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Conversas no Largo da Terra
Saúde Pública só com a população, nunca contra a população
Por Mário Durval
Barreiro

Conversas no Largo da Terra<br>
Saúde Pública só com a população, nunca contra a população<br>
Por Mário Durval<br>
Barreiro Passado mais de ano e meio de pandemia, começa a ser tempo de refletirmos sobre o que fomos vivendo, como enfrentámos os problemas e, em particular, quem teve alguma responsabilidade, mesmo que pequena, deve adotar uma posição autocrítica para que possamos, no conjunto, encontrar melhores respostas para situações semelhantes.

O comportamento das pessoas para com a COVID-19 tem mudado à medida que ao longo do tempo.são tomadas várias medidas restritivas. Em março de 2020 foi bonito ver a solidariedade, a partilha e por vezes a alegria com que as pessoas aderiram ao primeiro confinamento pois, apesar do medo induzido com as imagens mórbidas de Itália e Espanha, floresceu esperança, porque se sentiram como um só grupo a lutar contra o vírus. Esta força coletiva foi-se esvaindo e sendo substituída pela desconfiança, o cansaço e mesmo rejeição das medidas de restrição das liberdades. O fracasso da plataforma Stayaway Covid é o culminar do afastamento da população das propostas securitárias de combate à pandemia. Encontrar as causas para esta mudança de atitude é essencial para darmos robustez a futuras medidas de saúde pública em situação de crise.

A mensagem central que o poder político passou foi que as medidas de combate à pandemia eram apenas uma questão de mais ou menos liberdade. O erro no foco da comunicação só provocou indecisões e dúvidas e abriu espaço a toda a espécie de teorias da conspiração e fake news. O exemplo mais recente foi o erro de comunicação, que deu a entender a possibilidade de substituir a mascara pela vacina, quando esta previne principalmente as formas graves de doença enquanto a mascara é a mais eficiente forma de cortar a transmissão da COVID-19.

Porém, a Saúde Publica poderia ter feito um discurso coerente e permanente quanto à forma de transmissão e a criação de barreiras individuais e de melhores práticas nas instituições e nos grupos. No entanto, as prioridades foram outras e fomos dando espaço a todos que eram peritos de qualquer área da medicina e da saúde. Passámos meses a fio a divulgar números de mortes, doentes em UCI e infetados e nunca foram explícitas para o grande público as medidas que tinham de tomar em cada tipo de local para criar barreiras à transmissão. Ao fim de três meses já havia alguma consistência no conhecimento dos mecanismos de transmissão, predominantemente pessoa a pessoa e por via respiratória. No entanto, as medidas tomadas foram de modo a que inteligência emocional dos cidadãos percebeu coisas muito díspares e, um grande sector entendia a propagação do vírus como se fosse um miasma voando na atmosfera.

Não é por acaso que numa entrevista na TV uma senhora dizia: “deixa-me fechar a janela para o bicho não entrar”.
Confrontamo-nos ainda com a busca de protagonismo político, desde o nível planetário ao nível local que introduziu imenso ruído na comunicação e a restrição das liberdades como quase única solução para o problema. Não é por acaso que o relatório sobre o estado da democracia a nível global reflete o efeito do tempo da pandemia como um período de agravamento das liberdades democráticas. É como se para tratar uma infeção confinada à ponta de um dedo se optasse por amputar o braço. Resolvia-se a infeção mas o tratamento era desproporcionado e com custos secundários terríveis.

É sobre esta questão que temos de refletir também. Para os responsáveis políticos economia e saúde são duas coisas. Porém dum ponto de vista de saúde pública economia é também saúde, pois sabemos que a situação socioeconómica é o único fator de risco transversal a todos os problemas de saúde e a escala socioeconómica reproduz-se na produção de doença e morte.

Quando falamos da covid19 e das medidas para conter a sua transmissão temos de perceber que manter a população em stress permanente durante mais de um ano tem efeitos perenes na saúde mental e física devido ao excesso permanente de cortisol. Se a esta tensão acrescentarmos efeitos relativos à alteração da vida de relação pelo afastamento fisico e social, pela falta de afeto e até pela dificuldade de perceção das expressões faciais e da fala pelo uso da máscara, podemos antever problemas de saúde pública que uma abordagem unifocada da pandemia não podia antever. Compete à Saúde Pública a visão holística sobre os problemas e conglomerar todos os contributos para encontrar as respostas tendo em conta a necessidade absoluta do envolvimento e mobilização da população. A população é o eixo fundamental da intervenção em Saúde Pública pois é o alfa e o ómega de todo o processo, é o destino e o caminho, ou seja Saúde Pública só com a população e nunca contra a população.

Mário Durval
- médico de saúde pública

17.12.2021 - 22:54

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