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NÃO GOSTO QUE ME ATROPELEM A CONSCIÊNCIA.
Por Emanuel Góis
Barreiro

NÃO GOSTO QUE ME ATROPELEM A CONSCIÊNCIA.<br>
Por Emanuel Góis<br>
Barreiro Sem afastar a hipótese de algum juízo mais precipitado, assumo a ideia que, para uma certa classe de políticos ou, aqueles que se passeiam pela política, terem interiorizado, uma vez no exercício de funções públicas que lhes advém de qualquer evento eleitoral, adquiriram, só por esse facto, uma prerrogativa de direitos e um estatuto de impunidade e diferenciação relativamente aos demais cidadãos.
E daí, sem mais, só temos de estar agradecidos.

Com isto quero dizer que, “estabelecidos” provisória ou, ab aeterno, num patamar onde foram ou, se colocaram, têm de imediato a tendência - este abençoado e tão tradicional costume português – de, calçando uns sapatos de bailarina clássica, transmitir aos outros, quando ali estão – nas tais funções politicas - serem intocáveis no que quer que seja e ai de quem se atreva a escrutiná-los e ao sistema que os alimenta.

Para eles, num Estado Democrático e de Direito, mesmo pobrezinho e sempre à espera duma mão caridosa, beneficiarem de uma assumida diferenciação no tratamento que se exigia e impunha ser igualitário de cidadania, tem de ser, refiro-me ao dito estatuto, comumentemente aceite como das coisas mais naturais da vida.

E daí, atirarem-nos com o já costumado palavreado de que somos uns felizardos por podermos exercer o direito de voto, da liberdade de expressão e reunião, da defesa dos direitos cívicos constitucionalmente consagrados, blá, blá, blá…

São temas ou conceitos que, veneradamente, temos que humildemente agradecer. Como, tal como os súbditos, tivéssemos de fazer.

Efectivamente, o perigo, a meu ver, reside numa espécie de imposição mental para ter de me sentir agradecido por me deixarem falar e escrever - até este texto – ser atendido num centro de saúde ou hospitalar, dispor de serviços públicos, independentemente de me venderem fotocópias de documentos a mais de um euro por página, mesmo sem gastarem tinta nos carimbo. Como se o tivéssemos de fazer.

Estes são os pequenos exemplos que os “intocáveis” nos apresentam para, como arraia miúda e acéfala - para eles - nos sentirmos cidadãos e termos o privilégio de sermos atendidos por um ou um Presidente de Junta de Freguesia. Como se tivéssemos de agradecer.

São todas estas deferências que nos são dadas. E temos de agradecer, dizem eles. Como se o tivéssemos de fazer.
Ora, o que para muitos deles envolve o exercício das tais funções público/políticas é, pelo facto de terem sido eleitos - ou nomeados através de uma mão amiga, que nestas alturas nunca falta - lhes permite sentar no cadeirão que é colocado no estrado mais alto da sala.

E esse, é o pecado. Sentarem-se no degrau de cima e no cadeirão que ajudei a pagar.
O importante, o essencial, no tal Estado de Direito Democrático que não se cansam de apregoar, mas, esquecem, é precisamente pelo facto de nos encontramos neste regime político que, ao invés de reivindicarem tratamentos distintos perante os demais cidadãos, antes se deveriam mentalizar, pelo contrário, que lhes incumbe a tarefa de carregarem com um cabaz, bem grande, de deveres e obrigações para com os seus concidadãos.

Os poderes que passam a deter, não são para uso discricionário e de interesses pessoais, muitos deles bem obscuros, mas no respeito pelo cumprimento daquilo que prometeram a quem neles acreditou e para os que não se integram nessa vertente de creditação.

Tal facto, não os iliba de, em resultado do sufrágio, que não é um prémio, mas sim a responsabilidade de, com o dinheiro de todos, trabalharam em prol de todos, designadamente, nas necessidades básicas dos cidadãos e no desenvolvimento da sociedade enquanto um todo, empregando bem os dinheiros que lhes são confiados.

São deveres, sentido de serviço público e não benesses, concessão de mordomias e aumento de volumetria de egos pessoais.
Infelizmente, são por estas razões que o poder é apetecível. Essa “coisa da coisa pública” do trabalho e investimento no interesse dos povos, é para filme e estudos de retórica de ciência política.
Melhor, dizendo e em bom português - Deixem-me tratar de mim e dos meus e não me aborreçam.

Não deixa, aliás, paradoxalmente e de forma caricata, em muitas das vezes escutarmos alguns destes protagonistas afirmarem que assumem as suas responsabilidades politicas. Frase encantadora que nos leva quase ao choro, mas que ainda está para vir alguém esclarecer o seu significado e, fundamentalmente, quais as consequências dessa assunção de responsabilidade.
Finalmente e, em verdade vos digo, que no meu caso, não precisam de andar em marcha de emergência.
Não é por nada. Simplesmente, não gosto que me atropelem a inteligência.

Emanuel Góis

17.07.2021 - 00:10

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