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A Braamcamp - Ou um executivo tão cheio de si que não lhe importa o futuro
Por Rosalina Carmona
Barreiro

A Braamcamp - Ou um executivo tão cheio de si que não lhe importa o futuro<br />
Por Rosalina Carmona<br />
Barreiro Este executivo que levou a votos um Barreiro montado numa roda gigante, qual London Eye rodeada de espaços verdes maravilhosos, depressa jogou essa ‘visão’ onírica para o caixote do lixo. E com ela foram os votos e a boa fé de muitos barreirenses.

A questão da Braamcamp constitui hoje um assunto tão delicado e decisivo para o futuro do concelho que, o executivo que domina a Câmara do Barreiro blindou-se da mais completa insensibilidade perante os argumentos - quaisquer que eles sejam –, quer por parte de cidadãos organizados de forma livre e espontânea em plataformas participativas, quer de vozes internas dentro do próprio partido que governa a autarquia contrárias à venda daquele espaço.

Vender a Braamcamp, parece hoje claro, já era um objectivo definido por esta sensibilidade que dentro do PS se impôs e ganhou a Câmara. Mas quando se apresentou aos eleitores e aos seus próprios apoiantes não era essa a “visão” que lhes ofereceu. A “visão”, que nem sequer era um projecto, era totalmente diferente para o espaço da Quinta Braamcamp. E com essa “visão”, travestida de ilusão e ‘modernidade’ seja lá isso o que for nestes nossos tempos de populismo - porque é disso que se trata – ganhou a Câmara. Conseguiu uma maioria minoritária de votos que lhe permite, através do mecanismo previsto na lei chamado ‘voto de qualidade do presidente’, fazer aprovar todas as questões polémicas que tem na agenda. Porque este executivo tem sido polémico desde o início e incapaz de gerar consensos mínimos, da tal forma que até o parceiro que por vezes o suporta se sente incomodado e o deixa sozinho. E lá vem o ‘voto de qualidade do presidente’ para fazer passar as propostas.

Mas do que venho falar é da Braamcamp. Este executivo que levou a votos um Barreiro montado numa roda gigante, qual London Eye rodeada de espaços verdes maravilhosos, depressa jogou essa ‘visão’ onírica para o caixote do lixo. E com ela foram os votos e a boa fé de muitos barreirenses.

A venda da Braamcamp, adquirida aos bancos pouco tempo antes pelo executivo anterior, e com os votos unânimes das mesmas forças políticas que a querem hoje vender, constitui o maior logro político da história recente do Barreiro. Dizendo aos barreirenses que a Braamcamp serviria para «proporcionar a todos os barreirenses espaços de lazer», este executivo liderado por Frederico Rosa pretende hoje vender a mesma Quinta Braamcamp por cinco milhões! E, não sendo eu religiosa católica, é quase inevitável a comparação histórica com as 30 moedas de prata com que Judas Iscariotes vendeu a confiança e a lealdade de Cristo, para seu ganho pessoal. É assim que muitos barreirenses que conheço se sentem, traídos!
Compreendo-os, mas não quer isto dizer que eu concordasse com a tal ‘visão’, que depois se transformou em ‘ambição’. Eu defendo o território da Braamcamp livre de especulação imobiliária.

Vender a Braamcamp e construir prédios para uma suposta minoria de novos ricos que viriam salvar o Barreiro (!) ao ir viver na melhor das frentes ribeirinhas desta terra que, para que tal se realizasse seria interdita à maioria da população, recorda-me a afirmação de um governante do Barreiro. Dizia que determinado projecto do executivo anterior iria estragar o diamante em bruto que era a zona ribeirinha. Até hoje ainda não lhe ouvi uma palavra sobre o que estes querem fazer na Braamcamp.

Eu defendo uma Braamcamp protegida enquanto espaço natural, com equipamentos desportivos e de lazer, algum edificado mas respeitando a memória histórica da quinta: os seus palacetes, armazéns industriais e o moinho de maré do século XVIII. E acima de tudo, que a Braamcamp permaneça na esfera pública, propriedade do Município. Temos direito a ela, depois de muitos séculos em que esteve fechada, devido a ser propriedade privada. Hoje isso não acontece, ela é pública e é assim que deve permanecer.

Pretender construir prédios na Braamcamp é, além do mais, um contrassenso, reconhecidas que são hoje as consequências das alterações climáticas, especialmente num território tão sensível como a Braamcamp. Até neste aspecto se denota desonestidade intelectual, ao pretende vender a incautos investidores terrenos que, em pouco anos, ficarão submersos pela subida das marés como demonstram os mais diversos estudos publicados.

Este tipo de atitude política – enganar descaradamente a população e com cinismo dizer o seu contrário – é algo novo, não faz parte da história política do Barreiro. No Barreiro, antes e depois do 25 de Abril, as forças e os campos estavam bem definidos. E respeitavam-se as mútuas diferenças. Hoje este PS joga um jogo perigoso, sobretudo perigoso para a Democracia, porque não é transparente e aposta no populismo.

Não pode valer tudo em política. Deve haver sensatez. Deve existir honestidade. Quem está nos cargos públicos e administra o território onde vivem milhares de cidadãos deve pensar no futuro colectivo e não apenas olhar para si, ou para os da sua cor. Uma comunidade é feita de muitas cores, opiniões e vontades. Em Democracia é assim.
Um executivo municipal não pode estar tão cheio de si que não ouça as diferentes vozes à sua volta. E elas já são muitas. São elas que decidem o futuro e quem fará parte dele.

Rosalina Carmona
Cidadã
Historiadora

16.02.2020 - 09:01

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