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Destruir estátuas para quê?
Por Gonçalo Brito Graça
Barreiro

Destruir estátuas para quê? <br />
Por Gonçalo Brito Graça<br />
Barreiro A história ensina-nos que sempre que alguém destrói estátuas, há bronca logo a seguir. Apenas dois exemplos: Sadam Hussein e Bezerro de Ouro. Vejamos o caso iraquiano. Parecia que ia correr bem, o Sadam fora deposto, a estátua de bronze foi despedaçada e depois disso? Confusão total. Shiitas contra Sunitas, as forças armadas americanas sem grande rumo, o surgimento do Daesh, etc, etc. O resto já sabemos.

No que respeita ao Bezerro de Ouro, como indica o livro do Êxodo na Bíblia, basicamente foi uma revolta popular contra Moisés.
Aproveitando a ausência do líder, o povo de Israel decidiu retomar as crenças religiosas derretendo todo o ouro que tinham e construir uma estátua votiva em forma bovina. Moisés, lá no alto, ao ver que as suas gentes dançavam e cantavam ao redor do Bezerro, decidiu ele mesmo acabar com semelhante ultraje, excedendo-se de tal forma, que partiu as tábuas dos dez mandamentos. Embora não esteja relatado, certamente também houve coacção física de Moisés aos seus congéneres. Descendo a colina, e tendo a gravidade a seu favor, todos os que lhe apareciam pela frente levavam a sua dose de chapada na cara. Um terceiro caso também poderá ser dado, embora merecesse um texto exclusivo. Há uns tempos, na rua António Maria Cardoso em Lisboa, havia uma casa diferente das outras todas que, durante uns bons anos, exerceu um jogo chamado “A Estátua”. Contam-me os que por lá passaram (ou caso não conheçam ninguém que lá tenha sido encerrado, basta uma visita ao Museu do Aljube para uma rápida elucidação), que a coisa consistia num exercício muito simples. O preso teria de ficar com os braços no ar, em posição de estátua, imóvel, por tempo indeterminado. Caso caísse, caso baixasse os braços, por excesso de fadiga ou de contrações, ou seja, se destruísse a “estátua”, ocorria uma sessão de selvajaria – um verdadeiro arraial de porrada - em bom português. Conclusão: a história ensina-nos que, sempre que há destruição de estátuas, o período seguinte é mau.

Os episódios recentes de iconoclastia e destruição de estátuas nos dois lados do Atlântico indignaram muita gente. Eu incluído. Como historiador do movimento escutista não apreciei a tamanha incoerência mediática acerca da estátua de Baden-Powell em Poole (Inglaterra), com acusações absurdas e retiradas do seu contexto histórico. É o que dá não ler livros de história! Do lado português, a vandalização do monumento ao Padre António Vieira em Lisboa levantou uma maré de protesto. E até mesmo o Padrão dos Descobrimentos surgiu no cerne de uma discussão surda. Num curto espaço de tempo surgiram petições, contra e a favor, umas com o leitmotiv “descolonização”, outras com um nacionalismo bacoco em marca-de-água.

Destruir estátuas não altera o passado. Infelizmente o que aconteceu, já foi. A menos que alguém invente uma máquina do tempo e possa saltar de tempos em tempos e mudar o que bem lhe apeteça, até lá teremos que viver com o que houve. No entanto, poderemos e devemos acrescentar leituras sobre o mesmo passado, e curiosamente temos bons exemplos por onde seguir. Em vez de se destruir, poder-se-iam construir novas estátuas, com outros enfoques pedagógicos e que permitissem a qualquer cidadão pensar sobre a mesma. Por exemplo, há pouco mais de uma década, o Campo Arqueológico de Mértola ergueu uma estátua ao rei taifa Ibn Qasi (1144-1147). Afinal o território que é hoje Portugal também teve monarquias muçulmanas, não só cristãs! A Câmara Municipal de Almodôvar apostou por um museu da escrita do Sudoeste, também conhecida por escrita tartéssica. A primeira impressão do visitante quando chega ao museu é de que antes dos romanos houve um grande reino Tartesso, no sul de Portugal. O Gabinete de Estudos da Ordem de Santiago promove anualmente um encontro internacional em Palmela, onde especialistas das Ordens Militares apresentam os seus estudos sobre a Reconquista. Ou mesmo o agora polémico Padrão dos Descobrimentos, que há dois anos foi palco da exposição “Contar Áfricas!” cujo propósito era oferecer novas perspetivas do continente. A palavra em plural foi propositada, não África, mas sim Áfricas, as muitas Áfricas. São precisamente estes pequenos exemplos que deveriam servir para uma revisão dos manuais escolares. Cada aluno deveria saber que há mais história pré-romana para além dos lusitanos. Que as tropas católicas de D. Afonso Henriques aniquilaram os cristãos arianos que viviam em Lisboa. E que África também teve os seus impérios e as suas redes de escravatura. A cidade Tombuctu ou as pirâmides do Antigo Egipto foram construídas por escravos. Quero com isto dizer que a iconoclastia e o lançamento de estátuas ao rio não são solução para nenhum dos problemas actuais. A menos que alguém queira melhorar os bíceps, mas umas flexões têm resultados idênticos e fazer exercício físico não é crime. A história do colonialismo, da escravatura, do racismo, e de outros problemas deverá ser estudada, ensinada, debatida, e nos devidos espaços. E se assim não for, os partidos políticos deverão providenciar esforços nesse sentido. É para isso que servem os deputados, para representar os cidadãos, todos! Tirar fotografias enquanto se destrói uma estátua para obter o máximo de espectadores no Instagram é apenas absurdo. Com o mesmo telemóvel escreve-se a queixa num mail e envia-se ao Parlamento.

Gonçalo Brito Graça
Historiador

12.06.2020 - 08:28

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