Conta Loios

opinião

A acentuada degradação das condições económicas das famílias do Barreiro
Por Luís Tavares Bravo

A acentuada degradação das condições económicas das famílias do Barreiro<br>
Por Luís Tavares Bravo<br>
O Barreiro enfrenta uma severa deterioração das condições Emprego, Empresas e de perca de Rendimentos, e consequentemente do poder de compra das famílias.

No Barreiro, existem atualmente menos empresas, mais desempregados inscritos, e ganha-se bastante menos do que no princípio do século XXI. E isto acontece quando é o inverso que se verificou nos municípios comparáveis da Área Metropolitana de Lisboa, ou do Distrito de Setúbal – onde nas últimas décadas todas estas rubricas registaram melhorias. E o peso da renda da casa sobre o salário quase que duplicou nas últimas duas décadas.

Estas são algumas das conclusões do relatório de impacte sobre a evolução do município durante o século XXI, produzido pela candidatura Dar Futuro ao Barreiro, e que durante o mês de maio apresentará 21 barómetros em diversas áreas especificas sobre as últimas duas décadas. A análise identificou várias evidências que comprovam esta realidade, e que representam um contributo para entender a severidade estrutural do problema económico das famílias, que condiciona cada vez mais o poder de compra dos municípios.
A primeira evidência, é que o Barreiro, pujante cidade de empresas, criador de valor económico e de emprego do século XX já não existe. Esta era uma realidade que já era percetível na última década do século passado, mas que se degradou desde 2000. Apesar da perca de relevância, no princípio do século, o município tinha um rácio de 9,9 empresas por 100 habitantes, em linha com a média do distrito de Setúbal (9,9), embora já cerca de 18% abaixo da média da área metropolitana de Lisboa, de 12 empresas por cada 100 habitantes. Desde 2001, o Barreiro perdeu 11% do tecido empresarial, medido pelo número de empresas por 100 habitantes (de 9,9 para 8,8), e em contraciclo com os principais comparáveis regionais cujo tecido empresarial aumentou – encontrando-se este rácio 34% abaixo do dos concelhos comparáveis da área metropolitana de Lisboa (AML), e menos 13,7% do que a média dos municípios do distrito de Setúbal.

A segunda evidência é que o Barreiro é o município que registou a maior deterioração do mercado de emprego desde princípio do século, na área metropolitana de Lisboa e no Distrito de Setúbal. No princípio do século a números de desempregados inscritos no centro de emprego, como percentagem do total da população ativa residente (15-64 anos) era de 5,8%, um valor abaixo da média de 6% dos municípios comparáveis no distrito de Setúbal, embora já ligeiramente acima dos 5% da média relativa aos municípios da área metropolitana. Desde 2001, as leituras para este indicador mostram que no Barreiro, o desemprego subiu 0,6 pontos percentuais para os 6,4%, e acentuou a divergência para as médias dos restantes concelhos da área metropolitana de Lisboa (4,2%) e do Distrito de Setúbal (4,4%), onde esta taxa de desempregados sobre população residente, ao contrário do Barreiro, diminuiu de forma sustentada.

Em terceiro lugar, o poder de compra das famílias Barreirenses degradou-se, e é agora pior que a média do Distrito de Setúbal. No princípio do século XXI, a média de remuneração mensal dos trabalhadores por conta outrem estava acima da média nacional, e da média dos municípios do Distrito. Atualmente, estas mesmas remunerações dos trabalhadores do concelho do Barreiro estão abaixo destes comparáveis, e significativamente abaixo (-17,7%) da média da área metropolitana de Lisboa.

Por último, mas não menos importante, o peso das rendas médias das casas nos rendimentos das famílias quase que duplicou. É mais caro para uma família ter condições para viver no Barreiro agora que no princípio do século XXI. O valor médio das rendas mais que duplicou desde o princípio do século (uma habitação com cerca de 60 m2 custa hoje cerca de 401 euros por mês, quando no princípio do século custaria cerca de 185 euros por mês), e o peso destas rendas sobre o ganho mensal dos trabalhadores por conta outrem subiu significativamente em mais de 14 pontos percentuais, de cerca de 22% para 36% dos salários, o que tem um impacte crescente e relevante no orçamento das famílias barreirenses.

Estas quatro evidências, suportam a tese de o Barreiro necessita de implementar um conjunto de políticas públicas locais que sejam indutoras de atração de investimento qualificado, isto é, que seja capaz de gerar postos de trabalho sustentáveis. É por isso necessário construir um ecossistema que vá além da distribuição de benefícios fiscais, subsídios ou benesses. Um que tenha robustez suficiente para, antes de mais tratar dos que cá estão, ou seja conter a erosão de empresas residentes no Barreiro e que seja audaz para atrair as empresas que se estão a posicionar para os sectores emergentes da próxima década.

A criação de um consenso político em torno de uma estrutura profissional de estratégia de desenvolvimento da economia local e de angariação de projetos de investimento (uma InvestBarreiro) dotada de meios humanos, tecnológicos e com objetivos mensuráveis é uma ideia já testada pelo nosso país com sucesso, e que pode ajudar em muito a potenciar o trabalho de inversão da crise no sector das empresas e a recuperar o poder de compra das famílias.

Por fim, é necessário também começar a delinear consenso político em torno de uma estratégia municipal que seja capaz de lidar com a escalada do valor do arrendamento das habitações familiares das últimas décadas, cujos valores médios representam já mais de 35% do valor da remuneração mensal média da população residente. É um problema que não é exclusiva do Barreiro, e sem dúvida que reflete uma série de desequilíbrios atuais do mercado imobiliário. Mas está a fragilizar ainda mais o poder de compra das famílias locais, e ajuda a acentuar também ainda mais a crise demográfica do nosso concelho.

Luís Tavares Bravo, Economista.

05.05.2021 - 07:39

Imprimir   imprimir

PUB.

Pesquisar outras notícias no Google

Design: Rostos Design

Fotografia e Textos: Jornal Rostos.

Copyright © 2002-2021 Todos os direitos reservados.