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MEMÓRIA, TAMBÉM HOMENAGEM
VIVA O 1.º DE MAIO
Por Armando Teixeira
Barreiro

MEMÓRIA, TAMBÉM HOMENAGEM<br />
VIVA O 1.º DE MAIO<br />
Por Armando Teixeira <br />
Barreiro Porque a memória é um instrumento fundamental para construir o presente e projectar o futuro, faço público testemunho-homenagem a um homem que pela sua lhaneza e integridade, inteligência e coerência, consequência e espirito revolucionário, ficará sempre entre nós.

Durante muitos anos encontrámo-nos na Alameda. Dizia com o seu sorriso modesto:
-Já sabes, como sindicalista não posso faltar!
A idade ia avançando, 70, 80 anos e o Manuel não faltava nem perdia as suas convicções de revolucionário e internacionalista. Os ideias de defesa da emancipação dos trabalhadores e da melhoria das suas condições de vida, animaram os anos como presidente do Sindicato da Construção Civil do Distrito de Setúbal. Nos primeiros tempos da Revolução de Abril, a luta acesa pela melhoria dos salários na empresa onde trabalhou quase 40 anos, levou ao confronto com a Administração que em parte e em ideologia vinha dos tempos da CUF monopolista e oligárquica.
- Senhor Manuel, temos uma proposta para passar a quadro de carreira. Como encarregado e com os seus conhecimentos …
- Senhor engenheiro Mota, não vendo os meus ideais por um prato de lentilhas, nunca trairei a classe a que pertenço!
Têmpera rija, caldeada nos anos de resistência à exploração desenfreada do trabalho na construção civil. Imigrante jovem nos anos 40, vindo do Alentejo profundo para a construção dinâmica na terra da grande indústria química em expansão, com incidência no perímetro tradicional aquém da linha dos Caminhos de Ferro.
Manuel assistiu às grandes movimentações na vila durante as greves operárias de 1943, a sua obra parou na tarde de 29 de julho, quando a cavalaria da GNR perseguia e espadeirava centenas de trabalhadores grevistas pelas ruas e jardins da vila operária e industrial.
Vila que na década seguinte registaria a expansão além-comboio, abrindo os horizontes para sul, tal como se abriram para Manuel Revés, curioso, estudioso, autodidata, democrata, comunista. Aderiu ao MUD Juvenil, que no período dos pós II Guerra Mundial juntava a juventude nos ideais da paz e progresso social, em iniciativas de convívio e discussão política e cívica (participou num célebre encontro em Alpiarça em 1956).
Leitor compulsivo, desvendando nos grandes romances o sentido dos caminhos da humanidade honrada e progressista, Manuel participou nas tertúlias da “Boleira do Parque” e colaborou na Comissão Cultural do Luso nos anos 50, em época de grande expansão da leitura dos livros expostos e dos proibidos pelo fascismo que circulavam nos “Subterrâneos da Liberdade”, longe da vista da polícia de Salazar (então a PVDE), que de vez em quando fazia “visitas” às bibliotecas dos clubes e coletividades insubmissas, numa terra de gente que resistia e lutava pela melhoria da vida ruim e pela transformação do mundo.
Aos 96 anos, encontrávamo-nos agora mais raramente, mas sempres com a mesma lucidez. A memória dos sacos de 100 Kg que foi carregar nos primórdios na Companhia União Fabril, erguida com o suor (e o sangue) de milhares e milhares de proletários; a alegria de ter feito o curso industrial noturno na Escola Alfredo da Silva (o grande patrono que já não conheceu, mas sabia caracterizar muito bem); a certeza num futuro mais equânime no país com o seu Partido Comunista Português, de 75 anos de militância; o amor à leitura do “Avante!”, que recebera a primeira vez no distante ano de 1945, em tempos de regozijo pelo fim da guerra; e a certeza histórica de que o imperialismo e o capitalismo americano um dia será suplantado para um futuro mais feliz da humanidade: “Sabes amigo, a América nunca desistirá de destruir a Rússia, como destruiu a União Soviética!”
Este ano não nos encontraremos na Alameda, amigo Manuel! Também não posso lá ir!
Até sempre camarada!
Viva o 1.º de Maio!

Armando Sousa Teixeira

P.S – Manuel Revés faleceu em abril de 2020, nasceu em 1923 em São Marcos de Ataboeira.

01.05.2020 - 20:37

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