo em conta o interesse público é tão raro, a maioria das autarquias já vão tendo em conta os cenários desenhados pelos cientistas sobre as alterações climáticas. Por exemplo, o que as boas práticas que neste momento já vão sendo consideradas dizem, é que não se pode construir habitação em zona de risco de inundação futura. De todos os tipos de equipamentos, a habitação é aquele que levantará maiores problemas: é totalmente diferente ter que abandonar um hospital ou um aldeamento turístico, em que o risco é dos promotores, do que se confrontar com proprietários de habitações que tem a legitima expectativa de que os seus apartamentos possam ser vendidos, transmitidos aos herdeiros ou mesmo que não percam valor de um dia para o outro. Toda esta peregrina ideia de construir habitação junto ao rio, numa zona classificada como de risco de inundação, irá, se concretizada, originar problemas de responsabilidade jurídica da autarquia barreirense que a licenciou e que serão pagos pelos nossos filhos e netos.

Quer-se, portanto, construir 30 prédios de habitação, um hotel, um estádio de futebol e sabe-se lá mais o quê num local que o consenso científico diz, sem margem para dúvidas, que irá inundar 10 ou 20 vezes por ano em 2050 e que provavelmente em 2100 estará quase sempre debaixo de água. Esta irresponsabilidade demonstra que os nossos poderes autárquicos actuais ou não conhecem nada destas coisas, o que é grave, ou o seu timing para a cidade é de dois anos, o das eleições de 2021 e nada mais para além, o que é ainda mais grave, ou, o que acho mais provável, as duas coisas ao mesmo tempo, o que é gravíssimo. Acompanhado esta lógica imediatista de quem olha para a cidade como uma oportunidade de negócio, aparecem os papagaios do partido que suspiram pelas suas migalhas das prebendas futuras, haja sucesso nesta terraplanagem de tudo o que deve nortear o serviço público e o respeito pelos cidadãos que elegem; bem como todos aqueles para quem a política é como o pior do futebol e que, haja o que houver, faça-se o que se fizer, defendem com unhas e dentes o seu clube, perdão, o seu partido, na melhor tradição dos especialistas de café.

Estamos no entanto confiantes: em primeiro lugar, na sociedade civil barreirense, que tem vindo a mostrar ao longo deste processo que cada vez mais vai percebendo que esta não é uma questão de partidos nem de cores do executivo municipal, mas de futuro da cidade e de respeito pelas pessoas. E em segundo lugar nas instituições deste país que ainda vai sendo decente, e que não deixarão de chumbar este projecto absurdo e contrário a tudo o que o se vai percebendo sobre os desafios do amanhã. O mundo que queremos deixar para os nossos filhos e netos depende das opções de hoje. É por este motivo que deixo o repto aos nosso executivo municipal, em nome pessoal e da Plataforma, para que abandone este projecto sem sentido e se junte a todos aqueles que querem fazer da Quinta do Braamcamp um espaço que sirva verdadeiramente o interesse dos barreirenses, dos que agora são idosos, adultos, crianças e dos que ainda estão por nascer.

André Carapinha

09.07.2019 - 15:54

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