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Conversas no Largo da Terra
Pandemia Covid19 – Um combate para todos
Por Mário Durval
Barreiro

Conversas no Largo da Terra<br />
Pandemia Covid19 – Um combate para todos<br />
Por Mário Durval <br />
Barreiro O vice-presidente da secção Regional do Sul da Ordem dos médicos em artigo no jornal Público proclamava: “E nós médicos pedimos que nos ajudem. Porque com a vossa ajuda haverá menos doentes COVID. Porque com a vossa ajuda podemos ter mais recursos para tratar os nossos doentes. Os COVID e os não COVID”.

Não haverá aqui uma inversão no sentido da ajuda? Não serão os médicos a ajudar os cidadãos, no sentido do seu empoderamento, para combaterem a pandemia? Não deverão os médicos contribuir para o esclarecimento dos mecanismos de transmissão para que os cidadãos possam ser agentes ativos na transformação da situação?

Esta forma de pensar a relação entre os médicos e a população aparenta ser egocêntrica: Nós médicos somos o centro do combate à pandemia e vocês, cidadãos, tratem de nos ajudar.

É bom lembrar que nunca nenhum grande problema de saúde pública foi resolvido nos hospitais ou nos consultórios. Esta pandemia não foge à regra e só pode ser contida com a colaboração e intervenção esclarecida dos cidadãos. Se, como é consensual a transmissão é pessoa a pessoa, só um comportamento responsável de cada um pode interromper as cadeias de transmissão. É necessário esclarecer as pessoas sobre os mecanismos e circunstâncias de transmissão para que atuem de forma esclarecida e segura em todas as circunstâncias. Longe de se ter posto a tónica da mensagem nas medidas individuais e institucionais, o foco das mensagens foi desde o princípio centrado nas tecnologias médicas e nas opções políticas. Os cidadãos são considerados meros recetores de ordens nunca como agentes principais. Todos os altos decisores desconfiam das suas capacidades: --Agora suspendemos as liberdades…. E agora já podemos libertar-vos…

Esta situação a que chegámos, com medidas dirigidas sobretudo às liberdades dos cidadãos, em vez de afetarem os mecanismos diretos de transmissão, originam uma reação emocional negativa pois, muitas das medidas são incompreensíveis para a generalidade das pessoas. Acresce ainda o facto de muitas das medidas pela sua abrangência transmitirem uma ideia errada do modo de transmissão, aproximando a mensagem duma visão em que a infeção é feita por miasmas que circulam na atmosfera. Desfocam-se, assim, os cidadãos das medidas pessoais que são as que constituem o pilar principal de contenção da pandemia. Enquanto as vacinas não produzirem a imunização de grupo este é um problema de saúde pública que irá perdurar. E não podemos transformar esta crise sanitária numa crise de saúde global com impacto na saúde mental e física dos cidadãos pois os fatores de stresse que estão a ser produzidos pelo medo, a situação económica, a debilidade afetiva, o isolamento irão refletir-se em doença e morte em grande escala.

As atividades de saúde pública são em essência multidisciplinares, multissectoriais, com uma abordagem holística e participadas pelas populações. Todas as tentativas de centralização da visão e da ação limitam o alcance e comprometem o desenvolvimento da sociedade, mantendo a dependência e alastrando a ignorância refletidas no medo em largas camadas da população. As atividades de Saúde Pública quando devidamente dinamizadas são libertadoras porque esclarecedoras e empoderadoras, logo salutogénicas.

Não é por acaso que no editorial do CM Carlos Rodrigues, a propósito das reuniões do Infarmed, opina: “Deixar as opções nas mãos de uma só área da ciência é errado: significa olhar para uma parte do mundo como se essa parte fosse a totalidade do real. Infelizmente, nunca é. A doença zero não existe. As sessões de especialistas representam a rendição a uma certa ditadura do pensamento médico.”

Ainda estamos a tempo de começar a corrigir a abordagem que temos vindo a fazer, para minorarmos as consequências negativas, atuais e posteriores, da pandemia. Estamos perante um problema global, interessando a todos e só pode ser combatido por todos. Qualquer grupo de interesses que pretenda apoderar-se deste trabalho limitará o alcance deste combate e contribuirá para limitar os resultados.

Mário Durval
– Médico de Saúde Pública

26.02.2021 - 21:02

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