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Com Abril, 100 anos de vida!
Por Armando Sousa Teixeira
Barreiro

Com Abril, 100 anos de vida!<br />
Por Armando Sousa Teixeira<br />
Barreiro - Acorde! Acorde! - um sacudir suave para não sobressaltar do sono merecido.
- Estão a dar na rádio, houve qualquer coisa em Lisboa!…
Sete horas da manhã do dia 25 de Abril de 1974!
Na telefonia da cozinha uma voz timbrada vinha dar um outro melhor bom dia. Finalmente!
“Aqui posto de comando do Movimento das Forças Armadas!…”

Deixada com dois filhos pequenos e uma venda tradicional, negócio de família na pequena aldeia dos arredores de Viseu, Ana de Sousa viu partir o marido para o Brasil na rota da diáspora, nos primórdios do século XX.
Passaram-se muitos meses e as notícias eram escassas. “Viúvas de Vivos”, chamou Joaquim Lagoeiro às mulheres de emigrantes ausentes por anos. Ana tomou-se de amores pelo António “Capitão”, homem bem parecido que estivera na I Grande Guerra e há muito lhe “arrastava a asa”.
A alcunha de “Capitão” fora ganha Batalha de La Lys, em Abril de 1918, juntamente com a Cruz de Guerra de 2ª classe que mostrava com orgulho e reconhecido prestígio entre os conterrâneos. Devia-se ao facto de ter ficado a comandar o resto do pelotão dizimado.
A ligação amorosa, explosiva num meio tão pequeno, manteve-se ardente e às escondidas. O diabo foi a Ana ter engravidado e a tradição católica, apostólica, romana da família Sousa não permitir que a “coisa” se resolvesse como era sua intenção. Por preconceito e hipocrisia, procuraram abafar o acontecimento e até o padre, amigo da casa farta, colaborou na ignomínia.
Prestou-se a baptizar a nascitura sem a identificação dos pais e arranjou uma ama-de-leite fora da aldeia, onde a menina, que nascera escorreita no princípio da Primavera de 1921, foi criada durante o primeiro ano, enquanto a mãe, renegando o fruto do adultério, fugiu para o Brasil com o marido, chamado à pressa para “reparar” a deplorável situação familiar.
Desde muito nova começou a tratar das cabras e das ovelhas na loja da casa familiar, perto do ribeiro que atravessava a aldeia. Aos sete anos já levava o gado a pastar nos baldios e ajudava no trabalho caseiro, de sol-a-sol, na pequena aldeia beirã. Nunca aprendeu a ler, na povoação não havia escola e a única a funcionar na sede da freguesia a três quilómetros, era só para os rapazes, conforme determinação do Ministério de Educação de Salazar.
Enjeitada por uns, tolerada por outros, já adolescente concluiu com tristeza que o melhor era afastar-se da terra que a vira nascer bastarda e lutar contra o destino adverso. A tia Maria de Sousa, que casara e vivia no Barreiro, pertinho de Lisboa, onde o marido imigrante trabalhava no duro na grande fábrica, tinha-a convidado para vir para sua casa e arranjar-lhe trabalho como “criada de servir”. No Outono de 1935, com 14 anos completos, guardou as roupas modestas, a sua única e eterna boneca de trapos e foi procurar o futuro, com a dignidade que o Bilhete de Identidade lhe negava: filha de pais incógnitos!

*

O mercado municipal (a praça!) era um local privilegiado de encontro da população feminina, que procurava abastecer-se de alimentos frescos, num tempo em que os meios de refrigeração eram raros e havia restrições no abastecimento.
- Bom dia, senhora Augusta! Há tempos que não a via!
- Bom dia menina Filomena! O trabalho por turnos não deixa!
A fábrica têxtil não dava tréguas, a conversa só podia demorar alguns minutos, sobre a saúde, a família e a dificuldades em obter géneros. O País não estava em guerra mas o Governo decretara o racionamento dos alimentos para ajudar os vizinhos Franquistas, na Espanha em Guerra Civil.
A simplicidade cordial das duas beirãs imigrantes na grande vila industrial, exprimia-se na forma engraçada como acentuavam os “xis”, ou como trocavam os “vês” pelos “bês”. Esta pronúncia do Norte, embora mais rara, podia ser ouvida entrecortada por outras conversas em alentejano ou em algarvio, ou em minhoto, mais raramente em transmontano.
Ao longo dos anos, milhares de imigrantes chegaram dos quatros cantos de Portugal à procura de trabalho, fugindo à fome extensa do Alentejo, à ruína da pequena propriedade no Norte, à falta de trabalho estável e proveitoso em todo o país agrícola e atrasado.
Os vindouros miscigenaram-se com os autóctones, fundiram-se as culturas, trocaram-se hábitos e costumes e até, por vezes, juntaram-se os trapinhos. De proveniências tão diversas, as histórias de vida são todas parecidas, o burgo em expansão é uma Babel, mas está longe de ser a terra prometida.
O trabalho socializado nas grandes fábricas, a disciplina da produção em equipa, a exploração do proletariado com salário insuficiente mas certo, propicia a consciência social, o sentimento de pertença colectiva, a organização da resistência e da luta por melhores condições de trabalho e pela transformação do Mundo.
- Até à próxima, senhora Augusta!
- Adeus, menina Filomena!

*

Um rosto generoso dava-lhe os bons dias, com um sorriso como não via há muito, onde cabia toda a candura do mundo, filha de uma vida de muito trabalho e sacrifício, prestes a levar um bom e muito desejado abanão.
- Ah! Devagar para não acordar a menina!
Nem queria acreditar que estava na casa dos sogros, que dormira finalmente na sua cama, depois de quase um mês a ser acordada pelas carcereiras na ronda matinal. Tinham sido duros aqueles dias em Caxias, os intermináveis interrogatórios da PIDE, o isolamento na cela, as saudades da filhota, os cuidados pelo companheiro lá longe, numa guerra que não era a sua mas onde era indicado estar.
A pequenita dormia ao seu lado, indiferente aos males do mundo, sempre bem tratada pela avó (apoiada pela restante família) que trabalhando no dia-a-dia para ganhar o pão, não descurava a atenção pelo rebento, como o filho lhe pedira na partida para a Guerra Colonial, quando a nora não pudesse ou disso fosse impedida. Como agora, em que estivera na prisão de Caxias por participar numa reunião do Movimento Democrático.
A beirã não tinha uma consciência política elaborada como os mais novos, mas na sua apurada consciência de classe, sabia que se batiam contra o regime de Salazar, repressivo e explorador, lutavam por um futuro melhor, para si e para os outros e apoiava-os como podia. A primeira neta fora uma grande alegria que só não era maior por o filho estar longe e a vida estar cada vez mais ruim.
Os raios de sol nascente penetravam pelas frinchas das janelas, ia estar um dia bonito.
Na telefonia o locutor, Luís Filipe Costa, repetia:
“… As Forças Armadas Portuguesas apelam para todos os habitantes da cidade de Lisboa no sentido de recolherem a suas casas nas quais se devem conservar com a máxima calma…”
As lágrimas rolavam pelas faces das duas mulheres abraçadas à neta que acordara: - Desta vez é que vai!…

PS. Filomena de Sousa Teixeira faz hoje 100 anos, nasceu em 1921, no mesmo ano em que nasceu o PCP, cuja luta ajudou anónima e humildemente.


Armando Sousa Teixeira

24.04.2021 - 14:28

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