Conta Loios

opinião

Crónicas Avulsas
Acerca de Confinamento, de Saudade e de Tempo
Por Henrique Bonança
VRSA

Crónicas Avulsas<br />
Acerca de Confinamento, de Saudade e de Tempo<br />
Por Henrique Bonança<br />
VRSA O grande tema abordado por esta crónica é o do tempo, esse fenómeno que alguns físicos dizem ser ilusório, afirmação que muitos colocamos em dúvida a partir da observação de simples sinais, tais como o incessante crescer das unhas, do nosso cabelo a embranquecer ou, ainda, dos sulcos na face cada vez mais cavados.

Pela minha filha, soube que o meu neto de três anos já não é um dos do bando de Tartarugas Ninjas mutantes, ou o Rafhael ou o Leonardo, não me recordo qual deles, nem sequer o Homem Aranha, ágil amarinhador de paredes, personagem de banda desenhada de que imita o som do arremesso de uma peganhenta teia de aranha, soprado entre os lábios contraídos, apontando os pulsos lançadores para um qualquer imaginado temível criminoso: agora diz que é o poderoso Hulk; com cara de mauzão, incha o peitaço e contrai os potentíssimos músculos dos braços, ao mesmo tempo que simula impressionantes movimentos corporais, batendo com os pés no chão para intimidar.

Num registo completamente diferente, a minha neta de seis anos, depois das suas aulas síncronas a que assiste à distância através do seu novo Tablet, à hora da inevitável brincadeira, sem demonstrar predilecção especial por alguma delas, brinca intermitentemente com as princesinhas da Disney, com a Branca de Neve ou a Cinderela e, também, com os diversos acessórios: constrói maravilhosas e encantadoras estórias e, como qualquer menina da sua idade, veste-as com diferentes roupinhas, penteia-as, simula que as alimenta e que as lava. Apesar de ter outras bonecas e outros brinquedos espalhados pela casa, creio que a deslumbrante princesa Rapunzel, nas suas várias versões, ainda não terá perdido inteiramente o seu encanto.

Vou sabendo deles pelo telefone, perdendo pelas circunstâncias actuais a possibilidade de acompanhar melhor o seu crescimento. Esta é uma das duras consequências deste prolongado confinamento a que estamos sujeitos. Até agora, sempre que as saudades apertavam, ao ponto de ser muito doloroso e difícil alongar muito mais o tempo passado sem estar com eles, apesar da razoável distância separadora, uma viagem com a duração de um par de horas pela auto-estrada, resolvia o problema: nos dias de hoje, enquanto a situação pandémica não for favorável, a liberdade de movimentos está condicionada; este é o preço a pagar por cada um de nós para mais tarde podermos aspirar ao normal reencontro!

Aliás, para estar pronto quando tudo isto normalizar, para casos como o que atrás descrevi, alguém com competências de cálculo matemático, um programador informático ou algum engenheiro electrónico criativo, deveria desenvolver urgentemente um modo prático de calcular a velocidade média segura que um veículo necessita para percorrer uma certa distância num determinado tempo, tendo sempre em conta a cilindrada, a potência, os anos do automóvel e o tipo de via, contudo, nessa ferramenta de cálculo que poderia ser associado ao GPS, obrigatoriamente, à cautela, seria introduzido um requisito de segurança revolucionário: a intensidade da saudade sentida, perigosa instigadora de altas velocidades!

Antes de abalar, para não assustar os meninos, uma vez que já faço a barba quase todos os dias, gostaria de cortar o cabelo. A última vez que o fiz, foi a dezassete de Dezembro do ano passado. Claro, esta precisão toda só é possível por ter apontado a data na agenda do telemóvel, não por ter essa memória fantástica que alguns julgam que tenho. Quem me dera que assim fosse. Acreditem, começam a surgir sinais preocupantes: já nem me lembro da matrícula completa do primeiro carro que comprei em 1985!

O grande tema abordado por esta crónica é o do tempo, esse fenómeno que alguns físicos dizem ser ilusório, afirmação que muitos colocamos em dúvida a partir da observação de simples sinais, tais como o incessante crescer das unhas, do nosso cabelo a embranquecer ou, ainda, dos sulcos na face cada vez mais cavados. Seja a percepção da sua existência enganadora ou não seja, a verdade é que em todos os momentos da nossa vida compreendemos que o tempo acontece de tal forma que ao pensarmos no instante presente, percebemos ser ele já passado. Consumimo-lo sem que o possamos evitar e em caso algum o conseguimos recuperar ou restabelecer hipotéticos níveis de capacidade de armazenamento, numa inovadora pilha de lítio só para dar um exemplo; por outro lado, sem qualquer sombra de dúvidas, em relação ao nosso tempo de vida, convém ter bem presente de que ele é finito. Uns de nós terão mais, outros terão menos. Ninguém sabe quanto tempo tem.
Trata-se de algo que parece ser como um rolo compressor imparável que ao ser consumido nos consome e encarquilha, sendo que à medida que o tempo passa, sabemos ser ele cada vez mais escasso.

Por tudo isso é tão importante confinar: para no final do processo, considerando as inesperadas dinâmicas da vida que devemos sempre relativizar, termos tempo suficiente para estar com quem é importante para nós e com quem queremos estar!

Henrique Bonança
VRSA – 25 de Fevereiro de 2021

27.02.2021 - 13:02

Imprimir   imprimir

PUB.

Pesquisar outras notícias no Google

Design: Rostos Design

Fotografia e Textos: Jornal Rostos.

Copyright © 2002-2021 Todos os direitos reservados.