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ALBURRICA: A PESCA, A CONSTRUÇÃO NAVAL E O BARCO DA MULETA QUE NUNCA MAIS CHEGA!
Por Armando Teixeira
Barreiro

ALBURRICA: A PESCA, A CONSTRUÇÃO NAVAL E O BARCO DA MULETA QUE NUNCA MAIS CHEGA!<br>
Por Armando Teixeira <br>
Barreiro O Montijo tem um Museu do Pescador, o Seixal tem o Ecomuseu, em parte dedicado ao Barco da Muleta, o Barreiro, o mais importante centro piscatório do Tejo, durante séculos, não tem nada!

Restam as memórias que se vão desvanecendo, de um longo período de quase trezentos anos, em que milhares de famílias barreirenses viveram da economia piscatória no rio-mar, da barra ao mar da Palha.

Uma extraordinária atividade dos seus barcos imponentes, únicos no mundo, com um casco forte e comprido (15 a 20 metros, sem quilha), uma companha de 15 a 20 homens. Um velame fantástico, característico e único, para que a pesca com as redes da tartaranha pudesse ser feita arrastando de través, equilibrada pelos estabilizadores suspensos da amurada, com um rendilhado metálico na proa que lhe dava um aspecto guerreiro para dissuadir os piratas que andaram na nossa costa até há segunda metade do século XVIII.

Nessa altura chegou a haver só no Barreiro (o Seixal também os tinha!) 50 barcos da muleta na faina preferencial entre os cabos Espichel e da Roca.

Como nesses tempos, continuamos à espera que chegue às nossas praias o magnífico barco da muleta, em construção há 6 anos nos estaleiros de Sarilhos.

*

“Ninguém tinha visto a Barreirense e a Argos a entrarem a barra, nem mesmo a Mar Alto, chegada agora, pouco passava do meio-dia, com muita dificuldade. Os barcos do Seixal também não passaram notícia e já tinham reentrado todos sãos e salvos na baía do Rio Judeu.

Ao fim da tarde, os lenços pretos na cabeça das mulheres eram insuficiente proteção para a chuva e para o vento que não paravam.

As saias rodadas e longas lembravam as nazarenas, davam às figuras femininas que permaneciam no areal, a imagem telúrica e ancestral da eterna e dramática espera dos barcos que não voltavam à praia, em séculos de tradição trágico-marítima.

- Senhora Ana, vamos ter fé na N. S. do Rosário! Os nossos homens hão-de voltar!

- Ora, Ora! Isto não vai lá com rezas! Vou à Capitania saber se têm alguma informação.

As restantes mulheres permaneceram de mãos entrelaçadas e olhos postos na cortina cinzenta que continuava a cobrir completamente o horizonte, escondendo a cidade grande já mergulhada no lusco-fusco precoce.

Iam desfiando lamúrias e rezas, á espera de verem surgir os barcos das grandes velas. Por vezes, numa nesga do rio clareando brevemente, parecia que algo se movia e iam aparecer os barcos aguardados ansiosamente, mas logo a chuva, agora em cortina miudinha, cerrava a vista. Até que anoiteceu.”

*

Os barcos a vapor nos fins do século XIX e depois as traineiras com motor de explosão, ditaram o fim da pesca à vela. No início do século XX só restavam os batéis, mais pequenos, menos dispendiosos, até que por fim, com o desenvolvimento da grande indústria capitalista, só restaram a pesca artesanal no estuário, a recolha de bivalves e a ancestral pesca da “chincha “nos esteiros do Tejo – A Pesca do Cerco.

Na Vila, a forma mais avançada da grande produção e a formação do proletariado industrial, ditam a ruína das outras formas de produção menos eficientes (pequena agricultura familiar, extração do sal, chafaricas de manufatura de cortiça, pescas).
As famílias possidentes preferem investir no imobiliário em expansão (mais lucrativo!) devido à forte imigração e não é feita a reconversão das pescas, como por exemplo em Cascais e em Sesimbra, com quem tínhamos contatos durante as fainas.
Resta a pesca de redes fixas e itinerantes, nas margens e nos esteiros do rio generoso, mas cada vez mais poluído pelas fábricas químicas, que vai durar até ao último quartel do século XX, quando a Pesca do Cerco foi descontinuada por razões ambientais.

*

A propósito do projeto apresentado pelo executivo camarário para a recuperação do Moinho de Maré Grande, também conhecido por Moinho da Serração, sem prejuízo de outras sugestões/propostas já apresentadas, enquanto esperamos na praia de Alburrica o barco da muleta (não é para morrer na praia!...) fazemos as seguintes propostas/sugestões:

1. O armazém anexo ao edifício do Moinho, deverá ser requalificado em Núcleo Museológico da Pesca, aproveitando os materiais lá guardados há anos (redes e apetrechos dos barcos de apoio à pesca do Cerco).

2. O espaço devidamente reabilitado, poderá servir como núcleo de apoio ao Barco da Muleta, expondo os desenhos e fotos das várias fazes construtivas e também para guardar os seus apetrechos, servindo-lhe de retaguarda.

3. Na perspetiva da reconversão estratégica de toda a área de Alburrica, é urgente a ligação da Avenida de Sapadores (requalificada!) à área pedonal/passadiços da Rua Miguel Pais, para assegurar a visitação turística cultural vocacionada das áreas musealizadas.

4. No âmbito do processo de classificação patrimonial da Estação do Barreiro-Mar (Miguel Pais) elaborado pela ABPMF, é exigível a quem de direito (CP, REFER, CMB) a intervenção urgente para estancar a acelerada degradação do edifício. A propósito, surge-nos a questão: que pressão está a ser feita junto da CP para desbloquear a classificação do património ferroviário?

Armando Teixeira

10.04.2021 - 12:57

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