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O que é feito do Barreiro??
Por Nelson Sítima
Barreiro

O que é feito do Barreiro??<br />
Por Nelson Sítima<br />
Barreiro O Barreiro de hoje está capturado em termos cívicos, foi capturado em termos democráticos e tem o movimento associativo refém e subjugado. Com a arrogância de quem acha que o Barreiro foi fundado em 2017, desfizeram o que estava feito, sem respeito por ninguém, nem por eles próprios.

O que é feito do Barreiro??

Sempre fui um acérrimo defensor da minha terra, contra quem dizia que estávamos parados, isolados, ultrapassados, eu respondia sempre que estávamos isolados, orgulhosamente isolados. Que apesar desse isolamento, que é sobretudo geográfico, tínhamos o que faltava a outras terras, tínhamos identidade, uma vibração especial e isso sentia-se na cena artística, na noite, na forma como, sem nos apercebermos, éramos bons anfitriões, facilmente comprovável pela forma como quem vinha de fora falava da nossa cidade, apontando qualidades que nos enchiam de orgulho. É uma visão romântica? É, talvez demasiado, mas era assim que eu sentia a coisa.

Cresci num bairro que sempre foi uma comunidade, fiz parte do movimento associativo durante largos anos e isso também fez com que sentisse a vida de todo o concelho de forma vibrante. O movimento associativo era palco de várias batalhas, era o campo de batalha por excelência, de ideais sociais, desportivos, culturais e políticos. Nunca vi uma colectividade ser segregada ou viver no medo por ser um feudo socialista, ou social-democrata, ou o que quer que fosse, era aí mesmo que estava a força motriz, na diferença mas no fim, o todo.

O Barreiro, a terra onde durante 40 anos alguns dizem que nada se fez, soube sobreviver (a custo) à mais violenta desindustrialização, soube sobreviver à contínua promessa de uma ponte que foi a 2ª e depois passou a 3ª, que prometia revolucionar a cidade, promessa ainda por cumprir. Neste contexto fizeram-se coisas assinaláveis, como a recuperação de terrenos ribeirinhos para a esfera pública, a aproximação definitiva da população ao rio, espaços de lazer, equipamentos culturais e muitos outros estruturais, a fruição por terrenos outrora disponíveis apenas no imaginário colectivo. Temos hoje uma rede de jardim-de-infância, pré-escolar, primária, preparatória e secundária de fazer inveja a qualquer cidade e ainda podemos juntar a isso a rede de unidades de saúde. Também se cometeram erros, muitos, demasiados, coisas das quais sempre fui crítico e sou, mas que não apagam o que de bom se foi fazendo.

Entre 2009 e 2017, deram-se passos sólidos e indesmentíveis (mesmo debaixo de uma brutal crise financeira mundial) que criaram as bases para a festivaleira que por aí vai, onde cada rotunda (já projectada, ou não), cada Lidl é uma festa, com inaugurações vídeo transmitidas com palmas e sorrisos de algibeira. Até a cerimónia de apresentação dos 60 autocarros a GPL foi uma festa, onde com indisfarçável constrangimento, foram obrigados a reconhecer o mérito de quem os comprou e mais, de quem criou condições financeiras e estratégicas para que pudessem ser comprados. Até neste capítulo se demonstrou incompetência, pois deixaram que os anunciados veículos chegassem sem terem um posto de abastecimento para os servir. Mas mérito a quem o tem, conseguiram atrasar de forma pornográfica, uma esquadra e uma escola primária e pelo meio ainda fizeram um contentor de betão no lugar de um moinho de maré.

O Barreiro de hoje está capturado em termos cívicos, foi capturado em termos democráticos e tem o movimento associativo refém e subjugado. Com a arrogância de quem acha que o Barreiro foi fundado em 2017, desfizeram o que estava feito, sem respeito por ninguém, nem por eles próprios. Até cortejos com luzes e sirenes, para a agraciar o grande líder, o inventor da roda, o salvador, que sem humildade, faz a saudação ao povo, fingindo um agradecimento que não é verdadeiro. Pelo meio criaram-se umas figurinhas pequeninas e sem noção, que investidos do poder que as urnas lhes deram, brincam à caridadezinha, aos tropas, aos deputados, à política e até aos nadadores salvadores. Sem credibilidade nem voz nos órgãos supra autárquicos vão-se entretendo com o festival, sem olhar nunca para outro lado, que não o próprio umbigo.

O meu Barreiro está doente, e onde alguns enxergam melhorias, eu vejo a morte lenta.
“Quem não vergonha, todo o mundo é seu”

Nelson Sítima

20.11.2020 - 23:26

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