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A matéria não visível
Por Durval Salema
Barreiro

A matéria não visível<br>
Por Durval Salema<br>
Barreiro Tomando a Física como contexto, sabemos que a matéria visível representa apenas 5 % de tudo o que existe, sendo que de 95% não fazemos ideia do que seja. Transpondo para um ato eleitoral, tal pode-se aplicar ao tentarmos explicar o comportamento dos eleitores quando perante um boletim de voto.

Poderemos equiparar os 5% da matéria visível ao número de pessoas que são candidatas pelas várias listas concorrentes e àquelas que, mesmo não sendo candidatas, estão direta ou indiretamente ligadas às estruturas de campanha e que são filiadas nos partidos políticos. Quanto aos 95% da matéria que não é visível e da qual não temos conhecimento, resta-nos especular.
No fundo, é tentar compreender como de um comportamento individual se pode inferir uma conduta coletiva ou como de uma vontade individual se pode depreender uma opção conjunta.

De facto, existem inúmeras razões e motivações pelas quais, no dia da eleição, se pode optar por colocar uma cruz num determinado quadrado em detrimento de outro(s). Desde logo, pelas ideias expressas por um partido. Há pessoas que de uma forma mais racional, preocupam-se em ler e ouvir aquilo que é transmitido por uma força política (e não necessariamente apenas em período eleitoral) e decidem o seu voto em função do que é transmitido. Outras há e no extremo oposto da racionalidade, que votam num determinado partido pelo mesmo motivo pelo qual se é adepto de um clube desportivo, pelo simples motivo que “são” daquele partido, sem saberem explicar exatamente porquê. Existem ainda aquelas que votam no partido A simplesmente com o objetivo de impedir a vitória do partido B. Acrescem também as que votam num partido porque conhecem e/ou simpatizam com o/a cabeça de lista, independentemente da lista pela qual concorre. E acrescente-se ainda o motivo menos nobre, mas real, das que votam em função da maximização de benefícios (interesses económicos ou outros) que a vitória de um determinado partido lhes possa vir a proporcionar.
Interessante também é a reflexão que muitos comentadores fazem sobre a denominada “transferência de votos” entre partidos, como se o universo de pessoas que votam fosse estanque. Ou seja, partem do princípio que o João e a Maria foram sempre votar e que apenas mudaram a sua opção de voto, não colocando a hipótese de em 2017 o João ter votado no partido A e de se ter abstido em 2021 e de a Maria se ter abstido em 2017 e agora ter votado no partido B. Parece que houve uma transferência direta de 1 voto do partido A para o partido B, quando na verdade nada disso aconteceu.

São sempre pontos de partida para conversas animadas e para alguns detentores de verdades absolutas, mas como não será o autor deste texto a descobrir de que é composta a parte de 95% de matéria não visível, vamos aos factos das recentes eleições autárquicas, nomeadamente no concelho do Barreiro e numa perspetiva não tão comum de analisar: os resultados da votação para a Assembleia Municipal (AM).

Houve um vencedor claro e óbvio: o PS. Aumentou o seu resultado, face a 2017, em 44,6%, passando a deter um grupo municipal de 16 eleitos em 27 (a que se juntarão mais 4 num logro legal, em que esse grupo passará a um total de 20 em 31), numa maioria avassaladora e que obrigará esse partido a um esforço de humildade participativa, sob pena de, mesmo que involuntariamente, entre numa onda de totalitarismo não desejável.

Todos os outros partidos representados no último mandato foram claramente derrotados. Menos 29,2% para a CDU (passando de 10 para 7 eleitos), menos 22,7% para o PSD (passando de 3 para 2 eleitos), menos 43,1% para o BE (passando de 2 para 1 eleito) e menos 35,5% para o PAN (que lamentavelmente para o concelho e para as causas que este partido defende, perde o seu representante municipal).

Pode-se desde já ressalvar que há um sentimento de injustiça em eleições autárquicas e que estes partidos, nomeadamente PSD, BE e PAN partilharão. O facto de as medidas tomadas serem sempre conotadas com o executivo municipal, eclipsa o trabalho que as restantes forças políticas desenvolvem, nomeadamente em sede de Assembleia Municipal, pois é muito difícil os eleitores se aperceberem como foram tomadas as decisões, que propostas foram apresentadas e que trabalho foi efetivamente desenvolvido pelos diferentes grupos municipais. No fundo há todo um trabalho desenvolvido em prol do concelho e do qual não há praticamente qualquer perceção por parte dos munícipes, não se imputando totalmente esse desconhecimento aos munícipes, mas também ao sistema de comunicação municipal que beneficia sempre quem está no poder.

Interessante é o facto de o número de eleitores inscritos ser virtualmente igual ao de há 4 anos atrás e de até o número de votantes ter sido muito semelhante (uma diferença positiva em 2021 de apenas 230), o que torna a tarefa de tentar alcançar justificações para a descoberta de parte da matéria não visível um pouco menos especulativa.

Concordando-se ou não, gostando-se ou não, verificou-se nestes 4 anos de executivo PS uma vontade em alterar a face do concelho, mesmo que a nível de requalificações localizadas, claramente visíveis para a população. Acresça-se o trabalho desenvolvido durante a pandemia e isso, através de um sistema de comunicação extremamente eficaz, criou a perceção (fundamentada ou não, não é relevante para esta reflexão) de uma mudança, de algo novo e diferente, que a população barreirense apreciou e que não quis que parasse e fosse interrompida. E essa vontade foi tão forte que necessariamente desviou votos de todas as forças políticas representadas na AM no mandato 2017-2021. Não deixa de ser curioso constatar que os 5.532 a mais conquistados pelo PS, correspondem quase em paralelo aos 5.715 perdidos em conjunto por CDU, PSD, BE e PAN.

Para daqui a 4 anos, pode o autor do artigo arriscar desde já um prognóstico, quase de “La Palisse”, na verdade. Todos estes partidos, nomeadamente PSD, BE e PAN, ganharão votos ao PS, que diminuirá por certo a sua votação. Se isso é suficiente para voltarmos a uma situação em que não haverá maioria absoluta e em que a AM voltará a ser detentora de um pluralismo mais desejável, por enquanto não arrisco tanto. Até lá, participação democrática e cívica, precisa-se!

Durval Salema
50 anos
Técnico superior da Administração Pública
Membro da Comissão Política Distrital de Setúbal do PAN

Nota - Durval Salema foi o candidato do PAN à presidência da Assembleia Municipal do Barreiro, nas recentes eleições autárquicas, e, é deputado municipal eleito pelo PAN, na AMB cessante.

02.10.2021 - 18:25

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