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Comando Militar do Barreiro - 1943
4 – A ocupação militar permanente
Por Rosalina Carmona

Comando Militar do Barreiro - 1943<br />
4 – A ocupação militar permanente<br />
Por Rosalina Carmona Em 2 de fevereiro de 1944, o Comandante do Destacamento Militar do Barreiro registava em Nota Confidencial, o que considerava serem os meios necessários ao Comando, e qual a organização do Esquadrão a Cavalo que ficaria destacado na vila do Barreiro.

Compunha-se, entre outros, dos meios seguintes:

1 Comandante-Capitão; 25 subalternos (sargentos e cabos); 2 pelotões: 1 esquadrão de metralhadoras com 30 soldados e 36 selas e esquadrão de exploradores com 30 soldados e 36 selas, perfazendo um total de 78 soldados incluindo outras funções (cozinheiros, enfermeiros, ferradores); 8 condutores de viaturas; 2 observadores com cavalo; 99 selas a que corresponderia o mesmos número de cavalos.(1)

Por constituir mais um documento inédito e histórico para o Barreiro, a que recentemente tive acesso, a fotografia que acompanha este texto e o anterior ilustram e confirmam muito do que aqui ficou escrito, acerca dos meios bélicos usados contra a população do Barreiro durante a ocupação militar que, a partir do movimento grevista na CUF em Julho de 1943 se verifica em permanência até ao 25 de Abril.
Aproveito o momento para expressar publicamente o meu reconhecimento ao Dr. Clementino Amaro pela cedência das imagens.

A fotografia que pode ver-se neste artigo é de 1944. Na legenda, escrita pelo militar que participou nestas operações, numa nota até um pouco irónica, vê-se como o seu autor tinha consciência do poder de fogo e da desproporção das armas que eram usadas neste exercício, decerto para desencorajar qualquer tentativa de resistência por parte da população barreirense. Diz a legenda da foto:
«Veem-se deitados dois soldados / fazendo fogo com metralhadora «draise» as in[o]fensivas armas que só dão 600 tiros por minuto. O resto das equipas defendem-se a tiro de espingarda
Barreiro 20/6/944»

O ambiente na vila era de tal modo opressivo, que incomodava até os serventuários do regime, como pode ler-se numa monografia com a chancela oficial do Município:
«Antecedendo, de breve período o final do estado de guerra na Europa, a força destacada no Barreiro, subordinada ao Comando Militar, passou a ser constituída por um Esquadrão Misto (Infantaria e Cavalaria) da GNR, sob o comando de um capitão.

Pouco tempo depois, a Esquadra da PSP do Barreiro, que era comandada pelo tenente Francisco de Castro Lobo, retirava desta vila, por um período que ninguém, então, presumiria que se prolongasse até agora.»(2)
Segundo a mesma fonte autorizada do regime, no Barreiro dos anos 60 do século XX, além das forças da GNR e Batalhão de Sapadores aquartelados na vila, existia ainda uma «sede do Terço Independente nº 12 da Legião Portuguesa, com uma formação da Defesa Civil do Território.

É também o Barreiro sede duma subdelegação regional da Mocidade Portuguesa (Ala nº 7), abrangendo os concelhos do Barreiro e Moita, e duma subdelegacia regional da Mocidade Portuguesa feminina, englobando os dois referidos concelhos.»(3)
Depois de 1943 a GNR tornara-se a imagem odiosa do regime. A cavalo em patrulhas pelas ruas, em demonstrações intimidatórias de força e brutalidade, a ocupação militar no Barreiro torna-se permanente até à Revolução de 25 de Abril de 1974.

São estas “memórias resistenciais” que historicamente aqui ficam documentadas, acerca da «natureza fascista do regime salazarista e do caráter terrorista da sua repressão política».(4) Tempos cuja lembrança permanece, ainda hoje, bem viva e atroz para muitos barreirenses.

Rosalina Carmona

Notas

1.AHM/F/6/L, Série 36, Caixa 847, Proc.º 16/5, 1950-1955, “Proposta de Organização do 3º Esquadrão do R.C.3 Destacado no Barreiro”, 2 de Fevereiro, 1944

2. PAIS, Armando da Silva – “O Barreiro Contemporâneo”, vol. III, Barreiro, Câmara Municipal do Barreiro, 1971, pg. 163

3. PAIS, Armando da Silva - O Barreiro Contemporâneo, vol. I, Barreiro, Câmara Municipal do Barreiro, 1966, pg. 5

4. LOFF, Manuel - “Estado, democracia e memória: políticas públicas e batalhas pela memória da ditadura portuguesa (1974-2014)” in Ditaduras e Revolução democracia e políticas da memória, coord. Manuel Loff, Almedina, 2015, pg.32

Fotografia - Batalhão de Sapadores dos Caminhos-de-ferro, na Av. de Sapadores, ensaiando posição de tiro, Barreiro, 1944
Imagem gentilmente cedida pelo Dr. Clementino Amaro

06.12.2020 - 09:56

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