Conta Loios

opinião

Novo Banco recebe do Orçamento (em dois anos) o equivalente ao salário de 1853 trabalhadores portugueses
Por Alcidio Torres
Montijo

Novo Banco recebe do Orçamento (em dois anos) o equivalente ao salário de 1853 trabalhadores portugueses<br />
Por Alcidio Torres<br />
Montijo O centro direita e o centro esquerda (PS e PSD) são semelhantes na substância e coniventes com a salvação do capital à custa do trabalho.

Segundo as previsões governamentais, o Orçamento de Estado para 2020 terá um excedente orçamental primário (antes do pagamento dos juros da dívida) de 7500 milhões de euros (sete mil e quinhentos milhões de euros). Ou seja, em 2020, Portugal recebe mais 7500 mil milhões de euros do que aquilo que gasta.
Conseguirá o leitor imaginar o destino desses 7500 milhões de euros?
Sem cair da cadeira, observe o paradeiro desta volumosa quantia (7500 milhões), o equivalente ao custo anual da austeridade praticada entre 2011 a 2015 em Portugal:
6140 milhões serão destinados ao pagamento de juros da dívida;
800 milhões para apoiar a Banca (600 milhões ao Novo Banco e 200 milhões para créditos fiscais à Banca);
440 milhões para amortizar a dívida pública;
100 milhões para medidas extraordinários

Agora percebemos a razão porque o Governo de António Costa só quer disponibilizar 60 a 70 milhões (dez vezes menos do valor a injectar no Novo Banco) para aumentar os salários das Administrações Públicas, congelados há 11 anos.
Recorde-se, que em 2018 já tinha sido injectado no Novo Banco 1143 milhões de euros.
Ou seja, o valor injectado em dois anos pelo Estado no Novo Banco é superior ao valor anual (ano de 2019) dos salários de 1853 trabalhadores portugueses (45,4% da população activa) com salários entre os 600 e os 900 euros mensais.
Para que esta política de austeridade seja possível, Mário Centeno não pode disponibilizar mais de 2 euros por mês (8 cêntimos por dia) para aumentar os assistentes operacionais da Função Pública.
Estamos na presença de uma política orçamental penalizadora dos rendimentos do trabalho e beneficiadora dos rendimentos do capital, uma política de centro direita e de aprofundamento das desigualdades sociais, mas praticada por um partido do chamado centro esquerda (PS).
Na verdade, quem votar favoravelmente um orçamento com esta filosofia austeritária pode merecer o crédito da Comissão europeia, do FMI ou do Banco Mundial, mas não pode merecer a confiança dos mais de 4 milhões de trabalhadores portugueses por conta de outrem.
Os partidos que apoiarem a continuação da política de austeridade estarão, cada vez mais, a colocar o seu destino numa jaula de ferro e a abrir o espaço à extrema direita e ao populismo.
O centro direita e o centro esquerda (PS e PSD) são semelhantes na substância e coniventes com a salvação do capital à custa do trabalho.
À esquerda do PS e PSD temos partidos “marxistas” sem criatividade, presos ao passado e elitistas, sem capacidade de leitura da realidade e sem perspectiva de renovação. Estes partidos estão presos na jaula de ferro, satisfeitos com a sua participação no jogo político parlamentar, mas sem as mínimas condições de ganhá-lo. E porquê? porque quem realmente manda no jogo não está localizado apenas na arena do jogo (aparelho de Estado) mas também em outras esferas (poder económico, mediático, etc.).
Toda esta política anti-social afasta os cidadãos da política e dos actos eleitorais e, mais grave ainda, estes homens e mulheres em caso de tentativa de tomada de poder por extremistas de direita e pró-fascistas não estarão em condições anímicas de defender a democracia. Estão profundamente esmagados e discriminados para o fazerem.

Alcidio Torres
Mestre em Administração e Políticas Públicas

13.12.2019 - 16:11

Imprimir   imprimir

PUB.

Pesquisar outras notícias no Google

Design: Rostos Design

Fotografia e Textos: Jornal Rostos.

Copyright © 2002-2020 Todos os direitos reservados.