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Crónicas Avulsas
Acerca de Sentir, Pensar e Decidir
VRSA

Crónicas Avulsas<br />
Acerca de Sentir, Pensar e Decidir<br />
VRSA Quando sintonizei o canal Odisseia, já o imperdível episódio da série “Animais Brincalhões” estava a meio: pouquíssimo tempo depois, o realizador focou-se numa experiência posta em prática por investigadores que acompanhavam um grupo de babuínos em ambiente natural.

Poderia ter carregado na tecla apropriada do comando e recuado para o início da estória que estava a ser contada, contudo, as imagens e o enquadramento dado pelo narrador prenderam-me. Fiquei logo ali, no ponto onde a emissão estava.

Destacava-se a forma como diferentes espécies de mamíferos consomem o seu tempo, a importância da brincadeira no desenvolvimento dos indivíduos, o impacto que ela tem naquilo que potencialmente serão no futuro enquanto adultos: o acompanhamento dos diferentes grupos e espécies permitiu perceber que é através da brincadeira que se estabelecem hierarquias e que características de dominância e de liderança ou de submissão são identificadas e aceites; observando esses jogos percebe-se a relevância das lutas simuladas na criação de relações de amizade e de grande proximidade entre os indivíduos e que duram toda a vida.
Sem qualquer sombra de dúvida, com outros protagonistas e num contexto diferente, um quadro muito parecido ao vivido nas brincadeiras de rua do meu tempo de criança!
A determinada altura, estando eu completamente absorto pelo que estava a ver e a ouvir, num grupo composto por machos e fêmeas de babuínos, surge a incrível experiência: os cientistas dispersam de forma casual pelo chão várias bonecas de pano e carros de plástico.

Após alguma observação e de ligeira hesitação, os animais aproximam-se dos objectos e, espantosamente, mostrando o seu instinto maternal, as fêmeas recolhem as bonecas apertando-as junto ao peito, como que a protegê-las ou a querer alimentá-las; os machos ficam-se pelos carros de plástico e, usando as mãos e os dentes, entretêm-se desajeitadamente a desmanchá-los, como que a tentar perceber como funcionam.
De forma muito clara, independentemente do tamanho do cérebro e do nível de inteligência dos animais objecto do estudo, a experiência atesta comportamentos baseados em emoções sentidas.
A constatação desta tão grande semelhança comportamental entre primatas e seres humanos remeteu-me para algumas leituras efectuadas num passado não muito remoto, cerca de dez anos atrás, quando necessitei de criar alguma “bagagem” para assim melhor assumir determinadas tarefas de âmbito profissional.

Do que me recordo dessas incursões por temas como o da Inteligência Emocional, posso referir que após o aparecimento de vida no nosso planeta e da sua evolução, os seres que primeiro terão surgido com alguma complexidade estariam dotados do chamado Tronco Cerebral, que só reage e é incapaz de aprender ou de pensar, a envolver o final da Espinal Medula e que é o responsável pelas funções físicas mais básicas, como por exemplo a respiração, mantendo o corpo a funcionar em piloto automático.
Quando surgiram os mamíferos, a sua evolução determinou que à volta do Tronco Cerebral crescesse um segundo cérebro, o Sistema Límbico, que com os seus centros emocionais nos ajudam a perceber o perigo, controlam o nosso comportamento sexual, o sentido do olfacto, nos paralisa ao sentirmos medo, induz alterações das expressões faciais, nos faz ruborescer quando sentimos vergonha ou nos leva a assumir condutas que expressam paixão ou raiva, só para dar alguns exemplos.
O que separa os seres humanos dos outros mamíferos e de outras espécies inferiores é o Córtex Cerebral que surgiu com a sua evolução e que se desenvolveu a partir do Sistema Límbico, centro das emoções, o que facilita a compreensão da relação de grande proximidade entre as Emoções e a Razão ou, dito de outra forma, entre Sentir e Pensar.

Uma boa gestão das emoções é essencial para que os diversos tipos de relacionamento que criamos tenham viabilidade e perdurem no tempo, sejam eles de amizade, amorosos ou de qualquer outra natureza. Por outro lado, num contexto de tomada de decisão, para além do tema a considerar, se se tomar em conta a pressão exercida por terceiros, o exercício de decidir torna-se extremamente difícil: as emoções de medo ou de fúria, por muitas vezes se sobreporem à frieza do raciocínio, não devem estar presentes.
O processo de decisão não pode basear-se em critérios exclusivamente racionais, nem tampouco somente emocionais: para que ela seja bem acolhida e considerada justa, equilibrada e de bom senso, deverá resultar da mescla em proporções adequadas de razão e emoção.
Saber qual a quota a alocar a cada uma delas, depois dos muitos erros que cada um de nós comete, é algo que a vida nos pode ensinar!

Henrique Bonança
VRSA – 16 de Janeiro de 2021

PS – A crónica publicada na semana passada focou-se nalgumas das interpretações possíveis do advérbio “Já”; uma outra anterior a essa abordou muito sinteticamente o tema das Escolhas e de tipos de Conflitos; a de hoje fala da relação entre Sentir, Pensar e Decidir. No processo de decisão, valoriza-se muito a questão do tempo de resposta. As decisões podem ser tecnicamente correctas, no entanto, por serem assumidas fora do tempo apropriado, com precipitação ou excessiva lentidão, os resultados obtidos podem ser diferentes do esperado. Liderar e decidir implica considerar muitas variáveis, não é para todos!

23.01.2021 - 19:50

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