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A MALDIÇÃO DOS 40 ANOS
Por Luís Batista
Barreiro

A MALDIÇÃO DOS 40 ANOS <br />
Por Luís Batista<br />
Barreiro Depois da última Reunião de Câmara (17 de Junho) fiquei mais ou menos esclarecido sobre o cenário que nos espera até às próximas eleições autárquicas.
O que de seguida escrevo apenas a mim me compromete e é tão somente o meu ponto de vista sobre o actual Barreiro.

Estar na política e viver a política não tem obrigatoriamente de ser politiquice. Podemos, devemos e temos a obrigação de elevar o discurso, para bem de todos. Aliás, a nível autárquico, aqui na cidade do Barreiro, já tivemos num passado bem recente esse ensinamento, de que se pode estar na política respeitando o próximo, respeitando a diferença e sendo tolerante, valores esses que têm desaparecido, a uma velocidade atroz, da nossa vida autarquica.

Criou-se o estigma dos bons e dos maus e desenvolveu-se o ataque pessoal de uma forma tão acutilante que asfixia a saudável participação do munícipe com ideias e debate em prol da cidade. Não concordar com a actual política do edil camarário é carimbo certo de pertencer aos maus e de ser comunista. Foi assim com o Aeroporto na BA6, foi assim com a ponte pedonal para o Seixal, está a ser assim com a Quinta de Braamcamp e, até o facto de ter questionado o que se passava com o barco "Muleta", que se previa o seu lançamento para o dia da cidade em 2018 e, até hoje ainda estamos a aguardar, valeu-me, por parte do aparelho censório do Partido que governa a Câmara, amplo destaque a ironizar e depreciar a minha preocupação com o barco "Muleta" .
Não é verdade, não concordar com a política, parte da política ou com a gestão de alguns assuntos não nos transforma em comunistas. Quando assim o pensam estão a cometer um erro gravíssimo.
A saudável pluralidade de ideias, discutir a cidade e aceitar as diferenças, permite-nos ser mais rígidos na reflexão axiológica, ou seja, na reflexão que exige uma noção de escolha enquanto seres livres. Permite-nos igualmente ser exigentes no cumprimento dos valores morais, éticos e de cidadania que devem contribuir para uma praxis cívica enquanto munícipes.

Falhando a discussão pouco mais resta do que o monólogo ou o jogo viciado de medir "capelinhas". Entramos na formatação pela repetição, sendo o lema, "nos últimos quarenta anos nada se fez no Barreiro."
Na política e nos jogos de poder tudo é válido, mesmo que para isso se falte ao respeito a quem nesses últimos 40 anos serviu a cidade.
Não é verdade, como munícipe activo nunca poderia aceitar este discurso, venha de que partido vier. A César o que é de César.

Por exemplo, e agora que tanto se quer promover a qualidade das águas do Barreiro e das suas praias fluviais, não nos podemos esquecer que muito se deve à construção da ETAR que serve os Municípios do Barreiro, Moita e Palmela, uma das tais obras dos últimos 40 anos.
Outros exemplos, a abertura do território da Quimiparque, o alargamento da frente ribeirinha com ciclovias, a requalificação da Av. da Praia com a beneficiação das infraestruturas de subsolo (5 descarregadores de tempestade) extendendo-se essa requalificação até ao Barreiro Velho.
Recordo ainda a construção dos passadiços de Alburrica, a piscina do Lavradio, a requalificação do Mercado Municipal, ou a conclusão das AUGIS da Quinta dos Clérigos e da Quinta do Pinhal do Duque, marcos importantes de obra feita que igualmente contribuíram para a valorização da cidade, do edificado e da qualidade de vida do munícipe.
Haveria muito mais se nos afastassemos no tempo e teríamos muito mais obras para recordar, obras essas da responsabilidade da CDU e do PS, forças políticas que estiveram à frente dos desígnios da C. M. do Barreiro.
Portanto, e se quisermos ser honestos, há imenso Barreiro nestes últimos 40 anos, evoluímos. Só quem não esteve atento ou caiu aqui de repente é que pode dizer o contrário.
Também perdemos habitantes, também perdemos empresas, também aumentamos o desemprego local, também ficamos isolados, também cristalizamos no tempo, é verdade. E de quem é a culpa?
Da CDU, do PS?
Num imediato posso recuar até 1992, ano em que se começou a projectar a ligação entre o Pinhal Novo e Lisboa por via férrea, tendo como opção a Ponte 25 de Abril, que encontro logo uma das causas. Perder o inteface fluvial e ferroviário que ligava o Norte com o Sul matou lentamente o Barreiro, se juntarmos depois o ter perdido a ponte Vasco da Gama para o Montijo temos o essencial para explicar este isolamento que nos castiga.
Assim, não é por se repetir muitas vezes que estamos melhor, que não estamos. Estamos no que é possível estar e ninguém pode censurar. Temos é de ser humildes.
Mas melhores não estamos. Estamos exactamente como estávamos à três anos, quando da passagem de testemunho, só que com mais umas rotundas, uns candeeiros novos e um Lidl.
Continuamos a ser uma terra partida por uma Via Rápida e por uma via-férrea que nos condena a viver um Barreiro a duas velocidades. Continuamos a não conseguir atrair empresas, continuanos a ter dificuldade em trazer investimentos e continuamos a ser fim de linha.
Na minha humilde opinião, e para um Barreiro que tem 5000 fogos devolutos, não é este cavalo de batalha em torno de condomínios fechados num dos mais importantes patrimónios naturais da cidade, que nos vai tirar desse fim de linha ou devolver o investimento, ou atrair empresas. Vão ser apenas mais umas casas, mais caras que o normal, mas mais umas casas. O Barreiro ficará igual da mesma forma que o Sol nascerá sempre no mesmo sitio.
Convicção, respeito mútuo e vontade de discutir honestamente a cidade urge nos tempos mais próximos.
E acreditem, não nos interessa saber quem é que tem a "capelinha" maior ou com mais santinhos.

Disse.

Luís Batista
18/06/2020

19.06.2020 - 00:05

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