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O passado, presente e futuro do empreendedorismo no Barreiro
Por Miguel Amaral
Barreiro

O passado, presente e futuro do empreendedorismo no Barreiro<br>
Por Miguel Amaral<br>
Barreiro<br>
Nas últimas décadas, o tecido empresarial do Barreiro transitou de um modelo maioritariamente assente na existência de algumas grandes unidades industriais (dominado pela CUF), para um modelo atomizado, constituído por muitas micro/pequenas empresas (MPMEs) e iniciativas de autoemprego.

A Câmara Municipal do Barreiro (CMB), em parceria com a Escola Superior de Tecnologia do Barreiro (ESTB) e outros parceiros, foi lentamente envolvendo mais jovens em eventos e feiras de empreendedorismo e empregabilidade, bem como em algumas actividades de prototipagem, através, por exemplo, do extinto FabLab. O próprio espaço da antiga CUF (Baía do Tejo) foi-se abrindo gradualmente à população, tentando promover mais ligação aos serviços, com pequenos escritórios, espaço de “coworking” e dando passos na atracção de artistas e indústrias criativas para o local.

Se o modelo empresarial do passado assentava na figura dos grandes gestores industriais, provenientes normalmente de famílias e grupos sociais privilegiados, engajados nas principais estruturas de poder, detentores exclusivos dos meios tangíveis e intangíveis para o desenvolvimento dos seus negócios, actualmente, o maior acesso à informação, à educação e a formas de financiamento mais flexíveis, levou a que a criação de um negócio se tenha tornado uma possibilidade bem mais real para o indivíduo comum que, independentemente das suas origens, tenha boas ideias e a energia necessária para levá-las à prática. No entanto, esta transição de paradigma acarretou a noção, cada vez mais generalizada e enviesada, de que praticamente todos os indivíduos podem, querem e devem ser empreendedores. Gerou-se, por parte de muitos decisores públicos, a convicção de que a massificação do empreendedorismo e de uma “cultura empreendedora”, essencialmente na vertente de criação de empresas, seriam a principal chave para o desenvolvimento.

Não obstante a importância da actividade empresarial, está bem documentado cientificamente o facto de mais empreendedorismo poder também originar graves ineficiências económicas. Acresce a falta de evidência empírica robusta que mostre uma relação causal clara entre a taxa de criação de empresas e o crescimento económico de uma região ou país. Talvez por isso, no mundo industrializado, o empreendedorismo não seja um fenómeno de massas, mas de nicho; em Portugal, por exemplo, existem apenas cerca de 5% de indivíduos na população activa envolvidos na criação ou gestão de uma nova empresa (no Barreiro são sensivelmente 3%).

No Barreiro, o empreendedorismo tem sido recentemente propalado e repetido exaustivamente como uma fórmula para a atracção de talento, rejuvenescimento demográfico e desenvolvimento socioeconomico. A actividade empreendedora e uma coexistência equilibrada entre grandes empresas-âncora e MPMEs é fundamental – mas será que precisamos realmente de mais empresas e de massificar a ideia de que o futuro (essencialmente dos jovens) deve passar necessariamente pela criação de negócios e empresas?

Os dados mostram que no Barreiro não se verifica, tradicionalmente, uma elevada taxa de criação de empresas comparativamente à média dos outros municípios da Área Metropolitana de Lisboa (AML), mesmo ponderando as diferenças de dimensão populacional entre concelhos.

Na última década criaram-se anualmente, na cidade, cerca de 2 a 3 empresas por cada 100 habitantes integrando a população activa. No entanto, tendo em conta que a cada momento são extintas empresas (Figura 2), importa perceber não só o fenómeno “start-up”, mas essencialmente o seu valor líquido (subtrair o número de empresas que morrem das que são criadas), fenómeno também designado por “turbulência empresarial”. Nesse sentido, entre 2008 e 2012, durante o pico da crise, tal como esperado, morriam na AML mais empresas do que nasciam (Figura 3); essa tendência foi sendo revertida e, a partir de 2013, os municípios foram recuperando, sendo que o Barreiro apresentou valores sempre abaixo dos seus congéneres da AML. Por exemplo, se dividirmos os valores da Figura 2 (saídas) pelos da figura 1 (entradas), verificamos que, em 2017, por cada 100 empresas criadas no Barreiro morreram 88, contra uma média de 80 na AML e, em 2018, por 100 criadas morreram 75, contra 71 na AML.

Esta tendência menos expansionista do Barreiro no que respeita à criação de empresas não deve ser vista necessariamente como negativa. O que é negativo é a possibilidade de as poucas empresas que existem não apresentarem sustentabilidade. A esse respeito, se nos focarmos nos valores percentuais de empresas novas que não sobreviveram para além do seu primeiro ano (Figura 4) verificamos que, ao longo da última década, num contexto de crise global, tal como a AML, também o Barreiro tendeu a criar muitas empresas frágeis, pouco resilientes e sustentáveis. Mas se durante a crise tal era expectável, o facto de, a partir de 2017, as empresas barreirenses se destacarem como as menos resilientes de entre todos os 18 concelhos da AML – com cerca de 40% das empresas criadas no Barreiro a morrerem prematuramente no seu primeiro ano de vida – é deveras preocupante. Estaremos provavelmente perante uma classe empreendedora pouco preparada, vítima de desemprego estrutural, sem muitas alternativas de integração no mercado de trabalho, crédula no potencial do empreendedorismo e “empurrada” quase involuntariamente para a criação de uma empresa por necessidade, como último reduto da sustentabilidade individual e familiar.

Mais do que se apostar na quantidade e se estimular a ideia do empreendedorismo como um fenómeno de massas, através da “evangelização” de desempregados ou de jovens potenciais empreendedores (muitas vezes sem o perfil, a proposta de valor e/ou a motivação necessários para empreender), necessitarmos sim de mais enfoque na qualidade.
Precisamos de empreendedores mais preparados e empresas melhores, sustentáveis, inovadoras, capazes de criar empregos não precários, de elevada qualidade e gerar impactos socioeconómicos e ambientais positivos e duradouros, que sirvam não só a geração presente, mas também as gerações futuras.

Impõe-se, então, perceber como é que tal está a ser levado a cabo e se existe no município uma estratégia clara sobre estas matérias. A verdade é que a pesar de o empreendedorismo se impor aparentemente como algo tão central para o executivo camarário, na verdade não se conhece nenhum documento público oficial onde esteja vertida uma estratégia objectiva de curto, médio e longo-prazo para o empreendedorismo no concelho . Existem, no entanto, algumas intenções e projectos incipientes, dos quais se ouve frequentemente falar, e que importa discutir.

Fala-se, já desde meados de 2017, na “(...) criação de espaços de incubação de empresas, laboratórios de prototipagem, programas de ajuda ao microempreendedorismo, ensino de código (programação) e empreendedorismo nas escolas, apoio aos investidores e empresas que se querem instalar na cidade e uma estratégia de atração de empreendedores e talentos para virem desenvolver os seus projetos no Barreiro(...)” como sendo objectivos fulcrais para a cidade. Foquemo-nos, portanto, nesses objectivos atrás enunciados.

Quanto à “criação de espaços de incubação de empresas, laboratórios de prototipagem”, há de facto um projecto embrionário de criação de uma incubadora de empresas, designada por “Startup Barreiro”, que funcionará no edifício da antiga fábrica de refinação de Azeite, tendo sido celebrado entre a CMB e a Baía do Tejo um contrato de arrendamento para os próximos 20 anos. Mas quais os objectivos concretos desta estrutura? Que modelo de incubação será seguido? Falamos de uma incubadora especializada, generalista, universitária?

Que ligação especifica será estabelecida com a ESTB? Que critérios de selecção e de graduação (saída de empresas para o mercado) estão definidos? Quais as infraestruturas, serviços e acesso a redes oferecidas pela incubadora? Haverá lugar à pré-incubação e à aceleração?

Quais os custos para as empresas incubadas e para os contribuintes? Na verdade, nada se sabe de específico sobre a forma como estas verbas públicas serão investidas nos próximos 20 anos nem qual o retorno esperado.

Quanto ao “ensino de código (programação) e empreendedorismo nas escolas”, tem sido divulgado o, também embrionário, “Programa de Empreendedorismo nas escolas do concelho”, apoiado pela Baía do Tejo e da responsabilidade do Gabinete de Empreendedorismo e Juventude da CMB. No entanto, não existe nenhum documento que explicite o conteúdo do referido programa (para além de alguns vídeos mais superficiais e generalistas). Fará sentido preparar alunos do 1º e 2º ciclos para o empreendedorismo num sentido mais estrito (criação de empresas)? Ou, trata-se apenas de, num sentido mais lato, estimulá-los para ganhar iniciativa e capacidade para operar mudanças socioeconómicas positivas na comunidade? Neste último caso, tal abordagem deverá ser associada ao conceito de empreendedorismo, ou terá simplesmente a ver com a utilização de métodos pedagógicos activos, aprendizagem por projecto, ensino diferenciado, estímulo do humanismo e pensamento crítico das crianças e jovens? – não estará isto implícito já na missão de qualquer escola?

Relativamente aos “programas de ajuda ao microempreendedorismo” e à “estratégia de atração de empreendedores e talentos para virem desenvolver os seus projetos no Barreiro”, de que é que se está a falar concretamente e como é que um profissional ou empreendedor nascente talentoso pode actualmente beneficiar destes eventuais apoios? Será que o conceito de “ajuda ao microempreendedorismo” se enquadra no “Regulamento Municipal de Concessão de Incentivos ao Investimento” – documento que privilegia investimentos rápidos, de valores avultados, na área da construção e que relega declaradamente as actividades ambientalmente sustentáveis, inovadoras e/ou de base tecnológica para segundo plano? Não parece que este tipo de incentivos se coadune com o conceito de microempreendedorismo nem com uma estratégia estrutural e sustentável.

Todas estas questões ficam por responder de forma cabal e esgotam-se na frequente repetição de chavões e na tentativa de importação direta de ideias e iniciativas que vão acontecendo em outras cidades, mas sem uma estratégia e posicionamento críticos. Embora a vontade e iniciativa dos decisores públicos do Barreiro para dinamizar a actividade empreendedora exista, seja meritória e pertinente, tem sido claramente sobrestimada e o fosso entre as intenções e os resultados reais (praticamente inexistentes) é bem visível.

No que toca ao empreendedorismo, é preciso ir muito além da comunicação superficial destas matérias. É preciso não se ficar apenas por vídeos que mostram crianças do ensino básico a construir robots feitos de materiais recicláveis (o que é positivo, mas sempre aconteceu nas escolas, mesmo sem o rótulo de “educação para o empreendedorismo”); ou por comunicações que replicam, de forma geralmente pouco detalhada e acrítica, lugares-comuns ligados à “cultura empreendedora”; ou assinaturas de um par de protocolos e competições/prémios de empreendedorismo cujo valor acrescentado é difuso; ou notícias com destaque nas secções de “Desenvolvimento Económico” e “Gabinete de Apoio ao Empresário” do website da CMB como: “Belinha Cabeleireiros vence a XVII edição do Concurso de Montras de Natal Barreiro 2018” ou “Mostra de Doces de Dia de Reis” (obviamente sem desprimor para os eventos em questão).

Concluindo, caso queiramos vir a ter realmente um ecossistema empreendedor robusto no município, a CMB precisa de preparar melhor a sua estratégia para o empreendedorismo, fundamentá-la através de matérias programáticas sérias, aprofundadas e explícitas. Os diversos actores do ecossistema deverão ser identificados e envolvidos de forma mais contínua e articulada e dever-se-á criar mecanismos para a monitorização e a difusão actualizada de resultados.

O passado e o presente do empreendedorismo no Barreiro têm subsistido num enclave nas últimas décadas, reféns de alguns tabus por parte de uns e de algum superoptimismo e superficialidade por parte de outros. Só o advento de conceitos, estratégias, programas e incentivos bem estruturados, melhor adaptados às características do município e comunicados de forma mais transparente junto da população, trará o efeito transformador e multiplicador que os munícipes tanto esperam para o futuro da sua cidade.

Miguel Amaral

1. Para além da pesquisa das fontes oficiais, foram consultados dois Vereadores da CMB a este respeito, que confirmaram a inexistência de documentos oficiais que apresentem estratégias e explicitem o funcionamento de programas concretos de estímulo à criação e desenvolvimento de empresas no município.

2. “Link to Leaders” 19 junho de 2017 – entrevista ao Dr. Frederico Rosa, Presidente da Câmara do Barreiro. Disponível em: https://linktoleaders.com/empreendedorismo-nao-criar-empresas/

3. Disponível em: https://dre.pt/application/conteudo/124573235










21.09.2020 - 13:22

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