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Comando Militar do Barreiro - 1943
3 - O aparato militar
Por Rosalina Carmona

Comando Militar do Barreiro - 1943<br />
3 - O aparato militar<br />
Por Rosalina Carmona O Comando Militar enviado para ocupar militarmente o Barreiro em 1943 envolveu meios motorizados de guerra, centenas de elementos do Exército, Guarda Republicana e Polícia de segurança Pública, numa ação sem paralelo no país. Nas ruas do Barreiro, noite e dia, escutam-se agora as lagartas dos carros de assalto e atroam nas calçadas os cascos da cavalaria, impondo terror.

A 10 de agosto de 1943, o oficial que chefiava o Comando Militar do Barreiro, Major Marinho Falcão, elaborava um rol dos meios utilizados durante a ocupação militar da vila do Barreiro, que nos dá a medida da poderosa máquina de guerra posta em marcha, para sufocar o movimento grevista na CUF. Da relação constavam as seguintes viaturas militares:
Regimento de Cavalaria 1: com 6 viaturas ligeiras (várias marcas), com capacidade para 4 ocupantes.
Viaturas pesadas; 5 das quais 2 com capacidade para 24 e 29 elementos.
Regimento de Cavalaria 7: com 5 Blindados marca Bren com capacidade para 4 ocupantes e 1 moto.
Batalhão de Cavalaria 8: com 5 viaturas ligeiras com capacidade para 20 elementos. Viaturas pesadas 5.
GNR: 1 Moto-side-car marca DAS com capacidade para 2 elementos;
Sec. B(atalhão) T(ansmissões): 1 Viatura pesada Chevrolet; 1 posto T.S.F.; 1 viatura ligeira com capacidade para 3 elementos.
Batalhão Sapadores de Caminho de ferro; 1 viatura pesada Chevrolet com capacidade para 20 elementos;
Comando Militar: 2 viaturas ligeiras com capacidade para 6 elementos; 1 moto para 1 elemento.
Total de viaturas 35. (1)

Considerava aquele Comandante Militar do Barreiro que tais meios bélicos eram os «necessários para manutenção do Destacamento e da Ordem Pública na área da Câmara Municipal do Barreiro em conformidade com as características e capacidades das viaturas». (2)
As tropas ao serviço do Comando Militar do Barreiro para dominar a greve, chegaram em colunas autotransportadas e de comboio, provenientes de vários pontos do país como Setúbal, Évora, Elvas, Estremoz, Vendas Novas, Mafra, Caldas da Rainha, Lisboa.

A composição das forças sitiantes e o número de unidades envolvidas, constitui um retrato impressionante do Barreiro sob a ocupação militar. A 17 de agosto de 1943, os efetivos militares dependentes do Comando Militar do Barreiro, eram os seguintes:
Unidade de origem - Batalhão de Cavalaria 5 (Évora) com 5 oficiais e 100 praças com indicação orgânica: de 2 companhias a 4 pelotões;
Unidade de origem - Regimento de Infantaria 11 (Setúbal) sem indicação de número de praças ou oficiais mas com indicação orgânica de 1 companhia a 2 pelotões;
Unidade de origem - Escola Prática de Infantaria (Mafra) com 4 oficiais e 100 praças, com indicação orgânica de 1 companhia a 2 pelotões;
Unidade de origem - Batalhão de Sapadores dos Caminhos-de-Ferro (Lisboa) com 4 oficiais e 72 praças, com indicação orgânica de 1 companhia a 3 pelotões;
Unidade de origem - Regimento de Cavalaria 3 (Estremoz) com 9 oficiais e 406 praças, com indicação orgânica de 3 esquadrões a 3 companhias. Como observações, a nota de que se trata de «unidades de trabalho», provavelmente destinadas a substituir os grevistas.
Unidades de origem - Regimento de Cavalaria 1 e Regimento de Cavalaria 8 (integrados na coluna de Elvas) com 8 oficiais e 111 praças, com indicação orgânica de 2 esquadrões a 5 pelotões e ainda 11 motoristas.
Unidade de origem - Regimento de Infantaria 5 (Caldas da Rainha) com 3 oficiais e 120 praças, com indicação orgânica de 1 companhia a 2 pelotões.
Unidade de origem – 2ª Companhia T. H. (?) com 2 oficiais e 248 praças, com indicação orgânica de unidade de trabalho.
Unidade de origem – Regimento de Infantaria 16 (Évora) com 4 oficiais e 66 praças, com indicação orgânica de 1 companhia a 3 pelotões. Nota: Localização – Seixal.
Unidade de origem – Escola Prática de Artilharia (Vendas Novas) com 2 destacamentos, 1 no Barreiro com 3 oficiais e com indicação orgânica de 1 comando; outro localizado em Rilvas (provavelmente de prevenção) com 4 oficiais e 81 praças com indicação orgânica de «1 batalhão 10.5». (3)
Unidade de origem – A.A.A. (4) Localização: Diversos, com indicação orgânica de 5 batalhões a.a.
Unidade de origem – Guarda Nacional Republicana com 2 destacamentos com 3 oficiais e 58 praças, com indicação orgânica de 1 esquadrão a 2 pelotões e mais 40 praças com indicação orgânica de 1 pelotão de Infantaria.
Unidade de origem – Polícia com 2 destacamentos 1 com 24 praças com indicação orgânica de 1 esquadra de 24 homens: Observação: Efetivo normal; outro destacamento com 90 praças com indicação orgânica de 1 Reforço. Observação: Vindos de várias localidades.
Unidade de origem – Batalhão de Transmissões com indicação orgânica de 1 secção de Transmissões.
Unidade de origem – Regimento de Cavalaria 7 com 1 oficial e 23 praças, com indicação orgânica de 1 pelotão de carros Bren [carros de assalto com metralhadoras].
Unidade de origem – Posto de Socorros com 1 oficial e 6 praças, com indicação orgânica de 2 enfermeiros e 4 maqueiros. (5)

Contabilizando todos os efetivos, conclui-se que para esmagar o movimento grevista na CUF do Barreiro em julho de 1943, o regime procedeu a uma concentração de meios absolutamente desmedida, envolvendo diretamente nesta operação 51 oficiais e 1605 praças, num total de 1656 homens, 35 viaturas de diversos tipos, entre os quais carros blindados de assalto, além de 90 cavalos provenientes do Regimento de Cavalaria nº3 de Estremoz e do Centro de Reunião de Solípedes de Vendas Novas. (6)

O país não estava em guerra, mas o Barreiro estava sob ocupação militar efetiva.

A 1 de novembro de 1943, o então Comandante do Destacamento do Barreiro, o Capitão de Cavalaria Décio Freitas, dando indicações sobre o armamento que deveria ficar na posse dos graduados que comandavam as forças que ficavam estacionadas no Barreiro, ordenava:
«Material de Guerra – Deverá ser fornecido aos oficiais pistolas metralhadoras.» (7)
Relativamente à GNR, desde 1943 que assentara provisoriamente dentro das fábricas do Barreiro um destacamento, constituído por elementos de Infantaria, Cavalaria e Engenhos Motorizados, ficando praticamente ao serviço da CUF.
Posteriormente passará para aquartelamento próprio e definitivo em instalações cedidas para o efeito pela CUF, que ainda hoje existem junto ao antigo edifício da Administração. A PSP seria retirada da vila, ficando a ordem pública a cargo da GNR com comando do Exército.

Como nota final, que nos parece de extraordinária importância ao confirmar quanto aqui fica escrito, transcreve-se a legenda da foto que ilustra este artigo, escrita pelo punho de um militar que participou nas manobras no Barreiro:
«Esta fotografia mostra um dos muitos “Brens” que nos primeiros dias percorriam as ruas do Barreiro e em cada um podem ser colocadas 5 ou 6 metralhadoras.
Barreiro 20/6/944»

O batalhão encontrava-se em manobras na Avenida de Sapadores, onde pode reconhecer-se o guindaste que durante anos ali esteve junto à Estação Sul e Sueste, no chamado Cais da Cortiça. Mais ao fundo nota-se a silhueta do Moinho Grande, ainda em perfeitas condições de funcionamento.

Rosalina Carmona

NOTAS

1.AHM/F/6/L, Série 36, Caixa 847, Proc.º 16/5, 1950-1955, “Relação das viaturas auto existentes nas unidades do Comando Militar do Barreiro”

2.AHM/F/6/L, Série 36, Caixa 847, Proc.º 16/5, 1950-1955, “Relação das viaturas auto existentes nas unidades do Comando Militar do Barreiro”

3.AHM/F/6/L, Série 36, Caixa 847, Proc.º 16/5, 1950-1955, “Relação das viaturas auto existentes nas unidades do Comando Militar do Barreiro”

4. Desconhecemos o significado da sigla A.A.A.

5.AHM/F/6/L, Série 36, Caixa 847, Proc.º 16/5, 1950-1955, “Relação das viaturas auto existentes nas unidades do Comando Militar do Barreiro”

6.AHM/F/6/L, Série 36, Caixa 847, Proc.º 16/5, 1950-1955, Ofício do Comando Militar relativo às forças estacionadas no Barreiro entre 10 de Agosto e 7 de Outubro de 1943

7.AHM/F/6/L, Série 36, Caixa 847, Proc.º 16/5, 1950-1955, “Destacamento do Barreiro

Foto - Batalhão de Sapadores dos Caminhos-de-Ferro em manobras junto à Estação Sul e Sueste, Barreiro, 1944
Imagem gentilmente cedida pelo Dr. Clementino Amaro

28.11.2020 - 09:02

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