Conta Loios

opinião

«Sonho de Abril»
Por João Neves
Barreiro

«Sonho de Abril»<br />
Por João Neves<br />
Barreiro Aquele era o dia mais desejado, desse tempo longo e excessivamente demorado, que não vivi.
Nasci poucos anos depois, o que não me impede de sentir o 25 de Abril como se, naquela manhã, tivesse apanhado o barco para Lisboa, algo que sempre me imaginei fazer.

Ainda que permaneça indecifrável o momento em que apreendi o seu verdadeiro significado, tenho a convicção que a sua existência em mim, é anterior a esse instante.

Para este sentimento terão contribuído as histórias que ouvi do meu pai, as que só poderei imaginar e tantas outras memórias que acabei por fazer minhas e que constituem património de todos nós.

E, claro, o Barreiro, terra de liberdade, solidariedade, de muitas lutas, da resistência ao fascismo, de verdadeiros heróis que deram a vida por este combate e que não hesitariam em fazê-lo de novo.

Desde pequeno que me lembro deste dia, da alegria que se sentia, e que tinha uma espécie de banda sonora original. Pelas ruas ouvia-se ‘A gaivota’, ‘Grândola Vila Morena’, o ‘Hino do MFA’, a ‘Tourada’, «a cantiga é uma arma, a paz, o pão, habitação, saúde, educação» e ‘E depois do adeus’… E muita poesia.

Não tendo experimentado a euforia de 1974, restava-me transferir todo esse entusiamo para os anos seguintes, como se tivesse entrado numa festa a meio e quisesse compensar o indesculpável atraso.
Um dia destes, sonhei sobre esse dia que começou cedo, sobre o dia em que era indispensável avisar a malta, e, para isso, nada melhor que um convite bem sonoro que se repercutia nos céus no imenso estrondo dos foguetes.

E o povo saía à rua, eram distribuídos cravos acompanhados de sorrisos e onde batia o coração ostentava-se orgulhosamente o cravo vermelho. Gritava-se ‘25 de Abril Sempre! Fascismo nunca mais!’. E, mesmo desafinado e com falhas na letra, cantava-se com a maior das convicções «Grândola Vila morena/Terra da fraternidade/O povo é quem mais ordena/Dentro de ti ó cidade».

Mas, naquele ano, o Barreiro amanhecia cinzento a fazer lembrar outros tempos, o das fábricas, das chaminés. Parecia uma manhã igual a tantas outras, e existia um estranho silêncio. Nem foguetes, nem fanfarra dos Bombeiros, ninguém na rua a distribuir cravos. Não queria acreditar. Alguém se teria esquecido daquele dia? Como era possível? Sentia-me abandonado e perguntava a mim próprio: o que faço aqui?
Acordei em sobressalto! Era Abril de novo, e tudo não passara de um sonho mau.

João Neves

28.04.2021 - 14:02

Imprimir   imprimir

PUB.

Pesquisar outras notícias no Google

Design: Rostos Design

Fotografia e Textos: Jornal Rostos.

Copyright © 2002-2021 Todos os direitos reservados.