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Agir já, planear já, para espoletar rapidamente a economia da cidade

Por Luís Tavares Bravo

Barreiro

Agir já, planear já, para espoletar rapidamente a economia da cidade<br /><br>
Por Luís Tavares Bravo<br /><br>
Barreiro Reiniciar as economias locais, criando processos de mobilidade controlada dentro das comunidades de forma a diminuir os riscos de uma re-propagação será fundamental para devolver confiança e proteger os pequenos negócios e famílias

Todos conhecemos a razão pela qual estamos confinados em casa, e que tem sido evidenciada pela imagem que vale mais de mil palavras, e pela frase que que sintetiza facilmente a estratégia de isolamento do país: É preciso alisar a curva, para que o Sistema Nacional de Saúde não entre em colapso. O racional é simples, existe apenas um número limitado de recursos e equipamentos médicos para tratar os casos mais graves que requerem internamento, e ainda mais limitado para situações de extrema gravidade (que requerem equipamentos como os ventiladores para UCI, que são negociados a peso de ouro nos mercados internacionais). Portanto, quanto menos casos forme surgindo ao longo do tempo , menor vai ser a pressão sobre os nossos profissionais de saúde, menores probabilidade temos de rotura na rede hospitalar, que vai tendo tempo para gerir os casos graves sem ter que optar por quem se salva, e quem fica por sua conta. Este é no fundo, um processo para comprar tempo. Quanto maior for a fragilidade da infraestrutura de saúde de um país, mais tempo será preciso comprar, e consequentemente maior terá que ser o alisamento da famosa curva de severidade sanitária, e por fim isto significa que maior terá que ser a restrição à mobilidade das pessoas, seja em medidas, seja sobretudo em tempo de duração do estado de emergência.



A outra "curva" que não pode ser ignorada



Esta é a curva que todos conhecemos, mas existe outra menos falada e que é fundamental dar a conhecer porque alisar esta curva representa tarefa tão hercúlea e importante como proteger as populações do vírus. A curva da severidade da recessão, e que tem ela também por detrás um exercício simples. Quanto maiores forem os incentivos para mitigar os impactes da pandemia na economia, menor será a severidade na perca de empregos e de poder de compra. E quanto mais rápido se conseguir agir para repor condições que permitam repor a normalidade, menor será a pressão sobre a capacidade do Estado de alimentar subsídios como resposta, diminuindo a pressão sobre as contas públicas, e desta forma evitando a rutura financeira, que aumentaria a severidade da recessão que está à porta.



Quando as curvas colidem



Ter uma curva muito achatada na gestão sanitária colide com a necessidade de atacar rapidamente a curva da recessão económica. A meio caminho, algo vai ficar na zona de risco. Dificilmente poderemos ter a população ativa mais de 2 ou 3 meses totalmente fechada em casa sem consequências elevadas em termos económicos, mas também sociais. O pico do surto em Portugal está estimado para a última metade de Abril. Mas dificilmente a economia aguentará que o fade-out do estado de emergência seja realizado em linha com a curva de controlo sanitário (até final de Junho). Isto significa que pelo menos parcialmente o regresso ao trabalho terá que ocorrer até meio do mês de Maio. Isto será crucial para que o próprio estado possa continuar a suportar alguns sectores da economia, como o Turismo (acossado entre a pandemia, e o atual caótico cenário de Espanha de onde poderiam vir os primeiros ensaios de abertura), e criar uma agenda de reforma profunda que permita ajudar as empresas a reposicionar-se nos próximos 12 a 18 meses.








O papel fundamental de planear a recuperação pelas economias locais



Reiniciar as economias locais, criando processos de mobilidade controlada dentro das comunidades de forma a diminuir os riscos de uma re-propagação será fundamental para devolver confiança e proteger os pequenos negócios e famílias. Com a globalização desativada, serão os ecossistemas de consumo privado que poderão ser o ponto de partida essenciais para que a curva de severidade económica seja menos acentuada, e que desta forma a capacidade de resposta estatal não entre em colapso. As autarquias podem e devem assumir um papel fundamental nesta fase, que não pode ser ignorado.



Não nos podemos render ao medo de voltar a trabalhar. Começar localmente importa.



Hoje a consciencialização das populações para os riscos da pandemia é significativa. Tanto que tem representado um fator positivo na estratégia de contenção da propagação da pandemia em Portugal. Mas voltar à normalidade, exige uma confiança pode não ser restabelecida apenas pelas medidas sanitárias. O tempo que exige uma contenção total colide com a silenciosa urgência para que as empresas e o comercio voltem a poder operar. Não se pode nem se deve alimentar o medo de voltar ao trabalho. É preciso começar a trabalhar num plano que permita devolver confiança na rua, e que os pequenos negócios funcionem. Ao mesmo tempo que se assegura um equilíbrio com as preocupações sanitárias



Gerir localmente processos de reposição da normalidade de forma gradual e com risco controlado será a chave do sucesso. Uma forma de começar passa por um lado, por conseguir manter as restrições de movimentação em termos de concelhos, mantendo o que foi decretado para a Páscoa. Isto permite controlar as saídas e entradas na cidade, e manter restrições ao nível da necessidade profissional. Por outro lado, seria vital ter garantias acima da dúvida razoável de que quem circula não é portador do vírus, mesmo que sem sintomas. Testar muitos habitantes, recorrentemente e rapidamente poderá por isso, ser fundamental para uma recuperação mais acelerada da economia local. Tudo passa por rapidamente conheceremos a fotografia da população (os assintomáticos são os que representam maior risco de uma nova propagação), ou pelo menos de grande parte dela. E certificar com um comprovativo, e criar rotinas de reavaliação.



O papel de liderança autárquica e capacidade de planear para agir é fundamental



Certamente existirão obstáculos e barreiras a ultrapassar para que uma autarquia consiga isolar-se dos casos "importados", e testar toda a sua população ativa, ou quase toda. É este o principal esforço que a autarquia tem que levar a cabo, partilhando custos com os stakeholders privados (empresas empregadoras e os próprios trabalhadores), nomeadamente no que diz respeito aos custos dos kits de teste, e de equipamentos de proteção adequados a cada função - assim como a utilização de máscaras como hábito obrigatório, agora que a OMS assume a sua relevância para mitigação da pandemia.



Esta é a curva que se deve começar a "alisar agora". Sem os argumentos macro - como o turismo ou procura internacional - serão em primeiro lugar as comunidades locais que podem alimentar a procura. O esforço atual é ainda manter as pessoas em casa por razões sanitárias. Mas será importante pensar já nas condições em que poderemos rapidamente colocar a economia local a operar em cenário de risco controlado. Alisar esta curva será, muito em breve, tão importante como alisar a curva da pandemia.



Luís Tavares Bravo, Economista.

04.04.2020 - 12:55

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