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O mito dos 40, a realidade dos 3 e o (eventual) pesadelo dos 10
Po Fernando Catarino
Barreiro

O mito dos 40, a realidade dos 3 e o (eventual) pesadelo dos 10<br />
Po Fernando Catarino<br />
Barreiro Um mito é algo que não sendo real, se supõe como tal, ou, pelo menos, se quer fazer supor como verdadeiro. É isso que nos últimos tempos temos vindo a assistir no Barreiro, a tentativa de criação de um mito, o mito dos 40 anos de estagnação e de nada ter sido feito na cidade em prol do desenvolvimento e do progresso. E esta mensagem vai passando.

Vai passando na Avenida da Praia enquanto damos um passeio junto ao rio, vai passando nas diversas escolas (quase todas com menos de 40 anos), vai passando junto ao Hospital Velho (entretanto substituído por um edifício novo, com imensos lugares de estacionamento gratuitos), vai passando ainda no Parque da Cidade, no Pólis, nos passadiços, nas esplanadas do mercado depois de estacionar o carro no parque subterrâneo, no Terminal Fluvial, na ADAO, na Baía do Tejo, e em tantos e tantos outros sítios que os últimos 40 anos nos deram.

Basta fazer um esforço (que nem precisa ser muito grande) de memória e ter um pouco de seriedade intelectual (que também não precisa ser muita) para perceber que a ideia de 40 anos de estagnação é completamente falsa e desajustada da realidade.

Mas uma governação não se faz só de betão e alcatrão, uma cidade faz-se sobretudo de pessoas, de garantir que as pessoas têm hoje melhores condições de vida do que tinham ontem. E esse trabalho, muitas vezes invisível, é determinante para uma avaliação séria do governo de uma cidade. O apoio a estruturas sociais capazes de dar resposta no terreno aos mais carenciados, o investimento numa cultura acessível a todos, a aposta na educação como garante do futuro, o suporte à economia local, o investimento na melhoria dos transportes públicos. Tudo isto é governar de, para e pelas pessoas. E em nenhum destes campos, o Barreiro ficou para trás, como 40 anos de estagnação o indicariam.

Passando do mito à realidade, assistimos nos últimos 3 anos a uma queda radical na vivência democrática do Município, com uma tentativa de um bipartidarismo maniqueísta do “se não és por mim és contra mim”, “se não apoias o executivo és comunista”, “se me questionas dás-me repulsa”, numa tentativa de absolutismo do quero, posso e mando.

A realidade dos últimos 3 anos é uma governação do betão (e pouco alcatrão), uma governação de falsas promessas (ou visões) que tendem a não se concretizar, uma governação em que a obra que aparece ou vem dos privados ou da execução de garantias “metidas na gaveta”. Ora isso não é governar a pensar nas pessoas, tenho até dificuldade em considerar isso governar. Para mim é gerir e executar (uma palavra tão utilizada ultimamente). Gerir calendário eleitoral e executar a herança recebida. O que pode não ser, necessariamente, mau. Se a herança recebida for boa e a execução bem feita, já não é mau. Mau é quando se tem o condão de destruir uma herança boa por um capricho, como foi o caso da ponte Barreiro-Seixal, da mobilidade, do moinho, da Muleta e do Pestarola, dos circuitos de visitação, da arte urbana, da Braamcamp, da democracia, da proximidade, do associativismo apartidário, da solidariedade e da humanidade.

E, por tudo isto, preocupam-me os próximos 10 anos. Com a divulgação da Visão Estratégica para o Plano de Recuperação Económica e Social de Portugal 2020-2030, preocupa-me não ter um executivo camarário capaz de lutar e bater o pé ao Governo por infraestruturas fundamentais ao desenvolvimento efetivo do Barreiro, como são a Terceira Travessia do Tejo (TTT), a ponte Barreiro-Seixal, o fortalecimento do transporte Fluvial com uma preocupação ambiental, o Metro Sul do Tejo, a aposta tecnológica, a rentabilização dos territórios da Ex- CUF, a aposta numa mobilidade mais verde e sustentável, as preocupações ambientais e de esforço para adaptação da cidade para o século XXI, do futuro, oportunidades e qualidade de vida para os que cá vivem.

Preocupa-me um executivo que deixa cair, sem dar qualquer luta, o Terminal de Contentores, que apoia um Aeroporto numa localização que afetará sobretudo os seus habitantes reduzindo a sua qualidade de vida e desvalorizando os seus imóveis, que durante 3 anos não consegue conquistar nenhuma candidatura a Fundos Europeus que seja estratégica e determinante para a mudança efetiva do Barreiro e que, como se não fosse suficiente, deixa de executar candidaturas aprovadas, ganhas e financiadas, não seja capaz de se bater pela centralidade do Município do Barreiro para os próximos 10 anos de investimento e verdadeiro desenvolvimento que se avizinham.

Preocupa-me que apoiados na criação do mito de 40 anos de estagnação, os próximos 10 sejam anos de fechar o Barreiro como uma cidade com a melhor vista para Lisboa incapaz de lá chegar de forma eficaz, limpa, ambientalmente sustentável e com capacidade de atração de investimento e pessoas. Preocupa-me que estes 3 anos de vídeos e arrogância nos conduzam a um “orgulhosamente sós” que se sentam na estação à espera de um comboio que já passou.

Fernando Catarino
12/07/2020


12.07.2020 - 17:46

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