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Porquê votar?
Por Rui Lopo
Barreiro

Porquê votar?<br />
Por Rui Lopo<br />
Barreiro A campanha eleitoral para a presidência da república, está a sublinhar a dimensão de cegueira coletiva em que estamos inebriados a ponto de não se perceber que só há segundos classificados nesta eleição se o primeiro não atingir mais de 50% dos votos.

O brilhantismo da escrita que Saramago é sem dúvida um argumento para garantirmos que a nossa opinião conta.

E não apenas porque Saramago era de esquerda, ou comunista, como alguns dos leitores desta minha opinião dirão, mas porque Saramago era um simples Homem do povo, que não vem de famílias abastadas, que não se licenciou, mas que se cultivou, que apurou o seu sentido critico, traduziu uma visão de sociedade num imaginário incomum, de quem desafia antagonicamente a sua própria perceção da existência de Deus.

A história não pode esquecer que o Portugal dito democrático, decidiu não apontar Saramago e o livro “Evangelho Segundo Jesus Cristo” para prémio europeu de literatura. Estávamos em 1992, há quase 30 anos.
Saramago ensaiou sobre a cegueira coletiva em 1995. Talvez porque a percecionou como ninguém ao ser alvo de censura em plena democracia. Mas um país que não é de cultura, que não a fomenta, corre o risco de esquecer experiências e ensinamentos.

A campanha eleitoral para a presidência da república, está a sublinhar a dimensão de cegueira coletiva em que estamos inebriados a ponto de não se perceber que só há segundos classificados nesta eleição se o primeiro não atingir mais de 50% dos votos.
Por isso, e na minha opinião é positivo que a esquerda tenha vários candidatos, porque só dessa forma permite clarificar aspetos relevantes das opções políticas (atenção que não são partidárias) de cada candidato, e dessa forma, perceber quem está teoricamente, melhor preparado. E claro, que se se estivesse em causa a eleição de um democrata, não tenho dúvidas que os candidatos à esquerda enviariam esforços para que fosse eleito, em detrimento de posicionamentos mais partidários, que hipoteticamente viabilizassem perspetivas fascizantes.

É neste quadro, que depois do debate já suficientemente maduro entre candidatos que, sobressaem, na minha opinião, dois ângulos evidentes: 1) há dois registos extremados à direita em que um deles é claramente populista, mas que se tocam no clamor pela ausência do estado no garante da proteção dos cidadãos, mas no fim, o que o estado não faz, que façam os privados mas com o estado a pagar; 2) há esquerda, um discurso consistente de apelo aos valores democráticos e de salvaguarda do estado social, sem populismos e até com bastante consistência argumentativa.

O candidato populista tem marcado o seu desempenho, não por afirmar as suas reais propostas enquanto candidato ao lugar de Presidente da República, mas por denegrir constantemente a democracia e os restantes candidatos.
Por outro o atual presidente tem demonstrado as suas imensas fragilidades políticas (opções que toma), que só são disfarçadas pelos 20 anos de campanha televisiva que lhe trouxe uma imensa popularidade e forte apoio dos meios de comunicação.

Posto isto, é para mim evidente que o candidato João Ferreira é o elemento melhor preparado nesta eleição, não apenas porque me revejo em muitas das opções politicas que tem transmitido, mas por ser um dos poucos que não tem alinhado na demagogia de evocar argumentos políticos que não são do foro do presidente da república, por ter procurado responder aos ataques do populismo com argumentação e não com mais ataques, mas sobretudo, por ser o candidato que está argumentar para além dos limites da intervenção partidária e com a capacidade de não a desvirtuar, o que revela algo extremamente importante no desempenho politico, o bom senso. E é sintomático este perfil no amplo conjunto de personalidades que dão expressão do seu apoio ao João Ferreira mesmo não se identificando partidariamente com o PCP.

Como escreveu Saramago, “o pior cego é aquele que não quer ver”, jamais para aludir que votar João Ferreira é a luz que se devia seguir, mas que a experiencia coletiva a que estamos sujeitos de nos relacionarmos todos os dias, de forma crua, quase normalizada, com argumentos fascistas (já nem o candidato esconde), é não só preocupante como chocante!
Estamos tão cegos que já nem vemos.

Rui Lopo

19.01.2021 - 23:36

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