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Crónicas Avulsas
Acerca de Diferentes Noções de «Já «
Por Henrique Bonança
VRSA

Crónicas Avulsas<br />
Acerca de Diferentes Noções de  «Já «<br />
Por Henrique Bonança<br />
VRSA Um amigo alemão de longa data, nos tempos em que ele visitava Portugal com alguma frequência, quando combinava encontro para um petisco ou para uma ida à “Praia-do-Coelho”, caso ele previsse não lhe ser possível cumprir com a hora, usava a expressão latina “Pro Tempore” que quererá dizer que é àquela hora, dependendo da conjuntura ou do contexto.

Ao escutar essas duas palavras, todos sabíamos o seu significado: ele poderia chegar quinze minutos antes ou depois da hora marcada. Ficávamos com meia hora de tolerância para gerir. Se nada fosse dito, a hora da janta seria a indicada, sem falhas, nem mais nem menos minuto.

Na verdade, o modelo funcionava lindamente: todos conhecíamos as regras e, caso fosse de aplicar o “Pro Tempore”, evitavam-se ansiedades desnecessárias motivadas pela espera.

Um par de anos mais tarde, em Faro, na recepção de uma empresa seguradora onde trabalhava, ao atender um cliente inglês, simpático senhor de meia-idade detentor de uma testa avantajada e bochechas rosadas que se fazia acompanhar pela esposa, senhora de pose aristocrática, muito rígida e sorriso plastificado, para poder preencher um formulário, necessitei de lhe perguntar a profissão; ele, com sotaque carregado, respondeu prontamente: “Aqui em Portugal sou esperador, é a minha ocupação principal, os portugueses fazem-me esperar muito!”

Devo dizer que a resposta não me surpreendeu, aceitei-a com naturalidade. Culturalmente, talvez pela influência do clima, somos um povo que adora sentar-se em esplanadas, bebericar um café, conversar serenamente, sem denotar pressas.
Como consequência dessa forma de estar descontraída, o advérbio "já" possui vários matizes e pode ser entendido de forma diferente de pessoa para pessoa: para alguns de nós, sobretudo em contexto profissional, terá um significado imediatista, ele é imperativo, algo que implica acção instantânea.

Por outro lado, para outros não parece possuir essa urgência, tendo em conta a forma como gerem as situações com que se deparam; para estes, a expressão terá um significado que implica reacção ou movimento, todavia, será para mais logo ou assim que for possível. Adquire um sentido muito vago e abrangente, como um medicamento natural para vários males: o que há para fazer, tanto pode ser feito dentro de cinco minutos, como dentro de meia hora.

Esta postura e comportamento pressupõem o envolvimento de pessoas que por vezes aparentam que nada os perturba, nem sequer parece saberem que há alguém a quem lhe foi dito que iria ou faria "já" qualquer coisa e que esse alguém ficou à espera, a “ferver” intensamente e a pensar que poderia estar a cumprir com outras tarefas mais importantes do que esperar.

Há pessoas que apesar de dizerem que estão “já” a chegar a determinado local, afinal ainda nem sequer saíram do sítio onde estão. Aconteceu comigo, envolveu um cliente irlandês de têmpera semelhante à nossa: com encontro marcado comigo em Tavira a determinada hora, dez minutos depois telefona para me pedir para eu esperar um pouco mais, uma vez que estava ele a sair de Lagos. Como tinha uma outra reunião marcada com outro cliente em Vila Real de Santo António, não me foi possível aceder ao pretendido e, como consequência, perdi o cliente irlandês.

O chegar atrasado também pode ser usado artificialmente por quem acha que deste modo projecta nos outros uma portentosa exibição da sua autoridade e da sua grande importância: profissional, particular ou política!

Em Altura tive um vizinho francês que garantia que em Portugal os mosquitos jamais falham a sua hora de chegada: segundo a sua teoria, depois de muita observação pessoal, dele e da esposa e amigos convidados, a petiscar ao entardecer sentados debaixo do alpendre da sua casa, eles aparecem de rompante ao lusco-fusco, esvoaçam à nossa volta, aborrecem-nos com o irritante zumbido junto às orelhas, atacam-nos impiedosamente, picam-nos a pele, sorvem-nos o sangue durante meia hora e, depois, desaparecem na noite que entretanto chegou de mansinho!

Henrique Bonança
VRSA – 5 de Janeiro de 2021

PS – As minhas crónicas aqui partilhadas com os meus amigos e seguidores, são actualmente divulgadas em dois jornais digitais: Foz – Guadianadigital.com e o jornal on-line rostos.pt

17.01.2021 - 12:57

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