Conta Loios

opinião

A MOBILIDADE, UM DOS DILEMAS DO BARREIRO
Por José Encarnação
Barreiro

A MOBILIDADE, UM DOS DILEMAS DO BARREIRO <br />
Por José Encarnação <br />
Barreiro A Terceira Travessia do Tejo, a Mobilidade vertical e transversal, bases para o Emprego sustentável. Enquanto não se resolverem problemas estruturais relativos à mobilidade, o Barreiro não sairá da “cepa torta”.

Pela sua situação geográfica e inserção no território da AMLisboa o Barreiro é, como já alguém disse, uma sub-península da Península de Setúbal.

Para visitar o Barreiro é preciso vir cá “de propósito”.

O Barreiro é “zona de passagem” nas localidades de Coina, Palhais e Santo António. Está perto e longe de Lisboa e, apesar de algumas razoáveis acessibilidades (sobretudo fluviais), sofre com isso. Até as ligações ferroviárias perderam importância com a “deslocalização” para o Pinhal Novo da sua estação principal no que diz respeito à linha do Algarve e Alentejo.
Durante mais de 70 anos o Barreiro constituiu um polo de atracção, criação e fornecimento de mão de obra qualificada. Boa parte deve-se à existência de indústrias importantes e de grande e média dimensão (CUF, Equimetal, Mompor, CP, entre outras). O Barreiro hoje é quase e totalmente um dormitório. Não admira, pois, a constante perda de população residente. O índice de empregabilidade, à época, Escola Alfredo da Silva (EICAS) é disso exemplo.

O Barreiro tornou-se cada vez mais uma zona menos qualificada pesem embora os esforços do Poder Local.

Durante décadas o Barreiro só estava ligado a Lisboa por via fluvial. Com a construção da Ponte 25 de Abril e com o desenvolvimento das acessibilidades rodoviárias assistiu-se a um incremento do transporte individual e de mercadorias. Muitos já não se lembram de que durante largos anos a A2 só chegava ao Casal do Marco.
O Barreiro nunca teve acessibilidades, nomeadamente rodoviárias, que o ligassem de forma decente, escorreita e fiável ao Seixal e a Almada ou a Palmela e a Setúbal. Os transportes existentes supriam, no essencial, serviços mínimos para o transporte de trabalhadores e estudantes.

O Barreiro sempre ficou e, ainda hoje, se mantém “longe” de tudo.

Para ir a Setúbal ou Palmela, por meio ferroviário, eram precisos uns penosos 50 minutos até ao Quebedo.
Já poucos se recordam do tempo que demorava ir ou vir de Lisboa ao Barreiro por via fluvial na década de 60 do século passado.
O colapso da CUF/Quimigal, da indústria metalomecânica, da Siderurgia Nacional e da agonizante vida da indústria naval agravou todo o panorama.
Com o advento dos comboios na Ponte 25 de Abril, para se apanhar o Alfa ou o Intercidades para o Algarve, temos de ir ao Pinhal Novo. Se quisermos ir para Norte ou vamos ao Pinhal Novo ou vamos à Gare do Oriente.

O Barreiro ficou “fora” de tudo.

A responsabilidade, melhor, a irresponsabilidade deve-se à ausência de planeamento e de visão estratégica face às acessibilidades na AML. Intra e intermunicipais. Os municípios, apesar das suas reclamações e reivindicações, nunca conseguiram impor ao Poder Central um novo paradigma.
A Ponte Vasco da Gama mais não fez do que promover a especulação imobiliária e a pressão urbanística à margem esquerda sem a correspondente e significativa criação de empregos produtivos na Margem Sul. Foi escamoteada a fixação de novas e mais jovens populações. Novamente foi privilegiado o transporte automóvel, intrinsecamente individual, com as consequentes dificuldades resultantes dos movimentos pendulares.
Contra a opinião de muitos municípios e autoridades técnicas, foi abandonado o corredor central Barreiro/Chelas. Corredor estruturante do ponto de vista da mobilidade e determinante no modo ferroviário Regional e Nacional, o único capaz de dar coerência à rede ferroviária nacional e ás ligações de Portugal com a Europa. Desde Sines a Berlim. De Faro à Corunha.

É, por tudo isso, necessário repensar o paradigma na mobilidade.

Tal como sucedeu com o projecto da Ponte 25 de Abril (ficou prevista a ligação ferroviária entre as duas margens) não haverá razões transcendentes para que não fique previsto o modo rodoviário na TTT. Contudo a prevalência deverá recair sobre o modo ferroviário e o transporte rodoviário colectivo. Insistir no transporte automóvel é persistir na degradação do ambiente e qualidade de vida com implicações a nível climático desastrosas.
Ao Barreiro não interessa meter mais automóveis em Lisboa ou vice-versa. Logo, a insistência da construção de uma ponte que ligue o Barreiro ao Montijo significa insistir no erro sem resolver o problema de fundo. Mais absurda ainda é a ideia de essa ligação ser feita através de túnel.
O Barreiro carece sim de emprego local e de bons acessos, fáceis e rápidos, para que se instalem aqui novas actividades, de maior valor acrescentado, indústrias inovadoras, tecnologicamente evoluídas e mais limpas, centros de desenvolvimento e investigação que criem e fixem emprego de preferência mais qualificado e mais denso. O Barreiro precisa de empregos qualificados e de assim atrair gentes de outras paragens e fixar a população que continua a perder a olhos vistos.
Quem investe, apesar dos constrangimentos das “NUT’s”, quer bons acessos bem como outras infraestruturas para colocar e retirar as suas mercadorias e produtos. Por isso defendo que a TTT deverá ser, preferencialmente em modo ferroviário.

A TTT obrigará e permitirá o reordenamento necessário do concelho do Barreiro contribuindo para quebrar o seu congénito isolamento/afastamento em relação à AML.

Com a TTT e a modalidade ferroviária ligeira e rápida (prevista nos vários estudos), Lisboa ficará à distância de 15 minutos. Ou seja. Ir do Barreiro à gare do Oriente ou a Sete Rios ou Entrecampos poderá não ir além dos 20 minutos sem as imensas filas do pára arranca.
Mais do que isso demoramos nós a ir ao Casal do Marco ou ao Rio Sul já que houve quem abandonasse a ligação Barreiro/Seixal. Ter abandonado a ligação, quer pedonal e ciclável quer a ligação rodoviária e, no futuro próximo ferroviária entre o Barreiro e o Seixal, constituiu uma falta de visão estratégica para o Barreiro, para os dois concelhos e para a região. Aqui a responsabilidade só pode ser assacada à actual maioria que dirige a Câmara (PS/PSD).

José Encarnação
(Fundador e activista da Associação Cívica – As Pessoas Primeiro, ONG)

06.09.2021 - 15:46

Imprimir   imprimir

PUB.

Pesquisar outras notícias no Google

Design: Rostos Design

Fotografia e Textos: Jornal Rostos.

Copyright © 2002-2021 Todos os direitos reservados.