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Alienação da quinta do Braamcamp está para o Barreiro
Como a degradação da Amazónia está para a humanidade

Alienação da quinta do Braamcamp está para o Barreiro<br />
Como a degradação da Amazónia está para a humanidade. “Uma nova praia para o Barreiro!?”…- já temos praias que cheguem, defendam-nas, valorizem-nas!

A Quinta do Braamcamp e o Sítio de Alburrica, têm tudo para nos fazerem felizes, a todos! Respeite-se a História, a Natureza e o futuro equânime a que temos direito.

A BRAAMCAMP É DE TODOS! (4)
A alienação da quinta do Braamcamp está para o barreiro, como a degradação da amazónia está para a humanidade

INTRODUÇÃO

O título do artigo foi usado na intervenção feita na sessão de esclarecimento de 17/9/19, promovida pelo executivo camarário de maioria socialista, na qual procurou fundamentar a sua opção de vender a Quinta Braamcamp, parte inalienável do sítio de Alburrica e da sua história milenar.
Ganhou maioria de razão depois da intervenção de Jair Bolsonaro na Assembleia das Nações Unidas. Ponderadas as devidas proporções, a filosofia subjacente à pretensão de entregar à iniciativa privada especulativa, bens patrimoniais públicos é a mesma: progresso da área abrangida; fixação e dinamização das populações; aproveitamento das excepcionais condições naturais.

Surgem as legítimas interrogações: Mas que tipo de desenvolvimento? À custa do quê e de quem? Com que tipo de negócio e de beneficiários?
O clamor levantado contra a destruição de uma fatia importante da Amazónia (e da Humanidade!) deve ser similar àqueloutro contra a destruição de uma parte fundamental da Alburrica e do Barreiro, por idênticas razões.

FUNDAMENTAÇÃO HISTÓRICA

A Alburrica e a sua magnífica simbiose com o rio Tejo, é o alfa e o omega da génese, crescimento e desenvolvimento do Barreiro. É a sua raiz histórica, a sua memória contemporânea, a sua estrela do Norte dos caminhos do futuro.
Sintetizando a sua (nossa) história:

- O povoamento ancestral pelos primitivos recolectores de bivalves (Mexilhoeiro e Ostral);

- A pesca milenar no rio de águas calmas (também refúgio) ricas em fauna e flora marinha;

- O povoamento pelos árabes que lhe deram o nome de Alburrica, terra de esplendor;

- A energia eólica, renovável e limpa, aproveitada durante séculos nos seus moinhos de vento;

- A proto-indústria dos moinhos de energia maremotriz com as suas caldeiras/sapais biológicos;
~
- A pesca industrial dos barcos da muleta pelos pescadores da Barra (“barreiros”), por mais de 300 anos;
~
- Os estaleiros de construção naval e o fabrico de apetrechos navais para os barcos do Tejo;

- A interface marítima na ligação Sul/Norte: Barreiro princípio e fim do Além do Tejo;

- A indústria/comércio do transporte fluvial de fragatas e varinos (a Mercantil) e o transporte nos barcos da Parceria;

- A chegada do comboio e a excelsa e única estação ferro-fluvial de Barreiro-Mar, os vapores da travessia;

- A indústria corticeira vinda com o comboio e o impulso económico na vila piscatória e pobre;

- O paraíso de veraneio secular na Quinta que foi sempre particular de nobres e burgueses ricos;

- O “santuário” milenar de aves autóctones ou de arribação, de asas brancas ou negras e piar suave;

- O evento da grande indústria capitalista e poluidora que fez rarear a actividade piscatória e recolectora;


- O porto seguro da pesca contemporânea: O Cerco, o gasolina do “Cebola”, a aldeia lacustre da pesca artesanal no Mexilhoeiro;

- As praias fluviais magníficas (Bela Vista-Norte e Alburrica) de areias douradas e sol milagroso (muito “iodo”).

FUNDAMENTAÇÃO CIENTÍFICA

- O arquitecto Cabeça Padrão, um barreirense sábio que participou na discussão democrática e ampla na Comissão Municipal do Património, nos anos 80, escreveu na altura: “ [Alburrica] … o logradouro urbano de maior vastidão e qualidade que o Barreiro possui […] É urgente uma intervenção urbanística planificada que tenha em vista o superior interesse da população quanto a esta área vocacionada para o seu lazer e repouso”.

- Os estudos científicos relatam de forma insofismável o aumento do nível da água do rio-mar (um metro até 2050, nas últimas previsões), com um impacto gravoso no Vale do Tejo e nos terrenos de Alburrica em particular.

- É condição “sine qua none”, a feitura de um projecto global, paisagístico, arquitectónico e ambiental para o sítio de Alburrica que leve estas questões a sério, ligado àqueloutro projecto para a requalificação/recuperação do casco velho do Barreiro Antigo de que a Alburrica é a extensão natural, a sua alma intrínseca, a promessa do devir harmonioso.

A DECISÃO POLÍTICA: QUE FAZER?

- A opção casuística e desgarrada de vender a Quinta Braamcamp, por muito que se tente “dourar a pílula”, retirando-a do conjunto histórico e natural a que pertence, seria uma decisão acientífica, conjuntural e oportunística que derroga a nossa memória, questiona a nossa identidade e compromete o nosso futuro.

- A opção de torná-la local de usufruto privado (como foi a Quinta durante séculos!), como negócio para a especulação imobiliária e a construção urbana de prédios (no todo ou em parte), seria uma decisão que alienaria a alma histórica barreirense.

- É preciso avisar toda a gente, dar notícia, informar, prevenir, que a Alburrica, devendo ser o sítio onde os barreirenses de nascimento ou opção, abraçam o seu rio, recuperam as suas memórias e usufruem da magnífica zona de lazer e turismo (caseiro e/ou externo), gerida pelas suas autarquias com a participação popular, corre o risco de descaracterização e degradação irreversível. Como a Amazónia do nosso (des) contentamento.

NÃO HÁ SOLUÇÕES MILAGROSAS: VENDER PARA CONSTRUÇÃO CIVIL É A PIOR!

- Desde os tempos da “outra senhora”, com os fascistas Adragão e Cia; depois com a Esence/SNC, no início do século XXI; a seguir o Millennium/BCP, no anterior executivo, e agora com a actual maioria PS, os projectos solicitados (e pagos!), sempre propuseram a construção de habitação. È a chamada “petição de princípio”, concebe-se a ideia e a forma e paga-se os estudos para a fundamentarem.

É o que se passa neste momento, em que o executivo gastou dezenas de milhares de euros para respaldar a sua opção política – vender a Braamcamp! Com um novo argumento demagógico e falacioso: “É necessário arranjar receitas para a recuperação do território e outros projectos no município”. As finanças municipais estão bem e recomendam-se, ouvimos na sessão de esclarecimento.

Nunca ninguém solicitou/comprou, um projecto-estudo estratégico que abrangendo toda a Alburrica (estação de Miguel Pais, inclusive), alavanque as suas características e potencialidades naturais, históricas, culturais, ambientais, económicas, para usufruto e felicidade da comunidade.

Bons exemplos não faltam no país, de recuperação, requalificação, arranjo equilibrado para a fruição popular, sem recurso à venda de terrenos e à construção civil de fogos de habitação: o multifacetado Parque Ribeirinho da Baixa da Banheira; a lindíssima baía do rio Judeu, no Seixal; o esplêndido Parque Ribeirinho de Vila Franca, são exemplos aqui perto, há muitos mais. Mas nenhum tem as condições esplendorosas da nossa Alburrica!

- Na Amazónia, desde os tempos da ditadura militar que entregou milhões de quilómetros quadrados aos “boiadeiros” e queria fazer uma estrada transamazónica, em nome do progresso do Brasil; depois nos governos do PT que entregaram terras aos seringueiros para o cultivo da árvore da borracha e estes se transformaram em criadores de gado; até há actual era Bolsonaro em que estão a queimar a floresta para os grandes latifundiários do gado e as multinacionais da exploração mineira; a filosofia subjacente é a mesma - destruir a natureza em nome do “desenvolvimento”, postergar a história e os interesses últimos das populações, empreender projectos de “pragmatismo tecnocrático” e diletantismo político, com lucros privados e públicas virtudes.

Homens e mulheres do Barreiro, conterrâneos!

- Cuidai dos falsos messias, apontando caminhos únicos de pseudo progresso, que comprometem o nosso futuro, o da nossa terra e o da humanidade, que elidem a nossa história, cultura e identidade, com argumentos falaciosos que deturpam a realidade seriamente ameaçada.

“Uma nova praia para o Barreiro!?”…- já temos praias que cheguem, defendam-nas, valorizem-nas!

A Quinta do Braamcamp e o Sítio de Alburrica, têm tudo para nos fazerem felizes, a todos! Respeite-se a História, a Natureza e o futuro equânime a que temos direito.

Armando Sousa Teixeira
(Cofundador do Movimento a Braamcamp é de todos!)


12.10.2019 - 23:53

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