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O Comando Militar do Barreiro – 1943
2 -O cerco à Baixa da Banheira
Por Rosalina Carmona

O Comando Militar do Barreiro – 1943 <br />
2 -O cerco à Baixa da Banheira <br />
Por Rosalina Carmona A onda repressora vai prosseguir com fúria inaudita, as forças policiais e o Exército desencadeiam uma perseguição generalizada em toda a zona do Barreiro e arredores, com «rusgas de limpeza» casa a casa, rua a rua.

Nos dias e meses seguintes as forças policiais vão prosseguir com os espancamentos, prisões em massa com a detenção de mais de 500 pessoas, entre elas cerca de 50 mulheres, ameaças de deportação, despedimentos, a ocupação militar das fábricas e nas ruas da vila tornou-se efetiva.

O Comando Militar do Barreiro – 1943
2 -O cerco à Baixa da Banheira

«”Fizeram-se centenas de prisões, indiscriminadamente. Entravam por um estabelecimento comercial as patrulhas da GNR; se lá encontravam pessoas, por exemplo, a jogar às cartas, à hora do trabalho, ia tudo preso, incluindo o comerciante. Prendiam pessoas que se limitavam a andar nas ruas, como presumíveis grevistas. Os presos eram em tal número que os metiam nos armazéns da fábrica de cortiça.”»(2)

A 29 de julho o movimento grevista ia no quarto dia, e é quando o Governo decreta a Mobilização Industrial através do Ministério da Guerra.
A figura destacada para exercer o cargo de delegado especial para a Mobilização Industrial foi o major Botelho Moniz «funcionário superior da CUF que conhece como ninguém os problemas relacionados com a actual paralisação do trabalho, motivo por que foi escolhido para o desempenho do importante cargo que acaba de lhe ser confiado.»(3)

Botelho Moniz já antes estivera ao serviço do governo de Salazar, alinhado nas fileiras franquistas durante a Guerra Civil de Espanha, como «elemento de ligação com as autoridades militares espanholas»(4) e comandante da legião “Viriatos”. Alguns desses legionários acompanhá-lo-ão ao seu serviço na CUF.

A mobilização Industrial impunha severas punições a quem não acatasse a ordem. Os operários são todos despedidos e forçados a reinscrever-se nas fábricas, onde passou a vigorar o Regulamento de Disciplina Militar. Muitos serão incorporados pelo Ministério da Guerra no Batalhão Disciplinar de Trabalhadores da CUF, comandados pelo 4º Esquadrão da GNR (5). A recusa implicava julgamento em Tribunal Militar Especial e Conselho de Guerra.

1) Em obediência ao que se acha legislado sobre mobilização industrial, todas as suspensões de trabalho em quaisquer fabricas devem ser directa e imediatamente comunicadas pelas entidades patronais à Repartição do Gabinete do Ministério da Guerra.

2) Por ordem do delegado especial do mesmo ministério, e em cumprimento de instruções superiores, serão imediatamente evacuadas todas as fábricas onde se dêem paralizações de trabalho, e demitido o pessoal que haja abandonado o serviço.
As entidades patronais, em seguida ao encerramento, e se o Governo não determinar outra coisa, abrirão nova inscrição para admissão de operários, em substituição dos demitidos.
Em caso algum poderão ser readmitidos os fautores da paragem do trabalho e os culpados de quaisquer desacatos.

3) O pessoal que abandone o serviço, independentemente do sexo, e que, tendo sido preso, não seja de novo admitido ao trabalho, será imediatamente incorporado num batalhão de trabalhadores, subordinado à mais severa disciplina militar. Esse batalhão, devidamente enquadrado, será utilizado, exclusivamente, em serviços pesados de interesse público.

4) O delegado especial do Ministério da Guerra para a mobilização industrial mandará fornecer mão de obra militar e da Legião Portuguesa às fábricas cuja laboração não convenha ser interrompida […]»(6)
A onda repressora vai prosseguir com fúria inaudita, as forças policiais e o Exército desencadeiam uma perseguição generalizada em toda a zona do Barreiro e arredores, com «rusgas de limpeza» (7) casa a casa, rua a rua.
Nos dias e meses seguintes as forças policiais vão prosseguir com os espancamentos, prisões em massa com a detenção de mais de 500 pessoas, entre elas cerca de 50 mulheres, ameaças de deportação, despedimentos, a ocupação militar das fábricas e nas ruas da vila tornou-se efetiva.

Na madrugada de 31 de julho 1943 é montado um cerco ao bairro da Baixa da Banheira, um bairro operário pegado com o Lavradio mas já no concelho da Moita. Aqui residiam centenas de operários da CUF e outras empresas, em pátios particulares constituídos por pequenas casas abarracadas alugadas.

Nessa madrugada foram capturados pela polícia 119 homens, que eram todos os que foram encontrados em suas casas e acusados de participação na greve da CUF (8). Um dos detidos, Domingos José Rodrigues, não trabalhava sequer na CUF mas morava na Baixa da Banheira. Preso nessa madrugada, foi levado para a 1ª Esquadra (Lisboa), tendo sido libertado um mês depois. Nas declarações que prestou à polícia atribuía a prisão «à precipitação das autoridades, pois na Baixa da Banheira poucos foram os que escaparam, visto que nessa rusga não procuravam saber em que locais trabalhavam as pessoas que prendiam.»(9)

Ainda assim, o Avante! referia no final do mês de agosto, que se mantinham em greve no país mais de 50.000 trabalhadores, resistindo heroicamente às medidas repressivas de Salazar (10).

A greve de 1943 na CUF do Barreiro deixará marcas profundas na memória e na resistência coletiva, tomando verdadeiras proporções «de um levantamento popular, marcando a vila operária de forma indelével como um bastião comunista até ao 25 de Abril.»(11)
É neste ambiente opressivo e perigoso que surge o Comando Militar do Barreiro, como tentativa de sufocar o movimento grevista na CUF e, posteriormente, o regime fascista aproveitará para deixar sob o jugo da mais feroz repressão a resistente vila operária do Barreiro. A ocupação militar vai tornar-se a realidade quotidiana da população barreirense.

Rosalina Carmona

Artigo publicado em http://www.museunacionalresistencialiberdade-peniche.gov.pt/pt/boletim-artigos/ />
Notas

1.Fotografia incluída na obra “Augusto Cabrita – Na outra Margem O Barreiro Anos 40-60”, ed. CUF, SGPS,SA, Grupo José de Mello, Lisboa, 1999, pg. 147

2.Entrevista ao operário da CUF Artur Santos Tavares, cf. ROSAS, Fernando – “O redespertar da agitação social” in ‘O Estado Novo (1926-1974)’, História de Portugal (dir. José Mattoso), vol. 7, Circulo de Leitores, 1994, pg. 358

3.Fundação Mário Soares / DRR - Documentos Ruella Ramos, "Diário de Lisboa", nº 7428, Ano 23, 29 de Julho de 1943, pp. 4. Disponível em: http://casacomum.net/cc/visualizador?pasta=05771.035.09038#!4

4. Idem

5.AN/TT, PIDE/DGS, Procº. 906/43 NT 4813, 9º vol.

6.Fundação Mário Soares / DRR - Documentos Ruella Ramos, "Diário de Lisboa", nº 7428, Ano 23, 29 de Julho de 1943, pp. 4. Disponível em: http://casacomum.net/cc/visualizador?pasta=05771.035.09038#!4

7.Neste cerco «o local denominado ‘Baixa da Banheira’ [foi] cercado de madrugada, passadas buscas a todas as moradias e prêsos quantos homens foram encontrados», num total de 119 indivíduos. Destes, 109 tiveram ordem de libertação em 24/08/1943 e os restantes 10 saíram em liberdade em 03/09/1943 por não existirem «acusações nem se fez qualquer prova durante os interrogatórios.» AN/TT, PIDE/DGS Procº. 906/43 NT 4812, 8º vol; PIDE/DGS Procº 906/43 NT 4813, vol. 15

8.AN/TT, PIDE/DGS Procº. 906/43 NT 4812, 8º vol; PIDE/DGS Procº 906/43 NT 4813, vol. 15

9.AN/TT, PIDE/DGS Procº. 906/43 NT 4812, 8º vol; PIDE/DGS Procº 906/43 NT 4813, vol. 15

10.’50.000 Operários Lançam-se em Greve! Avante Até à Vitória’. Avante!, VI Série, nº 38, 2ª Quinzena, Agosto, 1943, pg. 2 GES-PCP

11. PEREIRA, José Pacheco – Álvaro Cunhal – Uma biografia Política «Duarte», o Dirigente Clandestino (1941-1949), vol. 2, Temas e Debates, Lisboa, 2001, pg. 249

Foto- Esquadrões da GNR em demonstrações de força na praia do Barreiro.
Fotografia: Augusto Cabrita (1)

21.11.2020 - 13:24

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