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DESCULPA, AFONSO…
Por Emanuel Góis
Barreiro

DESCULPA, AFONSO…<br />
Por Emanuel Góis<br />
Barreiro  Na História de Portugal, para além de muitas outras figuras que se distinguiram ao longo dos anos e que prestigiaram e elevaram bem alto o nome do nosso país, existe uma que está, no caso concreto que agora me ocupa, muito maltratada, não direi, pelos portugueses, de quem não duvido que nutrem por ela uma grande simpatia, apreço e admiração, mas por aqueles que tinham obrigação, pelos cargos e funções que exercem, de o respeitar como se exige e merece e que tão esquecido anda de tanta mente ilustre.

E refiro-me ao tempo longínquo em que os meios de comunicação consistiam nos pombos-correios ou em mensageiros espiões disfarçados que andavam a pé ou de carroça, julgo eu.
Por outro lado, é sabido que nós, os portugueses, somos levados da breca para festas e festarolas e que, de qualquer coisa que apareça e que fuja o mínimo ao que seja rotineiro, logo somos tentados a fazer do acontecimento um evento quase sobrenatural, a que não faltará a marca registada de quem o patrocina.

Outro aspecto a que igualmente não são alheios, são as modas e modinhas do momento, as simpatias e amizades envernizadas que logo tomamos por esta ou aquela figura, incluindo aqueles frequentadores dos meios mais “in” que, se lhes dá jeito para preencherem o ego e o “status”, logo inventamos uma homenagem, esculpimos uma estátua, damos o nome de uma avenida ou aeroporto a alguém, enfim, um somatório de elogios e obra perene para memória futura. E assim nos enchemos de orgulho.
Temos depois, os feriados, por exemplo. Sejam nacionais ou locais, temos de arranjar um dia para comemoração e…fazer uma pausa no trabalho, que sempre dá jeito. E quando se propicia as chamadas “pontes” aí vamos nós direitinhos a qualquer sítio, que para alguma coisa servem os cartões de crédito.

Bom, mas já estou a desviar-me do tema que me despertou o pensamento, passado que está a comemoração do feriado de 5 de Outubro, dia que regista a efeméride do golpe revolucionário patrocinado pela carbonária e que deu origem à implantação República, regime em que actualmente vivemos, república esta, valha a verdade, um pouco com sabor a fruta tropical, daquela que faz bem aos ossos e ajuda nos problemas de reumático e de que os nossos amigos primatas adoram. Falo das bananas, claro
Pois bem, em 5 de Outubro de 1910, José Relvas, que tem até o seu nome inscrito na toponímia da minha terra e logo na parte de trás do local onde moro, na varanda da Câmara Municipal de Lisboa, proclamou, perante a população que ali se encontrava, a implantação da República.

Terminavam, assim, 767 anos de regime monárquico. Foram sinais dos tempos, de que Napoleão não está isento como grande inspirador e percursor destes movimentos que se passaram a registar por toda a Europa.
Atrasados, como sempre andamos em relação aos demais, obviamente, que levámos e, continuamos a levar o nosso tempo para nos adaptarmos à nova realidade europeia que então despertava.

Perante as profundas alterações no regime jurídico e político do país e na relação das populações com o agora denominado Estado e, não Reino, agora, cidadãos e, não súbditos, foi entendido perpetuar tal data com a classificação de o considerar feriado nacional.
Mas, vá lá saber-se porquê – eu não sei, juro - em 2013 deixaram de ser feriados civis o 5 de Outubro e o 1 de Dezembro - que assinalava a Restauração da Independência - e dois religiosos, assim como em jeito de compensação, como é o caso do dia 1 de Novembro e o dia do Corpo de Deus, este móvel.

Mas, foi por pouco tempo. Em 2016, perante uma generalizada insatisfação popular e em sede de Concertação Social, voltou a imperar o bom senso, e aí estão de novo, desde então, os nossos 4 feriados.
De facto, “esquecer” a Restauração da Independência e a implantação da República, não lembrava ao diabo. Mas, isto da política, tem que se lhe diga…

Escapou – neste caso “piava” mais fino, dada a proximidade do facto, vivenciado por grande parte da população, o 25 de Abril. Ai de quem se atrevesse a apaga-lo dos feriados e da memória, ainda que recente, dos portugueses.
Aliás, a meu ver, seria um absurdo, como foi o apagão temporário dos feriados de 5 de Outubro e 1 de Dezembro pela sua importância e influência na História de Portugal, gostem ou não, alguns.
Voltando à actualidade, daí a comemoração recente e, bem, do dia 5 de Outubro.
Outras datas comemorativas existem, que tenho dificuldade em perceber (estou a ironizar).

Não me refiro ao 1º de Maio, data internacionalmente aceite pela sua enorme importância nas relações laborais em todo o mundo após a revolução industrial e as consequências que dele resultaram para a população trabalhadora. A isto, acrescerá, naturalmente, toda uma completa alteração do modus vivendi dos povos, principalmente, nas grandes urbes e as transformações sociais que desse dia 1 de Maio resultaram.

Efectivamente, o 1 de maio é o Dia do Trabalhador, data que tem origem a primeira manifestação de 500 mil trabalhadores nas ruas de Chicago, e numa greve geral em todos os Estados Unidos, em 1886
Ora, ao invés, reporto-me, antes, aos feriados religiosos que existem num Estado que consagra na sua norma fundamental a caracterização de um Estado laico.
Não tenho nada contra, respeito, mas faz-me confusão essa da Constituição dizer que somos um Estado laico. Conheço as respostas e argumentos, mas…

Mas, digo também, como também acho que não vem daí nenhum mal ao mundo e até dá para os ateus e agnósticos agradecerem tal dádiva (sempre são mais uns dias ou pontes para usar o cartão de crédito) não sou eu que me vou opor ou criticar.
Por fim e, antes de me pronunciar sobre aquilo que me magoa, sinceramente, seria uma falha grave deixar passar em claro o dia 10 de Junho, inicialmente, com a denominação de “Dia de Camões, de Portugal e da Raça” desde a implantação da República e durante todo o período do Estado Novo, para uma mais social, politicamente correcta e abrangente no que a nós respeita, que é ter-se passado a designar como o “Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades” o que se verificou a partir de 1978.
Na verdade é, sem dúvida, mais eloquente, elegante e significativo.

Simbolizamos o país, o nosso maior poeta e com ele a nossa língua espalhada pelos quatro cantos do mundo e, consequentemente, a diáspora lusitana e a lusofonia.

Ora, assim sendo, eis-me chegado ao ponto crítico que me impulsionou a escrever este texto.
Não sei se por deficiente ensino da História de Portugal nas nossas escolas, se por desinteresse ou motivos ocultos dos políticos, por modas ou, por ignorância, pura e simples, a verdade é que comemoramos tudo.
Na minha terra natal é feriado municipal o dia 28 de Junho por ter ascendido a cidade em 1984 numa altura em que foi dada uma grande abertura nacional à criação de “cidades”, cujas razões politicas e económicas da altura justificaram que tal tivesse acontecido.

Como não é o centro deste tema, não vou pronunciar-me, já que também poderia ter sido escolhido o dia 16 de Janeiro por ter sido concedido por D. Manuel I a carta de vila ou a elevação a Concelho em 1855.
São, como entendo, critérios e modas de cada época. Só me causa estranheza a Câmara do Barreiro comemorar “500 anos de História” e manter a relevância da elevação a cidade dando-lhe a dignidade de feriado municipal.
Uma diferença subtil; a comemoração dos 500 anos de História do Barreiro não dá direito a hastear a bandeira e fanfarra de bombeiros.

Bom, dizia eu, voltando de novo atrás e desta feita é de vez, para alertar de que ninguém fala – governantes, políticos, elites intelectuais, estudiosos e professores, comunicação social e figuras públicas – tudo a propósito da recente comemoração do dia 5 de Outubro, se não acham que tenha também interesse e, até, porque não, de maior dignidade, comemorar também o 5 de Outubro, mas este de 1143, data em que este país que é nosso e de que somos campeões do mundo e da europa em futebol e temos o melhor futebolista do mundo, foi fundado por aquele rapaz chamado Afonso Henriques que, mantendo em respeito o seu primo, Afonso VII, rei da Galiza, Leão e Castela, o obrigou a reconhecê-lo como Rei de Portugal e a aceitar expressamente a independência numa terra bem simpática, chamada Zamora.

Por isso estou zangado, por me ter recordado do facto. Pois bem. Existindo Portugal há 878 anos, fica, a sua fundação, esquecida e apenas perpetuada por uma inscrição numa muralha do castelo daquela linda cidade de Guimarães – AQUI NASCEU PORTUGAL –
Francamente, é pouco, muito pouco, muito poucochinho.
Deixo uma sugestão que, para mim, já me tranquiliza.

Quando comemorarem o próximo 5 de Outubro, chamem-lhe dia de Portugal e da República. Ficava bem, como o 10 de Junho.
Até lá, porque ele não tem internet nem redes sociais, vou pôr-me a caminho, a pé até ao Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, onde está o meu antepassado Afonso Henriques para lhe segredar ao ouvido, pedindo-lhe desculpa por o virem esquecendo desta forma tão triste e ingrata. Talvez seja por já estar fora de moda.
Por mim, desculpa, Afonso…

Emanuel Góis

07.10.2021 - 00:10

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