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Perfeito, do Imperfeito…
Por Ana Lourenço Monteiro
Seixal

Perfeito, do Imperfeito…<br>
Por Ana Lourenço Monteiro<br>
Seixal Há dias perfeitos que nos trazem para o colo inevitáveis imperfeições. Foi o que me aconteceu durante estes dias de férias, em que quase inventei um novo ‘tempo verbal’ ao conjugar umas tantas situações com que me cruzei relacionadas com a lógica perversa de Ter (algo) para Ser (alguém, ‘supostamente idealizado’). “Maldito Marketing” - digo eu, comunicadora nata –, que mostra o ‘Perfeito’, ocultando, a seu jeito, o ‘Imperfeito’ que em tudo existe…

Da «enjoativa dependência» dos telemóveis estampada nas selfies à beira mar à «peneirenta obediência» a tendências Bio impressa por todo o lado e às «plantações de estufas» que sugam as reservas de águas do pequeno produtor em prol do grande empreendedor que emprega mão de obra barata e leva mirtilos para o outro lado do mundo, a minha consciência foi salva pelos bons exemplos de garrafas que, depois de usadas, se degradam e libertam algas em vez de microplásticos e de casas que nascem de poucos recursos no meio da natureza, sem a vandalizar.
Estamos na era em que adotar comportamentos saudáveis e sustentáveis é indicado como o melhor caminho a seguir em prol do nosso Planeta. Isso creio que todos o queremos já que, queiramos ou não, habitamos a mesma ‘casa global’. Mas será que nos damos ao trabalho de procurar um pouco mais além do que nos é dado como ‘Perfeito’ via notícias na Comunicação Social, via publicidade das grandes empresas ou via grandes negócios anunciados pelo governo de cada país?

Nestes dias tive ainda a felicidade de me cruzar com o fabuloso documentário ‘O Lado Negro das Energias Verdes’, produzido em 2020 e disponível nos Arquivos da RTP. Um documentário que aconselho vivamente a visualizar (basta uma simples pesquisa) sobre “a nova era tecnológica” e o seu lado ainda desconhecido por muitos de nós. Um lado negro escondido atrás da popular ideia que nos é vendida de que as tecnologias ‘green’ são limpas, revelado num documentário que desmistifica como as pessoas, em qualquer canto do mundo, podem ter objetivos «limpos» mas que na sua génese se esbarram com negócios sujos pela ganância do poder e que podem não ser assim tão sustentáveis.

A insaciável sede de ‘Ter’ esgota esta «casa global»

Este cruzar de temas levou-me à mesa da biblioteca da minha escola secundária, onde, na década de 90, me encontrava a escrever um trabalho sobre a Globalização. Tinha de pensar em como estaria o mundo em 2020. “As consequências da Globalização – Prós e Contras”, qualquer coisa deste género. Um tema tão à frente e tão gigantesco para pensar, e que, enquanto alunos, não víamos como era tão oportuno para os jovens visionários que então se estavam a formar.
No último ano e meio, tenho dado por mim sentada várias vezes naquela cadeira. Ainda não chegada aos 18 anos, ninguém me tinha dito que um estratega ou empreendedor é aquele que «vive no futuro». Limitava-me, ainda, a viver no presente. Não tinha o suficiente pensamento estratégico, aquele que é esculpido com as experiências da vida, com o tempo, sempre em constante aperfeiçoamento. Mas, sentada em frente ao ecrã – num misto de assustada e encantada por ter ‘um computador para mim’ e do acesso à internet -, já me perguntava: “por onde começo; para onde é que eu vou?”.
Sem o saber, já me colocava a pergunta base de qualquer estratégia a definir. Quanto aos então estrategas da altura, ainda hoje me pergunto se todos os países tinham realmente respondido a essas questões antes de se lançarem no ‘mundo encantado’ da Globalização? Ou se só alguns, com ‘olho para o negócio’ nesta Aldeia Global.
Mal eu conseguia projetar os efeitos que estamos a sentir na prática com modas e tendências, crises identitárias (de pessoas, de gerações e até de países…), quanto mais imaginar que a pandemia que vivemos seria um resultado também consequente dessa «partilha» mundial.
Na verdade, estamos precisamente, à data de hoje, a partilhar tudo o que é de «bom» ou menos bom que tem resultado das vivências da Globalização. A maior conexão gerada entre pontos distintos do planeta veio permitir a interação entre diferentes países e regiões, com desbloqueios económicos, culturais e de informação. Mas, no meio de experiências tão diferentes e da abismal complexidade de conciliá-las, nomeadamente ao nível de valores, continuamos a não ‘pensar global’ para realmente ‘agir global’.
A insaciável sede de ‘Ter’ – por parte de cada país, das superpotências ou dos países que têm recursos para sê-lo -, cega as tentativas de beneficiar globalmente todos os terrestres. Sim, «terrestres», a nossa «casa global» não é o Planeta Terra?

Quer mesmo continuar a acreditar no slogan ‘sou um homem bom com uma ideia boa’?

Sentada na cadeira onde escrevo este texto, sei que sou pequena para chegar aos ouvidos dos estrategas que comandam o mundo. E nem sempre são os políticos em cada país, acreditem; são os «marionetistas» dos mercados, aqueles que não estão à vista dos olhos comuns, mas que manipulam mil e uma vidas sem darmos conta de como nos influenciam e aos nossos decisores, como «arquitetos de superiores decisões».
Gostava de lhes dizer que quem comanda a Globalização não pode continuar a vender o slogan ‘sou um homem bom com uma ideia boa’ se não sairmos do ciclo vicioso baseado no ‘Ter’ para ‘Ser’. Se a estratégia continuar assente em alimentar a procura desenfreada, em que o uso e o consumo de recursos continuam a aumentar a um ritmo alucinante, ninguém na Terra vai ficar por cá para «contar a História».
Não é o negócio ou a obtenção de lucro o que mantém o Homem na Terra; é a sustentabilidade da saúde do Homem e do nosso Planeta. De nada vale inventarmos novos equipamentos baseados em energias renováveis, se para esses equipamentos existirem em prol de alguns anda X por cento da população no mundo a trabalhar em minas de forma desumana.
Será que podemos parar para questionarmos o que acontece aos nossos telemóveis topo de gama ou aos nossos carros elétricos depois de ‘morrerem’? E será que os painéis solares e os aerogeradores das nossas cidades são concebidos projetando o seu uso mas também o seu fim de vida de forma sustentável. Em certos casos, são concebidos e colocados à venda, mas sem sequer ainda se saber como reciclar as respetivas matérias primas…

A maior revolução por chegar está nas nossas mentes

De tempos a tempos, o ciclo da vida diz-nos que temos que passar por «revoluções». Ainda estamos a tempo de dizer ‘basta’ à atual corrida desaforada pelos recursos naturais como se se tratasse de «matéria-prima para a vitória» ... a vitória, essa, está em reduzir e prescindir; está em pensar em todos para crescermos todos. Pois a maior revolução que temos pela frente, além da tecnológica, é aquela que está nas nossas mentes e nos permita construir uma ‘Cultura Global’ dos mercados: focar no ‘Ser’ e não no ‘Ter’, com respeito por todos e pela Terra… Mas isso talvez não seja algo que caiba na mente dos donos dos grandes negócios.
Quanto mais procuro, leio e pesquiso, mais posso conhecer sobre o mundo que vamos construindo, eu, tu e quem decide por nós, ninguém está fora dessa responsabilidade. E mais a minha consciência fica limpa do rumo que não quero seguir e certa de que faço a minha parte quanto a não querer ser enganada, para lutar por melhores decisões e manifestar-me por um mundo melhor.
Está dito, não vou ser uma ‘estratega’, pois não sei conjugar o ‘Perfeito’ sem denunciar o ‘Imperfeito’ que nele pode estar oculto. Prefiro viver no presente e não no futuro, mas sei que só consigo chegar ao ‘amanhã’ se procurar melhorar cada dia aperfeiçoando o que aprendi no passado.

Ana Lourenço Monteiro

18.07.2021 - 16:26

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