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Arte pública no Barreiro. Não se pode reescrever a História
Por Rosalina Carmona
Barreiro

Arte pública no Barreiro. Não se pode reescrever a História <br />
Por Rosalina Carmona<br />
Barreiro Pela singularidade da sua história o Barreiro deu grandes exemplos de solidariedade e resistência ao país, durante a ditadura fascista que vigorou meio século em Portugal. No entanto, é uma cidade onde a arte pública alusiva à resistência e à liberdade é quase inexistente.

Isto vem a propósito da suposta “requalificação” do monumento ao 25 de Abril, do artista José Cândido. Fiquei chocada, quando passei junto às obras em curso, e voltei a reler o artigo de António Sousa Pereira, publicado neste jornal:

https://www.rostos.pt/inicio2.asp?mostra=2&cronica=1004113

Neste artigo de Sousa Pereira identifiquei-me, eu e mais de 500 pessoas, com os sentimentos que expressa relativamente à destruição que o monumento está a ser alvo.

Quando lá passei e vi o que está a ser feito, senti como se as máquinas que estão a demolir o monumento estivessem a destruir o 25 de Abril. É uma imagem simbólica, mas foi o que senti. O único monumento digno desse nome no Barreiro, pensado para homenagear o 25 de Abril e o derrube da ditadura fascista que devolveu a liberdade aos portugueses – desígnios pelos quais no Barreiro se lutou corajosamente e muitos pagaram alto preço – nunca foi estimado, e os poderes públicos do momento estão a “requalificá-lo”. Fazem-no para agradar a vozes que disfarçam objectivos inconfessáveis com discursos populistas. Ou então nem isso, é simplesmente porque sim, o que caracteriza bem o momento que vivemos no Barreiro.

Mas então pode alterar-se um monumento/obra de arte, sem desvirtuar a essência que esteve na origem e ideia do seu criador? Ao retirar partes ao monumento está a amputar-se a obra de arte, a roubar-lhe significados que prejudicam a sua leitura e compreensão total.

A rotunda do Lavradio não tinha espaço suficiente para alargar as faixas de rodagem mantendo o monumento na integra? Tinha, era uma questão de querer fazê-lo. Mas não quiseram fazê-lo. O monumento nunca foi devidamente valorizado e atingiu o grau de desleixo que conhecemos, mas subtrair-lhe uma parte não é aceitável.

Para mim é como se pretendessem “requalificar” o 25 de Abril, suprimindo algumas conquistas que hoje são património de todos. É como se tentassem reescrever a história do Barreiro, ocultando certos acontecimentos porque lhes dá jeito, ou não agradam.
Bem sei que o processo é anterior ao movimento actual em que pelo mundo se destroem estátuas, mas a analogia é inevitável e não deixa de ser irónico que, no Barreiro, seja a Câmara a fazê-lo a uma das poucas obras de arte pública que a cidade possui.

O Barreiro devia orgulhar-se do seu monumento ao 25 de Abril, valorizar o alto significado daquilo que representa, consubstanciado no contributo dado pelos barreirenses para a conquista da liberdade em Portugal. Fica muito mal ao Barreiro destruir um monumento, através da sua mutilação. O artista José Cândido não haveria de gostar.

Rosalina Carmona

04.07.2020 - 00:00

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