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A Miséria que nos governa
Por Nelson Sitima
Barreiro

A Miséria que nos governa<br />
Por Nelson Sitima<br />
Barreiro O anúncio do encerramento da Cantina Solidária da Cooperativa Mula deixou-me preocupado, triste, mas deixou-me ainda mais revoltado, porque o Presidente da Câmara, intencionalmente deixou cair a Cantina Solidária da Mula e com ela todas as pessoas que daí recebiam uma refeição quente, pão e outros bens alimentares. Se ao menos o cheque cultura desse para trocar por comida…. mas não dá, talvez um cheque fome, que deverá ser a “visão” para as próximas eleições.

Os tempos que estamos a viver são estranhos e de futuro incerto, mas daqui sairá, com toda a certeza, um ainda maior aumento das desigualdades sociais, e crescerá o numero, já pornográfico, de pobres, de gente que não tem sustento, que não tinha ou deixou de ter o que comer e não terá nos tempos mais próximos, tal era frágil a camada que separava classe média baixa, pobres, muito pobres e menos pobres, num país em que cerca de 25% da população activa vive com o ordenado mínimo, e dezenas de milhares de pensionistas com pensões abaixo dos 500€, é fácil ver esta base social a colapsar. Este fenómeno não acontece só ali naquele e no outro bairro, pode estar a acontecer agora no nosso prédio, na nossa rua. Este fenómeno nem sequer é novo, infelizmente, mas muitas mais pessoas ficaram expostas e desprotegidas.

Com enorme sensibilidade social, a Mula meteu mãos à obra assim que percebeu o que aí vinha, e fê-lo com tal brilhantismo, prontidão, entrega e amor, que montou uma operação sem igual, com um contingente de voluntários e donativos. E para que tenhamos todos noção do alcance, a Mula distribuiu gratuitamente 3294 refeições, cozeu no seu forno de lenha 560 pães, que distribuiu gratuitamente e entregou 122 cabazes a famílias, sempre sem cobrar um tostão.

A Mula prestou um serviço único, sem paralelo na nossa cidade, insubstituível, por mais que nos queiram convencer do contrário. E porquê? Porque a boa gente da Mula, fez o que fez numa base de humanidade, apenas e só. Quem os contactou, não precisou de preencher nenhum impresso, ir para nenhuma fila, apresentar o número da segurança social (que por vezes nem existe), ficar a aguardar a visita de um técnico, ser inscrito numa lista de espera, ou seja, entrar no sistema. Apenas precisou de dizer que precisava e onde e a mula chegou lá no dia seguinte, às vezes até no próprio dia.
Porque um dos problemas de “entrar no sistema” é a espera, a burocracia, as dificuldades que se colocam a quem tem fome, e quem tem fome precisa de ajuda já, para ontem. E a Mula esteve lá, como nenhuma outra instituição, e isto meus caros, vale ouro e só merece de todos nós, gratidão.

Mas o poder local assim não entende, a maioria que dirige os destinos da cidade, não gosta e tem medo de gente que trabalha assim, a troco de nada. Preferem outras ajudas, outras caridades, outros modos de funcionamento, as tais que estão dentro do “sistema”, as ajudas Jonet, que absorvem tudo e distribuem muito pouco com demasiado alarido.
Preferem aparecer com 2 pacotes de arroz, um fotógrafo e um drone, preferem atirar instituições umas contra as outras, como disse o Presidente da Câmara: “…prefiro dar dinheiro aos bombeiros que dar dinheiro à Mula”. Inacreditável! O executivo PS prefere ignorar a Mula, ignorar por preconceito moral e ideológico, ignorar por vingança, ignorar por mesquinhez, mas acima de tudo, ignora a Mula, porque ignora quem passa dificuldades nesta cidade, ignora as necessidades dos seus munícipes, no fim, ignora tudo o que não dá show-off, tudo o que não serve para a “politica espetáculo”.

O anúncio do encerramento da Cantina Solidária da Cooperativa Mula deixou-me preocupado, triste, mas deixou-me ainda mais revoltado, porque o Presidente da Câmara, intencionalmente deixou cair a Cantina Solidária da Mula e com ela todas as pessoas que daí recebiam uma refeição quente, pão e outros bens alimentares. Se ao menos o cheque cultura desse para trocar por comida…. mas não dá, talvez um cheque fome, que deverá ser a “visão” para as próximas eleições. É esta a miséria que nos governa.
Convido todos os Barreirenses a unirem-se em torno deste projecto, a não deixarem morrer quem está a matar a fome a troco de nada.

Nelsom Sitima

22.05.2020 - 19:25

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