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O Comando Militar do Barreiro – 1943
As greves na CUF
Por Rosalina Carmona

O Comando Militar do Barreiro – 1943<br />
As greves na CUF <br />
Por Rosalina Carmona Depois seguem-se prisões generalizadas por toda a vila. Capturados a eito, os presos vão sendo concentrados num armazém da fábrica de cortiça Teodoro Rúbio, requisitada para o efeito por falta de espaço nas instalações policiais. É imposto o recolher obrigatório e declarada a suspensão das garantias

Como temos vindo a demonstrar em artigos publicados pelo Museu Nacional Resistência e Liberdade(2) , o regime fascista usou a seu favor a força da estrutura militar para aniquilar os adversários e, em casos particulares, foi ainda mais longe formando Comandos Militares com funções específicas de repressão de acontecimentos que envolvessem a ordem pública, ou provocassem agitação social. Foi o caso do Comando Militar do Barreiro.

Este Comando Militar surge numa dada conjuntura política e social e com uma função muito objetiva: a de pôr fim a uma greve que estava em curso em julho de 1943 nas fábricas da CUF. O ano de 1943 será, assim, muito marcado por diversas formas de violência, física e psicológica, exercidas sobre a população do Barreiro.
Em 1943 o país sofria o aprofundamento da crise económica e social agravada pela II Guerra e, no Barreiro, uma das consequências mais visíveis era o desemprego.

A pretexto da falta de matérias-primas e de combustíveis, os “balões”(3) na CUF sucediam-se, atingindo indiscriminadamente a grande massa operária. Por essa altura, todos os dias chegavam inúmeras pessoas à vila do Barreiro, em procura de trabalho. Grassava a pobreza extrema e a fome, potenciando o clima de agitação social latente. A situação, referida num relatório da Comissão Municipal de Assistência, é relatada nos seguintes termos:

«A vila do Barreiro, centro industrial dos mais importantes, constitui simultaneamente importante fulcro de pobreza e miséria. A par da população trabalhadora há, no Barreiro, um considerável número de desempregados, que procuram trabalho, que buscam o pão de cada dia, vêm de todos os pontos do país, atraídos pela miragem de uma colocação, que raros conseguem. […] Estes homens, estas mulheres que vêm procurar trabalho gastam na viagem para aqui os seus últimos recursos. E não havendo trabalho deixam-se ficar na esperança e ilusão de que um dia haverá. E vá de estender a mão à caridade, vá de procurar nas entidades públicas subsídios indispensáveis ao seu sustento, vá de revoltar-se contra tudo e contra todos.» (4)

O problema das subsistências, face às dificuldades de obtenção e distribuição de géneros essenciais, a escassez de produtos no mercado, a alta dos preços no mercado negro, a inflação galopante e a rígida política de contenção salarial, geravam um profundo descontentamento social. O governo de Oliveira Salazar acaba por decretar o racionamento alimentar no mês Março de 1943.(5) Em Lisboa as filas eram intermináveis para ter acesso às senhas de racionamento, gerando focos de conflito e incidentes que a polícia dominava à custa de «uma repressão particularmente rigorosa». /69

No dia 21 de Julho de 1943 o Partido Comunista Português difunde um manifesto de apelo ‘À Greve! Pelo Aumento de Salários’, mobilizador das massas trabalhadoras para a realização de «grandes marchas da fome» e formas superiores de luta, exemplificando como «ir buscar os géneros onde os houver». (7)

Na semana seguinte, a 26 de julho começam as paralisações em Lisboa nos estaleiros da Rocha de Conde de Óbidos, e em Cacilhas nos estaleiros da Parry & Son.
No dia 27, ainda em Lisboa, o movimento alarga-se a outras empresas do grupo CUF, como a Companhia Nacional de Navegação e a Fábrica de Sabões Sol. É nesta fábrica, situada na Avenida 24 de Julho, que se dão incidentes com as mulheres dos operários grevistas, dispersadas à coronhada pelas forças policiais de que resultaria uma das imagens repressivas mais conhecidas sobre esta greve, até hoje. (8)

Entretanto, na Margem Sul o movimento grevista estendia-se ao Seixal, com paralisações na Mundet e a outras fábricas de cortiça no concelho de Almada.
É ainda no dia 27 que os trabalhadores das fábricas da CUF no Barreiro engrossam o movimento, entrando em greve de braços caídos. Outras fábricas de cortiça e oficinas do Barreiro, Lavradio, Baixa da Banheira e Alhos Vedros, aderem também nesse dia. «Em todas as fábricas, os operários ocupam ordeiramente os seus lugares e conservam-se sem trabalhar, fazendo a greve de braços caídos.» (9)

Na noite de 27 para 28 haviam chegado ao Barreiro reforços policiais, para tentar travar o movimento grevista na CUF. Ao terceiro dia de greve, 28 de julho de 1943, dão-se os primeiros confrontos junto aos portões da CUF, quando os operários tentam entrar nos locais de trabalho e são dispersados pela violência.

«No dia 28, pela manhã, ao chegarem às oficinas da CUF para continuarem a greve dos braços caídos, os operários verificaram que as fábricas estavam encerradas e guardadas por forças armadas. Nos portões tinham sido afixados avisos de encerramento. A Polícia, a GNR e forças do Exército, mandaram retirar os operários.» (10)

Impedidos de entrar nas fábricas, os trabalhadores da CUF dirigem-se então para as ruas da vila, onde são recebidos por outros seus companheiros corticeiros e também pelas suas mulheres e crianças, que os acompanham. As ruas são tomadas pela multidão e inicia-se uma marcha com as mulheres e crianças na frente, clamando a falta de géneros e gritando “Temos fome”, “Temos fome”. (11). Dirigem-se às Oficinas Gerais da CP, tentando a paralisação geral na vila, o que conseguem apenas em parte (12) , cortam a circulação de comboios e seguem depois para a porta da Câmara Municipal. É então que se dão incidentes violentos com o Exército e a polícia.
«…vêm de Lisboa oficiais do Exército, fascistas, para comandar a Polícia. Procuram dispersar as manifestações pela brutalidade. Os trabalhadores resistem. Os oficiais mandam descarregar as metralhadoras e lançar bombas de gases lacrimogéneos. Três mulheres, um operário e uma criança ficam feridos.» (139

Depois seguem-se prisões generalizadas por toda a vila. Capturados a eito, os presos vão sendo concentrados num armazém da fábrica de cortiça Teodoro Rúbio, requisitada para o efeito por falta de espaço nas instalações policiais. É imposto o recolher obrigatório e declarada a suspensão das garantias. (14).

Rosalina Carmona

Foto - O Complexo fabril da CUF no Barreiro, postal de 1938 (1)

nOTAS

1. ‘O Barreiro através do bilhete-postal ilustrado’, ed. Câmara Municipal do Barreiro, Livros Horizonte, 2005

2. Vd. Nomeadamente os artigos: “A Prisão-Fortaleza de Peniche”; “A Militarização da Vida Nacional”; “O Presídio Militar e o Comando Militar Especial de Peniche 1931-1933”; “Comando Militar dos Açores”; “Comando Militar do Barreiro – 1943” e outros que se seguirão, colocados online em: http://www.museunacionalresistencialiberdade-peniche.gov.pt/pt/boletim-artigos/ />
3. Os “balões” eram empreitadas sazonais, nas quais eram admitidos trabalhadores conforme as necessidades de produção da empresa. Terminada a tarefa ou encomenda, eram imediatamente despedidos. Num dia podiam ser admitidos às dezenas para serem despedidos dias depois, como um balão que enchia e vazava rapidamente, daí a expressão popular «foram no balão». Sobre despedimentos na CUF, em julho de 1942, o Avante! referia: «Com o eterno pretexto do “não temos que fazer”, a gerência da CUF tem vindo de há uns meses para cá efectuando despedimentos em massa. A sua acção tem sido uma autêntica provocação à classe operária, pois não se tem limitado ao despedimento do pessoal adventício. Uma grande parte do pessoal despedido é pessoal do quadro!». Vd. ‘Opressão, despedimentos em massa, roubos ao pessoal, eis o panorama da CUF no Barreiro’, GES- PCP, Avante!, VI Série, nº 12, 1ª Quinzena de Julho de 1942, pg. 2

4. CARMONA, Rosalina – “Relatório da Comissão Municipal de Assistência”, Câmara Municipal do Barreiro, CMB/B/Q/04/, Cx.01, 1946 in ‘O Barreiro Operário. Anos 30/50. Um Retrato social’, “Actas do Colóquio Internacional Industrialização em Portugal no Séc. XX – O caso do Barreiro”, ed. EDIUAL, 2010, pg.231-248

5. ROSAS, Fernando – “O redespertar da agitação social” in ‘O Estado Novo (1926-1974)‘, História de Portugal (dir. José Mattoso), vol. 7, Circulo de Leitores, 1994, pg. 352

6. ROSAS, Fernando – “O redespertar da agitação social” in ‘O Estado Novo (1926-1974)‘, História de Portugal (dir. José Mattoso), vol. 7, Circulo de Leitores, 1994, pg. 352

7. ‘Comunicado do Secretariado do Comité Central do Partido Comunista Português’, 21 de Julho, 1943, GES-PCP

8. Vd. Jornal Século, PT/TT/EPJS/SF/001-001/0088/1316R. Durante anos esta imagem esteve associada à repressão da greve de 1943 na CUF do Barreiro. No entanto, a questão do local exato onde as fotografias foram tiradas levantou-se, pela primeira vez, em 2005 quando J. M. Leal da Silva colocou a hipótese de se tratar de repressão durante a greve da CUF, mas em Lisboa. Cf. "60 anos depois...as fotografias da greve de 1943", in “60º aniversário da greve de 1943 no Barreiro: comunicações”, ed. Câmara Municipal do Barreiro, 2005. Hoje é consensual que a cena repressiva se passou, com efeito, em Lisboa na Travessa do Baluarte. Mais sobre o assunto vd. https://estudossobrecomunismo2.wordpress.com/2003/07/28/j-m-leal-da-silva-fotos-da-greve-de-1943-excerto/

9. ’50.000 Operários Lançam-se na Greve!’, Avante!, VI Série, nº 38, 2ª Quinzena de Agosto, 1943, pg. 2, GES- PCP

10. ‘As Grandiosas Marchas da Fome e Manifestações de massas no Barreiro’. Avante!, VI Série, nº 39, 1ª Quinzena, Setembro, 1943, pg. 2, GES- PCP

11. ‘As Grandiosas Marchas da Fome e Manifestações de massas no Barreiro’. Avante!, VI Série, nº 39, 1ª Quinzena, Setembro, 1943, pg. 2, GES- PCP

12. «Naquele dia, uma importante parte do pessoal da Companhia União Fabril, com o das fábricas de cortiça e de diversas oficinas, abandonando o trabalho, tentou a adesão do pessoal das oficinas Gerais da CP à sua atitude de protesto, não conseguindo, todavia, os seus objectivos, mas apenas uma suspensão do serviço, que começou cerca das 11 horas, quando aquelas oficinas foram invadidas pelos grevistas da CUF e pelos corticeiros, tendo o trabalho recomeçado, progressivamente, a partis das 14 horas, sem mais incidentes.» PAIS, Armando da Silva – “O Barreiro Contemporâneo”, vol III, Barreiro, Câmara Municipal do Barreiro, 1971, pg. 162

13. GES- PCP, ’50.000 Operários Lançam-se em Greve! Avante Até à Vitória’. Avante!, VI Série, nº 38, 2ª Quinzena, Agosto, 1943, pg. 2

14. ROSAS, Fernando – “O redespertar da agitação social” in ‘O Estado Novo (1926-1974)’, História de Portugal (dir. José Mattoso), vol. 7, Circulo de Leitores, 1994, pg. 358

12.11.2020 - 11:15

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