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BUENOS AIRES TEMPOS DE PAIXÃO
A LUTA ÉPICA DOS ALUNOS DO INSTITUTO INDUSTRIAL DE LISBOA
Por Armando Sousa Teixeira ~
Barreiro

BUENOS AIRES TEMPOS DE PAIXÃO<br />
A LUTA ÉPICA DOS ALUNOS DO INSTITUTO INDUSTRIAL DE LISBOA<br />
Por Armando Sousa Teixeira ~<br />
Barreiro Esta história é uma homenagem a essa juventude generosa, a todos os activistas associativos que precederam e procederam os acontecimentos de 21/5/1970, extensiva a todos os estudantes portugueses que ajudaram a construir Abril.

INTRODUÇÃO

Há 50 anos centenas de rapazes e raparigas travaram uma luta exemplar no antigo Instituto Industrial de Lisboa, então situado na Rua de Buenos Aires (à Estrela) em defesa da sua Associação de estudantes (ADAIIL), pela liberdade de reunião e de expressão, por um ensino superior universal, democrático e evoluído, numa Pátria livre do fascismo, da guerra colonial, democrático e progressista.

Esta história é uma homenagem a essa juventude generosa, a todos os activistas associativos que precederam e procederam os acontecimentos de 21/5/1970, extensiva a todos os estudantes portugueses que ajudaram a construir Abril.

CRÓNICA DE UMA DERROTA ANUNCIADA

Sete e meia da manhã fresca de Maio. Chegam os primeiros estudantes e alguns elementos do piquete organizado à porta do velho palacete no bairro da Lapa, onde funcionava há décadas o Instituto Industrial de Lisboa. O portão de madeira, largo e trabalhado, estava fechado e a pequena porta-de-homem, entreaberta, era guardada pelo “contínuo-bufo”, o senhor Silva. Ninguém entra!

João dormiu muito mal, num sofá improvisado no quarto de aluguer do Xavi, a única oferta solidária para a pernoita, não muito longe da escola. Preocupado com o desenlace daquela decisão temerária de fazer greve aos exames, insistira na reunião de preparação que durara até às tantas, para ninguém se “baldar” ao piquete. Não fora dormir a casa, distante, do outro lado do rio, para garantir a presença no fim da madrugada estremunhada na capital do império ainda a acordar.

Um quarto para as oito! Chega mais gente, a discussão aquece o ambiente. Muitos colegas desconhecem a situação, a receptividade da mensagem é aparentemente boa, os argumentos do piquete são em geral convincentes, mas muitos alunos permaneceram renitentes: “Perdemos muitas horas de trabalho, quiçá o ano!”. Hesitam!...

Faltam agora cinco minutos para o início das provas. Chegam duas carrinhas da PSP que descarregam no lado oposto da rua dezenas de guardas armados com bastões, a pequena multidão agita-se e extravasa o passeio fronteiro, alonga-se pela rua de Buenos Aires, o trânsito fica interrompido, o eléctrico 26 pára! O piquete cerra fileiras frente ao portão e grita-se: “Estamos em luta! Estamos em greve!
Oito horas! A campainha da escola soa de forma estridente, aflitiva, num tocar lancinante como nunca se tinha ouvido, ou já não se notava pela força do hábito quebrado pela tensão do momento.
A polícia avançou em formatura cerrada com os bastões ameaçadores:
- Estamos em greve! Unidade! Ninguém arreda pé!

O grito soa desesperado quando o portão se abre como por milagre (organizado pelo São Mário). A multidão precipita-se para o interior, com os guardas a empurrarem, arreando bastonadas nos recalcitrantes e perseguindo alguns membros do piquete que não tinham exame nesse dia, apontados pelo bufo de serviço, o incontornável Silva:
- “Xão” aqueles, “xenhor comixário”! O de óculos grossos é o “prexidente”!
A maioria dos activistas escapa-se lateralmente como estava combinado, juntando-se frente à “Conimbricense” que já abrira as portas, evitando complicações maiores. Com uma excepção “fatal” do novo presidente, eleito há um mês, que se foi meter na “boca do lobo”. Inocência ou fanfarronice? Um desastre anunciado desde a preparação da lista que não terá sido devidamente ponderado.

“Surfando” a onda, no dia seguinte o director da escola fez publicar um ofício com o timbre da Direcção Geral do Ensino Técnico, mas assinado pelo próprio, declarando que em consequência dos graves tumultos provocados por um “grupo de desordeiros com responsabilidades na direcção da associação”, as instalações da ADAIIL ficavam seladas, as suas actividades suspensas, sendo os seus dirigentes sujeitos a processos disciplinares por incitamento à violência e à desordem.

O plano tenebroso de asfixia e silenciamento concretizava-se e a Associação Desportiva dos Alunos do Instituto Industrial de Lisboa, das mais antigas a nível nacional, criada em 1934, ficou encerrada até à Revolução de Abril de 1974. Mas não iria cair sem luta, decidiram os seus colaboradores mais consequentes.
*
O fracasso do boicote aos exames de frequência, que tinha sido previsto e prevenido (foram várias as orelhas moucas!...), teve de imediato consequências tremendas. Os “radicais” que tinham votado a proposta maioritariamente, incluindo o presidente da direcção, desapareceram na voragem dos dias de ressaca, alguns nunca mais foram vistos. A preparação dos exames a todos absorvia, num tempo em que se jogava o trabalho de todo o ano lectivo, mas a debandada era elucidativa.

Eram agora perceptíveis as sucessivas incorreções na condução da luta no último mês: a radicalização da linguagem nos documentos, a orientação da “ofensiva permanente” à medida que diminuía a mobilização dos estudantes. Por último a “fuga para a frente”, decidindo-se a greve aos exames sem uma base de sustentação sólida e sem a análise cuidada do ânimo e disposição dos alunos.

A reunião com um grupo de professores, proposta como forma de “aproximar os campos extremados”, aprovada na RGA de 20/5/70, parecia agora ser a “tábua de salvação” (inconsequente!) para quem acreditava ainda na boa vontade negocial das autoridades escolares. Pesasse embora a profunda frustração da (não) intervenção ministerial, sucessivamente postergada nos últimos meses pelo gabinete e pelos vários subsecretários de estado do ministro Veiga Simão, que entretanto já saíra do hospital. Esta deriva oportunista iria ter uma clarificação meridiana no futuro próximo, quando se voltasse à luta difícil, persistente, corajosa contra um inimigo com arreguenho policial e demagogia reformista. No Instituto Industrial de Lisboa voltaria a porfiar-se para conseguir o milagre da “Fénix Renascida”, mas como poucos acreditavam em milagres, o melhor era voltar ao trabalho e à luta académica, agora em condições mais difíceis. Foi o que fizeram!

Armando Sousa Teixeira

16.05.2020 - 18:19

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