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Barreiro, uma governação embrulhada
Por Fernando Catarino

Barreiro, uma governação embrulhada<br />
Por Fernando Catarino O episódio das saboneteiras foi a melhor imagem que poderia encontrar para definir a atuação deste executivo ao longo dos quase 3 anos de mandato. Sendo uma autorrepresentação, ganha ainda mais força e vigor.

Gastar o dobro do valor, quase €4.000,00 (já com IVA), para embrulhar um presente, já de si, é descabido. Se atentarmos no facto de ter sido oferecido, então, já entramos na categoria de surreal.

É certo que o episódio não pode ser isolado do conjunto de despesas que foram alocadas à COVID-19, mas também é certo que é revelador das prioridades do atual executivo.

No mesmo mês em que vemos uma instituição deixar de servir refeições solidárias aos mais desfavorecidos por falta de meios económicos e uma recusa clara e inequívoca do atual presidente e da sua equipa em contribuir para a manutenção dessa cantina solidária, embrulhamos €4.000,00 em caixas de plástico com um impacto ambiental terrível e eficácia, no mínimo, duvidosa. O valor correspondente a cerca de mais de mês e meio de refeições para os mais afetados por esta crise trocados por uma superfície onde seja possível colocar um autocolante com referência à Câmara Municipal do Barreiro é, reitera-se, a definição perfeita das prioridades do atual executivo: autopromoção em vez de solidariedade, campanha política em vez de cuidado pelo próximo, superioridade em vez de ajuda.

E não, não seguimos juntos, Senhor Presidente. Há muitos que ficam sozinhos, para trás, esquecidos, sem uma refeição quente, sem um apoio que lhes era fundamental. Há pessoas que ficam sozinhas porque vocês assim o quiseram!
Mas esta é uma governação embrulhada não apenas em saboneteiras, é uma governação embrulhada num plano de comunicação super agressivo, capaz de transformar a mais pequena atividade de agenda num acontecimento de proporções épicas que arrasta o Barreiro de anos de estagnação para um futuro glorioso e auspicioso. No entanto, importa referir que progresso não é utilizar um drone para embrulhar uma mão cheia de nada. Evolução não é aparecer vezes sem conta no site do município e nos TCB. Avanço não é usar dinheiros públicos para criar conteúdo de redes sociais privadas.

Progresso é fazer obra (própria, não do LIDL). Evolução é planificar não simplesmente executar (o que foi deixado pelo anterior executivo). Avançar é ter um plano estratégico sustentado e não andar ao sabor do vento e dos desejos pessoais.

Mas esta é também uma governação embrulhada não apenas em saboneteiras, mas nos seus próprios nós: o processo da Braamcamp, a ponte Barreiro-Seixal, o Terminal de Contentores, o Aeroporto no Montijo, a fraquíssima taxa de execução de fundos comunitários, a concessão da eletricidade no concelho, o lixo e as ervas nas ruas, os buracos nas estradas e passeios, o preço e a qualidade da água, as reuniões de câmara, a falta de solidariedade e humanidade, as máscaras prometidas que teimam em não chegar, as avenças e a lista podia continuar porque as embrulhadas são tantas que muitas já caíram no esquecimento.

Vivemos, atualmente, numa promessa de Barreiro embrulhada em belos vídeos e campanhas de publicidade bem pagas. Mas numa realidade de Barreiro em que as sucessivas embrulhadas nem com belas caixas de plástico cor de rosa se conseguem disfarçar.


Fernando Catarino

28.05.2020 - 16:33

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