Conta Loios

opinião

Pela Memória. Nota histórica sobre a Quinta Braamcamp
Por Rosalina Carmona
Barreiro

Pela Memória. Nota histórica sobre a Quinta Braamcamp<br />
Por Rosalina Carmona<br />
Barreiro O sítio hoje conhecido como Quinta Braamcamp era um baldio na Ponta do Mexilhoeiro a noroeste da orla marítima do Barreiro onde, em época indeterminada, foi construído um moinho de maré de sete pedras.

Dois anos após o grande terramoto do século XVIII sofreu grande dano, começando a sua reedificação em 1757

Sabe-se que, mais para Sul, no então Cabo de Pero Moço (Alburrica), existiam engenhos moageiros desde o século XV, não sendo de excluir que o moinho existente em 1757 já ali pudesse estar levantado antes desta data. Só uma investigação arqueológica na zona envolvente, ou mesmo na caldeira do moinho, poderá carrear novos elementos que permitam datar com mais precisão a sua edificação. O moinho foi reedificado pelo seu proprietário, Vasco Lourenço Veloso, não com as sete mós originais, mas aumentando-lhe a capacidade produtiva para dez (10) pares de mós, tornando-se um dos maiores na foz do Coina e no estuário do Tejo. Em 1804 o moinho é comprado pelo Barão do Sobral, Geraldo Venceslau Braamcamp e é então que ganha a denominação de moinho do Braamcamp.

Quando veio para o Barreiro, Braamcamp trazia o legado das manufacturas têxteis pombalinas e, tirando proveito dos terrenos aráveis da Quinta, procedeu à plantação de um pomar de amoreiras com que havia de alimentar a criação de bichos-da-seda, destinada à produção de fio para as fábricas de Portalegre. Talvez daqui tenha nascido um dos primeiros impulsos protoindustriais do Barreiro. Terá sido a sua visão industrial que o terá motivado a construir um engenho moageiro que não teria paralelo em Portugal. Não se sabe se foi construído, ou não saiu do papel, mais uma vez só a pesquisa arqueológica complementada com a histórica permitirá obter mais certezas.

Em 1837 morre o Barão e a Quinta é herdada pelo filho, Anselmo Braamcamp que, volvido pouco tempo a permuta com uma família inglesa, os Wheelhouse. A partir daqui a Quinta Braamcamp começa a ser conhecida como “Quinta dos Ingleses” mas o moinho, continuamente a produzir farinha para Lisboa, será sempre “do Braamcamp” consolidando o topónimo do sítio. Diga-se de passagem que os Wheelhouse introduziram na Quinta o fabrico de “bolacha” ou pão, actividade que desde 1830 mantinham em Lisboa numa fábrica no antigo Convento de S. Francisco, hoje Museu do Chiado, onde ainda se podem ver parte dos fornos de pão.

Os Wheelhouse vendem a Quinta Braamcamp em 1884, aos seus compatriotas britânicos Reynolds. São estes, industriais de fabricação de cortiça no Alentejo que trazem a cortiça para a Quinta, com uma unidade produtiva para exportação de prancha que já funcionava desde 1882, em regime de arrendamento. No ano seguinte a família Reynolds já realizara obras na Quinta, fazendo dela a sua habitação permanente. Em 1884 a propriedade Reynolds compunha-se de «casas de habitação, armazéns, casa que foi fábrica de bolachas, moinho e motor de água, terras de semeadura e diversas arvores». Com a falência dos Reynolds a quinta é vendida em 1895 a outra firma inglesa, a The Cork Company Ltd e em 1897, a passa à posse da Sociedade Nacional de Cortiças. Contudo, os ingleses continuaram a habitar no seu palácio da Quinta Braamcamp, até 1969.

Foi por lá viverem ingleses que, durante a II Guerra Mundial, concretamente em Julho de 1943 no decurso da maior greve que paralisou as fábricas da CUF e deu origem a marchas da fome pelas ruas do Barreiro, que a Quinta dos Ingleses atraiu a atenção da PVDE. A Grã-Bretanha, país integrante da frente antifascista que combatia o nazifascismo na Europa, era objecto de espionagem e os seus cidadãos vigiados pela polícia política. A Quinta dos Ingleses, e os seus moradores, são acusados de apoiar os grevistas distribuindo auxílio em bens alimentares em certos dias, para o que seria arvorada a bandeira inglesa na Quinta. A greve seria sufocada com violência inaudita pelo Comando Militar que, a partir de então, ocupou a Vila do Barreiro.
No final da II Guerra, nos dias 8 e 9 de Maio de 1945 é, de novo, para a Quinta dos Ingleses que se dirigem as manifestações de regozijo pelo fim do conflito mundial, tendo a PVDE efectuado dezenas de prisões.
Em 1973 a Quinta/Fábrica de cortiça é adquirida, em parte, por um antigo funcionário, Edmundo Luís Rodrigues Pereira que, cinco anos depois, a compra na totalidade passando a ter a designação última de Essence. De 1975 até 2008 a fábrica mantém-se em laboração, com altos e baixos, sendo declarada falência financeira em 2008. Em 2010 todo o recheio foi vendido como sucata e os terrenos passaram para a posse do Banco Comercial Português. No ano seguinte, 2011, dois incêndios com origem criminosa destroem primeiro o moinho setecentista (Fevereiro), depois as instalações fabris, armazéns, o grande palacete oitocentista e outros edifícios anexos (Setembro). A partir de 2011 a Quinta Braamcamp está a saque e é destruído o que restava daquele património edificado e industrial.

Em Novembro de 2015 a Câmara Municipal do Barreiro, em reunião privada de 4 de Novembro, aprova por unanimidade a compra da Quinta retirando-a do mercado imobiliário e afirmando um discurso e uma estratégia de fruição pública generalizada, numa zona privilegiada do concelho. A escritura pública seria assinada em Dezembro de 2016. A 6 de Julho de 2017 a Câmara Municipal aprova a classificação patrimonial de Alburrica, Mexilhoeiro e todo o património moageiro com a Quinta Braamcamp incluída. A classificação do Sítio de Alburrica e do Mexilhoeiro e seu Património Moageiro, Ambiental e Paisagístico é publicada em Diário da República, 2ª Série, nº 139 de 20-07-2017.

Em 2017 as eleições autárquicas mudam o rumo político do concelho e o PS vencedor, que afirmava “uma visão” para a Braamcamp onde o que sobressaía era um parque temático e uma roda gigante, toma uma atitude distinta do anterior executivo CDU. Em Março de 2018, o actual Presidente da Câmara desloca-se a uma Feira Internacional Imobiliária, onde vai promover o território da Quinta Braamcamp, já com vista à sua venda. Em 2019, o actual executivo com o voto de qualidade do Presidente da Câmara decide-se pela alienação da Quinta. A decisão seria ratificada pela Assembleia Municipal, mas apenas com um voto de diferença. A decisão dividiu a opinião pública e, ainda nesse mês de Março, uma assembleia de cidadãos dá corpo à Plataforma Cívica “Braamcamp é de Todos”, opondo-se à venda da Quinta. Actualmente a Plataforma deu entrada de uma Providência Cautelar que contesta a alienação da Quinta baseada no facto de colocar em causa os direitos do património público e cultural, da qualidade vida, do urbanismo, do ordenamento do território, do ambiente, bem como o de assegurar a defesa dos bens das autarquias locais. A Providência aguarda decisão do Tribunal.

Rosalina Carmona
Historiadora, membro da Plataforma “A Braamcamp é de Todos”

Fontes: AN/TT, Notarial de Lisboa, Cx. IV-261; Guia Documental da Casa Reynolds/Sociedade Nacional de Cortiças, CMB, 1014; AHM, Comando Militar do Barreiro; Diálogo entre Memória e Contemporaneidade, repositório FA-UTL, GALRÃO, Inês, tese de Mestrado, 2013

26.05.2020 - 18:09

Imprimir   imprimir

PUB.

Pesquisar outras notícias no Google

Design: Rostos Design

Fotografia e Textos: Jornal Rostos.

Copyright © 2002-2020 Todos os direitos reservados.