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Crónicas de Garfo e Faca
Acerca de grãos de areia, de conquilhas e de amizade
Por Henrique Bonança
VRSA

Crónicas de Garfo e Faca<br />
Acerca de grãos de areia, de conquilhas e de amizade<br />
Por Henrique Bonança<br />
VRSA Li recentemente um texto que falava do genial grego Arquimedes e da sua réplica à afirmação de ser impossível saber quantos grãos de areia existem no nosso planeta. A crença era sustentada na convicção de que eles eram em número infinito

O ilustre matemático e físico que não resistia a desafios destes, criando concepções numéricas com ordem de grandeza até aí inexistentes, alargando ainda mais a dificuldade do raciocínio, a partir do conceito de Universo que havia na sua época, demonstrou ser possível esse cálculo, uma vez que um número infinito de grãos de areia não pode caber num espaço finito: a impossibilidade prática de contar todos os grãos de areia existentes, não significa que eles sejam em número infinito.

Com este argumento, creio que lhe seria teoricamente possível contar o número de conquilhas que existem na praia de Monte Gordo, exercício bem mais fácil do que contar os grãos de areia que lá há: quando coloquei a questão de qual seria o número de conquilhas que haveria na praia, um amigo mariscador que trabalha duramente todos os dias do ano a puxar nas marés-baixas um arrasto de cintura para as apanhar e ganhar a vida, com sabedoria acumulada adquirida após muitos anos bem vividos, respondeu-me prontamente perguntando-me onde ela começava e onde acabava. Como eu não conhecia bem os limites e, hesitei na resposta, sem deixar a bola bater no chão, continuou a falar asseverando que se eu não sabia o tamanho da praia, como é que ele poderia dizer-me quantas conquilhas lá havia?

Uma coisa é certa: na praia de Monte Gordo, apesar da gigantesca pressão diária dos muitos arrastões espanhóis, bem superior e bem mais danosa do que a exercida por quem vive da apanha artesanal ou mesmo dos espontâneos que as apanham para o lanche, parece haver muitas conquilhas, sinal de que elas se reproduzem num ambiente natural saudável que ainda vai permitindo a sua existência.

Anos atrás, o meu amigo Miguel Lacerda, homem de muitos saberes e de nobres causas, experiente e afamado marinheiro, falou-me das conquilhas que em tempos povoavam as areias que rodeavam as paredes circulares do Forte de São Lourenço, onde foi erguido o farol do Bugio, na foz do rio Tejo; hoje em dia, pelas fotos do local, já não existe areal, só um muro protector. Dizia-me ele que as conquilhas desapareceram e que já não existem sequer nas praias das margens do rio: suponho que a contaminação das águas que correm pelo Tejo a caminho do Oceano terá algo a ver com esse fenómeno!

Esses, os de haver marisco nesses areais, foram tempos muito anteriores aos meus; quando trabalhei na capital, a partir dela deslocava-me com frequência a muitos outros lugares do nosso país, as estadias por vezes eram demoradas, intercaladas com irregulares vindas a casa, em Altura, no Algarve.
Num desses regressos a casa, à porta do supermercado Corvo em Vila Real de Santo António, abasteci-me de conquilhas e levei-as para Lisboa num enorme “tupperware”: talvez com elas conseguisse repovoar algumas daquelas praias e, dentro de uns anos, em vez de surfistas protegidos do frio com fatos de neopreno a cavalgar as ondas de Carcavelos, do Guincho ou da Crismina, às horas da vazante, fosse possível ver a silhueta de mariscadores a arrastar o aparelho de cintura, alterando completamente o cartaz turístico da zona.

Até àquele momento, na capital e arredores, conquilhas só as tinha visto à do Eduardo das ditas cujas, bem pertinho da minúscula praia das Avencas, uma famosa marisqueira destino de peregrinações de muitos sequiosos que lá vão para se refrescarem e se ensoparem por dentro com sôfregos goles de cerveja, servida em copos de imperial arredondados e atarracados como os que havia no Empurre ou na Pombalina, célebres e antigas cervejarias da vila, com qualquer uma das três referidas a dar cartas ao Zé Lebrinha de Serpa.

Quis começar a operação de repovoamento pela praia da Ursa, no concelho de Sintra mas, imaginar-me a descer a perigosa arriba com o “tupperware” das conquilhas na mão, fez-me recuar e abalei para a escondida praia do Abano, ali para os lados das dunas do Guincho; ao chegar, depois de trilhar uma estrada de terra batida mais esburacada do que uma picada na savana africana, a areia tinha desaparecido e só havia calhaus: o mar havia-a levado, ficando a praia totalmente descascada.

Com tudo isso, perante a impossibilidade evidente de as semear, várias marés depois da apanha em Monte Gordo, as conquilhas estavam quase a entrar em coma. Antes de acontecer uma desgraça, para não as perder, fui de urgência para a casa do amigo Filipe Moreira, o homem mais generoso à face do planeta Terra, dotado de inteligente e fino sentido de humor, no Murtal, nas traseiras da Parede.

Com a ajuda do “chef” Miguel Lacerda e do Artur Carneiro, uma das vozes do Coro da Gulbenkian, que chegou um pouco mais tarde, picámos um molho de coentros, esmagámos os dentes de uma cabeça de alhos e, com uma “esquita” de azeite no fundo de uma frigideira, salvando-as de um triste e lento final, abrimos as conquilhas que estavam de chupar os dedos!
O vinho, tinto à temperatura ambiente e branco refrescado, veio da sempre bem aprovisionada adega do Filipe!

Henrique Bonança
VRSA – 19 de Fevereiro de 2021

PS – Texto dedicado às tertúlias do Murtalinho, desculpando-me desde já por não referir todos os elementos que tão activamente nelas participavam: confio na sua capacidade de perdoar!

20.02.2021 - 09:43

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