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TERCEIRA TRAVESSIA DO TEJO
Um projecto incontornável que incomoda o nosso lobismo
Por Luís Batista
Barreiro

TERCEIRA TRAVESSIA DO TEJO<br />
Um projecto incontornável que incomoda o nosso lobismo<br />
Por Luís Batista<br />
Barreiro<br />
A discussão foi de novo lançada e as opiniões irão disparar de todo o lado.
Ao lobismo que interessa que o assunto do novo aeroporto de Lisboa se mantenha apenas na discussão será certamente o que irá emperrar toda o debate sério e honesto em torno da Terceira Travessia.

O tema terceira travessia com a ligação Chelas/Barreiro voltou novamente a ser notícia nos últimos dias. Estranho, para já, um silêncio que não deixa de ser incomodativo por parte do Barreiro sobre esta matéria tão vital para a cidade, bem como estranho os mensageiros da desgraça, esses doutos da palavra que já levantaram a sua voz com entrevistas em rádios e jornais.
Sou assumidamente um acérrimo defensor deste corredor de ligação entre o Norte e o Sul, opinião que já remonta a 1992 quando se começou a projectar a ligação entre o Pinhal Novo e Lisboa por via férrea, tendo como opção a Ponte 25 de Abril, o que sempre considerei um erro irreversível onde se iria esbanjar dinheiro sem qualquer retorno. Vivia-se à época um tempo faustoso com um sem fim de fundos comunitários que Portugal simplesmente desaproveitou.

Num curto exercício facilmente se percebe a pequenez da solução Ponte 25 de Abril para a ferrovia, solução que não serve, nem nunca servirá os verdadeiros interesses ferroviários para a circulação de bens e pessoas entre o Norte e o Sul. Tem sido uma solução a prazo e repleta de condicionantes, não obstante alguns iluminados no período da Troika quase conseguirem vender a ideia de implementar em cima desta solução a vertente Alta Velocidade. O verdadeiro Rossio na Rua da Betesga.

Os ciclos repetem-se e mais uma vez este assunto volta à ribalta com o grupo parlamentar do PS a anunciar que no âmbito do Programa Nacional de Investimentos (PNI) 2030 o projecto da TTT aparece em destaque e justificado pelo facto de ser uma infraestrutura, passo a citar “integrada numa visão nacional de desenvolvimento harmonioso da área metropolitana de Lisboa, que responda às necessidades das populações e da economia nacional".
Não podia estar mais de acordo.

Porém, lançar este assunto completamente a frio numa altura de eleições e em que os faróis estão apontados para as campanhas eleitorais deixa maus indícios quanto ao debate honesto num futuro próximo. Mais ainda, não li ainda uma linha que fosse sobre este projecto no programa eleitoral do PS, o que não deixa de ser estranho e, confesso, causando-me até alguma preocupação.
Mais uma vez temo pelo seu desgaste nos midia nas tão características campanhas de desinformação em nome de interesses que estão para lá da obra.

Numa primeira análise, talvez a mais imediata, estamos perante um projecto que não tenho dúvidas que irá potenciar e revitalizar o Barreiro, bem como viabilizar o conceito de Lisboa a Cidade-Região, a cidade das duas margens.
Seria de todo necessário recuperar a proposta que a Fertagus apresentou em 2009. Uma proposta de concessão do tráfego ferroviário para esta nova Travessia, justificando esta decisão com o facto de, com este interface, ser possível ligar o Barreiro a Lisboa em pouco mais que 25 minutos, permitindo aos passageiros/utentes escolher o melhor trajeto, a melhor opção e enriquecer de forma ímpar a mobilidade entre as duas margens do Tejo.

Depois, numa análise mais aprofundada e consistente, aliás a grande mais valia deste projecto, é a inserção do mesmo na rede transeuropeia de transportes (RTE-T). As Redes Transeuropeias aparecem referidas pela primeira vez no Tratado de Maastricht e definidas como instrumentos para tornar o território da UE mais acessível nos domínios dos transportes, das telecomunicações e da energia, tendo ainda por base ajudar a desenvolver o mercado interno, a reforçar a coesão económica e social, ligar as regiões insulares, isoladas e periféricas às regiões centrais da UE e tornar o território comunitário mais acessível aos países vizinhos.
As infraestruturas em causa são:

Estradas, vias férreas, portos, aeroportos, meios de navegação, plataformas intermodais e condutas de transporte de produtos destinados a contribuir para o crescimento do mercado interno e do emprego, perseguindo, simultaneamente, objetivos em matéria de ambiente e desenvolvimento sustentável.

Assim, e pondo em prática a Decisão n.º 1692/96/CE, de 23 de julho de 1996, sobre as orientações comunitárias para o desenvolvimento da rede transeuropeia de transportes (RTE-T), bem com revisão de 2013 - (Rede Transeuropeia de Transportes de Maio de 2013) que defende, para a ferrovia, uma rede integrada e assente numa nova política de infraestruturas de transportes com o objetivo de transformar a manta de retalhos dos caminhos de ferro numa rede integrada europeia que cubra todos os Estados-Membros. Urge agarrar esta oportunidade e valorizar finalmente a importância dos Gateways ferroviários e do mar como factores diferenciadores e de valorização.

Acredito e tenho defendido ser factor crucial o aproveitamento da excelente localização geográfica dos nossos portos, sendo que, no caso de Sines e nos navios que operam na rota Ásia‐Europa-Ásia, estes passam nas águas do seu porto, não obrigando por isso a desvios.
Não podemos continuar a repetir sucessivamente o mesmo erro e fechar os olhos à modernização da ferrovia e o seu alargamento à rede de Alta Velocidade. A Terceira Travessia tem todas as potencialidades para inscrever não só uma região, mas sim o país no mapa europeu de transportes. São muitos os predicados que durante muito tempo suportaram a decisão de se fazer a obra e todos eles sempre apontaram para a dinamização da nossa economia e a saber:

- Aceleração da integração ibérica;

- O desenvolvimento e o futuro de Portugal passa indubitavelmente por uma renovada linha ferroviária e um novo terminal aeroportuário;

- Poder associar a economia portuguesa às economias mais ricas de Espanha, essencialmente nas regiões de Madrid e da Catalunha;

- Poder aumentar a percentagem das exportações para o mercado espanhol;

- Aumentar as relações comerciais entre os dois países ibéricos irá dilatar o fluxo de transportes;

- Evitar que Portugal fique isolado do resto da Europa em termos ferroviários, uma vez que ficaríamos a ser o único país com a famosa bitola ibérica.

- Possibilidade de ouro em integrar o Porto de Sines nas redes RailNetEurope e potenciar a sua utilização;
- Os preços do petróleo têm obrigado a repensar toda a estratégia de circulação de pessoas, bens e mercadorias, o que associado às novas leis e propósitos ambientais e de segurança, irão provocar uma crescente e incontornável substituição do modo rodoviário para o ferroviário;

- Os custos da não realização destas obras será, num futuro próximo, bem superior aos custos da sua realização.
- Em termos económicos a redução dos custos de transporte das mercadorias bem como a maior mobilidade, permitirá a Portugal esbater a sua posição periférica em relação à Europa;

- Mais valia para o sector do turismo;

No caso de mais uma vez este projecto não avançar, teríamos de ter em conta o seguinte:

- Acentuava-se gravemente a condição de país periférico relativamente à Europa;

- Atrasava o desenvolvimento sócio-económico do eixo oeste-atlântico, uma das regiões com maior densidade populacional da Europa;

- Acentuava-se a dependência do petróleo para o sucesso das exportações;

- Hipotecava-se a oportunidade do desenvolvimento ferroviário e dos clustrs associados ao caminho-de-ferro e ao mar.

A discussão foi de novo lançada e as opiniões irão disparar de todo o lado.
Ao lobismo que interessa que o assunto do novo aeroporto de Lisboa se mantenha apenas na discussão será certamente o que irá emperrar toda o debate sério e honesto em torno da Terceira Travessia. Serão conjugados todos os verbos da desgraça para justificar o insucesso do projecto e tentarão, mais uma vez, confundir a opinião pública com TGV em vez de Rede de Alta Velocidade. Um sem fim de foguetes e folclore tendo em vista a política de afirmação partidária e os grupos de interesses que os financiam.

Apenas deixo uma observação – não me recordo de nenhuma falha técnica em nenhum país europeu que tenha colocado em causa a credibilidade do projecto, a sua segurança ou sucesso financeiro do mesmo. Nós, os eternos Velhos do Restelo, somos realmente a excepção.
No entanto um dado teremos como incontornável, a futura execução deste importante projecto, mais cedo ou mais tarde, dará à nossa ferrovia uma dimensão e uma nova realidade que lhe permitirá competir e interligar-se com as principais redes europeias de circulação de comboios.

Luís Batista

31.07.2019 - 10:52

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