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A PANDEMIA NÃO ADIOU O CALENDÁRIO ELEITORAL NO BARREIRO
Por André Carapinha

A PANDEMIA NÃO ADIOU O CALENDÁRIO ELEITORAL NO BARREIRO<br />
Por André Carapinha Por falar em calendários eleitorais: os meses passam, e é cada vez mais urgente que a única força política capaz de liderar uma verdadeira alternativa ao executivo PS, a CDU, tome o passo decisivo de se abrir à sociedade civil.

Perante o actual quadro de eleitoralismo desenfreado que o PS/Barreiro protagoniza, com uma presença constante nas redes sociais, com marketeers que trabalham profissionalmente, com um culto da personalidade do Presidente da Câmara cada vez mais construído, o futuro do Barreiro exige mais da oposição.

A Pandemia da Covid 19 provoca uma espécie de suspensão do tempo habitual. Os dias parecem, para muitos, repetições do anterior, e as preocupações andam longe de assuntos mundanos e muitas vezes mesquinhos como a política local. Mas a verdade é que o tempo não parou, e estes últimos dois meses significaram dois meses a menos para as eleições autárquicas de Outubro de 2021. O que ajudará a explicar algumas decisões recentes do executivo municipal.

Se duvidas existissem de que, pelo menos em relação ao timing, a decisão do executivo PS na venda apressada da Quinta do Braamcamp está absolutamente condicionada pelo calendário eleitoral, os últimos desenvolvimentos vieram afastá-las totalmente. Perante uma providência cautelar apresentada no Tribunal Administrativo e Fiscal de Almada pela Associação Barreiro Património Memória e Futuro, que foi aprovada e assim suspendeu, ao abrigo de uma Acção Popular, todos os actos administrativos do processo de venda, optou o presidente da Câmara Municipal do Barreiro, por um acto verdadeiramente inusitado e de duvidosíssima legalidade: uma chamada “Resolução Fundamentada”, tomada em nome próprio e à revelia de todos os órgãos eleitos da cidade; que foi levada a ratificação em sessões de Câmara Municipal e de Assembleia Municipal em data posterior aquela em que foi apresentada em tribunal. É com base neste expediente que o presidente da Câmara Municipal do Barreiro, Frederico Rosa, decidiu continuar o processo através da abertura das duas propostas apresentadas para a venda; e que, a acreditar nas suas mais recentes declarações, pretende avançar com tudo o que a venda implica: decisões do júri, adjudicação de obras, etc. Mais: para dourar o ramalhete do mais absoluto cinismo, o executivo, na voz tanto de Frederico Rosa como do vereador Rui Braga, teve o desplante de passar a incluir como argumento para a “necessidade urgente” da venda da Quinta, a terrível situação da pandemia da Covid19, invocando putativas necessidades urgentes de tesouraria que o combate à pandemia exigiria!

Vamos por agora esquecer o crime ambiental, social e económico que será a venda desta Quinta, sobre o qual já argumentaram aqui e noutros fóruns eu e dezenas de outros cidadãos, incluindo praticamente toda a gente que tem um pensamento minimamente estruturado sobre este território e a sua importância para o Barreiro. Vamos também esquecer o facto de que este tema é tudo menos consensual na nossa cidade e portanto não pode, em boa consciência, ser atirado para a frente da batalha contra a Covid19 como se de uma questão de simples tesouraria se tratasse. Concentremo-nos no processo em si, como está neste momento: sabendo-se que, como é evidente, o tribunal pode decidir em favor de uma ou de outra parte, o que na verdade os orgãos executivos da Câmara Municipal do Barreiro estão a fazer é mais ou menos como jogar à roleta: estão a arriscar um benefício eventual por um possível prejuízo maior que o tal benefício. Isto porque a Câmara Municipal do Barreiro pretende, e isto foi assumido pelo vereador Rui Braga na última sessão da Assembleia Municipal, continuar o processo como nada se passasse, arriscando-se a receber o primeiro sinal do comprador e, na eventualidade de suspensão definitiva do processo em tribunal, ter de devolver esse valor pelo dobro. Para que se entenda, trata-se de um milhão de euros a receber e dois milhões de euros a devolver.

Nesta mesma sessão da Assembleia Municipal, foi dito com toda a coragem pelo deputado da assembleia Victor Castro Nunes, do PSD, aquilo que parece evidente a todos: a pressa de receber este milhão de euros fresco, só se compreende à luz do calendário eleitoral. A ânsia de “mostrar obra” fará estes senhores arriscarem prejuízos desta monta, apenas porque o “fazer obra” tem uma data bem marcada na suas cabeças: Outubro de 2021, as próximas eleições autárquicas. Infelizmente os outros dois deputados deputados municipais do PSD/Barreiro não têm tido a lucidez nem a coragem do deputado Victor Castro Nunes, optando em todas as fases do processo por abstenções tacticas que permitiram viabilizar todas as peças processuais.

Por falar em calendários eleitorais: os meses passam, e é cada vez mais urgente que a única força política capaz de liderar uma verdadeira alternativa ao executivo PS, a CDU, tome o passo decisivo de se abrir à sociedade civil. Perante o actual quadro de eleitoralismo desenfreado que o PS/Barreiro protagoniza, com uma presença constante nas redes sociais, com marketeers que trabalham profissionalmente, com um culto da personalidade do Presidente da Câmara cada vez mais construído, o futuro do Barreiro exige mais da oposição. Não o mesmo que os que lá estão fazem, demagogia, populismo e marketing político, e que é o sinal de alternativas fracas e sem rumo. Exige sim um movimento verdadeiramente agregador, que seja capaz de construir as propostas para o Barreiro que estejam de acordo com aquilo que deve ser uma cidade destas no século XXI: uma cidade que olhe para o ambiente, para a cultura e para a sustentabilidade como as suas marcas diferenciadoras; que se procure integrar com os municípios vizinhos na construção de uma inter-municipalidade que combata as assimetrias e emancipe os seus cidadãos; que gere empregos a longo prazo e não apenas faça negócios duvidosos e obras de fachada; que seja capaz de recuperar as suas áreas deprimidas, em especial o Barreiro Velho, o nosso maior problema, com os que lá moram e não contra eles, rejeitando soluções facilitistas de mercado que não fazem mais que gerar novos problemas, como a gentrificação e a turistificação. Se algo esta pandemia nos ensina, é que esse fluxos de capital que nos apresentam como panaceia são voláteis, e que estas soluções baseadas no lucro imediato são miragens. Queremos construir uma cidade para o futuro. A CDU será capaz de o fazer, se sair rapidamente do choque e da inércia em que vive desde que perdeu as últimas eleições, e também se conseguir resistir à sua tendência habitual de entropia. Será desejável que o faça, mas se não o conseguir, serão os cidadãos do Barreiro a tomar o seu lugar.

André Carapinha


02.06.2020 - 00:01

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