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O cheque em «Rosa» não é um cheque em branco
Por Luis Tavares Bravo
Barreiro

O cheque em «Rosa» não é um cheque em branco<br>
Por Luis Tavares Bravo<br>
Barreiro Os novos eleitos da nossa cidade tomaram posse na passada sexta-feira, e entrámos oficialmente num diferente ciclo da democracia local no Barreiro. Diferente desde logo, porque se trata da primeira maioria absoluta de um partido que não o Partido Comunista, e numa segunda vertente, pela vertiginosa dimensão da vitória do Partido Socialista que conseguiu eleger 7 dos 9 vereadores em disputa – o que inequivocamente representa um voto de confiança por parte dos munícipes de que Frederico Rosa será capaz de liderar uma transformação estrutural da cidade nos próximos anos.

É assim, uma espécie de cheque em “Rosa”, expressão que pode definir a relevância do que foi o mandato que saiu das eleições de 26 de Setembro. E é também democraticamente que esta vitória deve ser assinalada, respeitada por todos os que participam, uns mais outros menos, de forma ativa na nossa cidade. É esse, pelo menos, o meu entendimento, enquanto cidadão e democrata.

As maiorias absolutas podem representar uma grande oportunidade de transformação, sobretudo em situação de grande fragilidade estrutural, como é o caso do Barreiro. Passada a espuma eleitoral, e já com números dos censos relativos a 2021, haverá tempo para trazer ao palco de discussão os duros desafios que se apresentam pela frente. À cabeça existe uma séria crise estrutural demográfica. O Barreiro perde população todos os anos desde o princípio do século, sobretudo jovens na fase etária de formar família, e que optam por sair em vez de ficar. E isto acontece ao mesmo tempo que no resto dos municípios do distrito e da área metropolitana de Lisboa a população aumentou nas últimas décadas. Numa segunda frente, o Barreiro enfrenta também uma severa deterioração das condições de Emprego, Empresas e dos Rendimentos das famílias, ao que acresce a dificuldade no acesso à habitação, onde a renda média de um pequeno apartamento pode custar mais de metade de um vencimento médio dos Barreirenses. Por fim, é necessária uma estratégia séria de resolução dos problemas reais de segurança que estão patentes nos números oficiais produzidos no RASI (Relatório Anual de Segurança Interna) que colocam o município no topo dos municípios com maiores rácios de criminalidade do Distrito e da Área Metropolitana de Lisboa. As ocupações ilegais de propriedade são um desafio que vai além dos dogmas ideológicos e sociais, e importa revisitar e debater também a estratégia ligada a habitação social no município – valerá mesmo a pena discutir um projeto Braamcamp sem resolver o atual estado do Barreiro velho? E sem resolver o elefante na sala, que é o estado caótico da quinta da mina, na Cidade Sol?

O ponto de partida passa por assumir de frente os problemas estruturais do Barreiro, que estão amplamente identificados. O município precisa de se mobilizar e debater, mas acima disso precisa urgentemente de construir a sua estratégia para a próxima década. O Barreiro necessita de construir uma estrutura de missão de trabalho, que produza e implemente o seu relatório “Porter”, uma estrutura que olhe sobre a forma como podemos até 2030 inverter a erosão demográfica, e sair do “beco” geográfico em que nos encontramos atualmente. Uma estratégia que nos coloque no caminho de ser um município de grande dimensão, com elevada área de influência, fatores determinantes para trazer investidores de elevado compromisso (os que ficam décadas, e não apenas 5 a 10 anos) e criação de emprego qualificado, tornando a cidade mais atrativa para as famílias e sobretudo, para inverter o ciclo de erosão demográfica das gerações jovens.

O deputado municipal Victor Castro Nunes do PSD disse, naquela que foi para mim a mais lúcida intervenção de sexta feira, que as atuais condições politicas exigem uma grande responsabilidade política por parte do executivo socialista, que de facto pode escolher o caminho mais fácil e impor a sua agenda, ou pode optar por agregar, e escutar os eleitos, escutar as associações, ou até criar fóruns que tornem as decisões estratégicas para a próxima década mais robustas, e menos executivas. A perceção de que os eleitos de outras forças políticas estão ao serviço do Barreiro, mesmo quando apresentam críticas ao executivo, é importante para que a gestão de um mandato de maioria absoluta não altere aquela que é uma oportunidade de transformação, num perigoso exercício de ilusão de que este cheque “em Rosa” passado pelos Barreirenses, é um cheque em branco que liberta o executivo do diálogo. A responsabilidade do resultado exige sim que o poder saiba agora despartidarizar o passado, mobilizando politicamente o Barreiro para o futuro.

Luís Tavares Bravo

11.10.2021 - 00:41

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