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Psicologia – Notas Reflexivas
PSICOTERAPIA BREVE PSICODINÂMICA NA PESSOA IDOSA - PARTE I
(Notas introdutórias, conceito e origem da psicoterapia breve psicanalitica)
Por Rui Grilo
Barreiro

Psicologia – Notas Reflexivas<br />
PSICOTERAPIA BREVE PSICODINÂMICA NA PESSOA IDOSA - PARTE I <br />
(Notas introdutórias, conceito e origem da psicoterapia breve psicanalitica)<br />
Por Rui Grilo<br />
Barreiro A - Introdução

O conceito de psicoterapia para pessoas idosas é algo ainda muito vago e desconhecido na nossa sociedade actual.

Existe o preconceito e a ideia recorrente que a fase de construção, mudança e de investimento ao nível de projectos de vida, estará associada somente a uma fase que se situa entre o nascimento e a vida adulta.

A velhice é então considerada como uma fase de desinvestimento relacional e social, em que o idoso não expressa grandes ambições relativamente à sua vida, e em que as perdas são uma das características mais frequentes. Essas mesmas perdas, são evidenciadas do ponto de vista social (papeis relevantes na sociedade, entrada no período de reforma,…), familiar (morte de filhos, conjujes,…), fisico (dificuldades associadas à componente de locomoção e consequentemente na perda de autonomia e independencia, fragilidades cardíacas,…) e cognitivo (dificuldades intelectuais, memória, atenção, concentração,…).

Perante esta visão tão pessimista, não se percebem grandes vantagens em fazer psicoterapia ao idoso, não só porque esta seria considerada como uma perda de tempo (uma vez que não se observariam mudanças notórias ao nível da personalidade e comportamento), mas também pelo facto de o idoso poder não ter muito tempo de vida, ou seja, o investimento feito pelo psicoterapeuta não teria grande retorno.

Esta ideia é, em grande parte, responsável quer pelo facto de o idoso não procurar terapia (acomodando-se ao sofrimento e à angústia depressiva que sempre o acompanhou) como também pelo facto de o psicoterapeuta considerar que nada poderá trabalhar ou modificar no idoso, avaliando o seu trabalho como pouco objectivo e frustrante.

Outro aspecto que possivelmente determina a não adesão à psicoterapia tem a ver com o facto de a pessoa ter uma história de vida bastante longa, recheada de acontecimentos e vivências significativas, de verdades absolutas e de maneiras de agir e pensar muito próprias, que a leva não acreditar que o rumo que a sua vida seguiu possa ser alterado ou modificado.

Logo, iniciar uma psicoterapia será considerado no mínimo, algo constrangedor e desinvestido.

Neste artigo pretendemos mostrar a importância que a psicoterapia poderá ter junto da população idosa, centrando-nos principalmente na abordagem breve psicodinâmica, assente no modelo relacional com enfoque nas relações interpessoais.

Conceitos como mudança, motivação, aliança terapêutica, bem como aspectos relacionados com os obstáculos na adesão à terapia e as temáticas recorrentes no contexto psicoterapêutico com idosos, irão aqui ser abordados de uma forma simples e concisa, suportada por alguns modelos teóricos.

Em ultima instância, pretendemos sensibilizar o público em geral e os técnicos em particular, para a relevância da psicoterapia como uma especialidade da psicologia, que poderá ainda vir a desempenhar um papel preponderante na diminuição do sofrimento mental na pessoa idosa.

B - Psicoterapia breve psicodinâmica: Conceito e Origem

“Quando se fala em psicoterapia breve, imediatamente vem à tona a questão do tempo, uma vez que o breve, aqui, é definido em comparação a um trabalho considerado longo, no caso a psicanálise” (Oliveira, 1999, p.9).

Contudo, não será apenas o tempo que diferencia estes dois tipos de intervenção, na medida em que a psicoterapia breve psicodinâmica terá objectivos limitados, que são estabelecidos a partir da compreensão do paciente, e em que é delimitado um foco a trabalhar que pretende ser alcançado num espaço de tempo limitado.

A psicoterapia breve psicodinâmica, deriva inicialmente das ideias de Freud, surgiu perante a preocupação constante de alguns psicanalistas em reduzir o sofrimento dos seus pacientes.

Em 1904, Freud (citado por Éneas, 1999, p.19)constatou que existiam “… muitos meios e modos de praticar a psicoterapia. Todos os que levam à recuperação são válidos…”.

Assim sendo, naquela época Ferenczi e Rank seguiram os passos de Freud na busca da diminuição do sofrimento dos pacientes através de descobertas feitas pela psicanálise, mas tentando adoptar metodologias e tratamentos mais breves e assentes nas características pessoais dos pacientes.

Mais tarde, em 1946, Alexander e French apresentaram algumas propostas inovadoras relativas a técnicas psicoterapêuticas mais breves no tempo, mas focadas em objectivos bastante ambiciosos, na medida que pretendiam a resolução do conflito nuclear.

A partir deste momento, começou a ocorrer uma expansão desta abordagem para outros países, como a Noruega (com Heiberg, em 1975), a Argentina (com Kessekman, em 1970, e Fiorini, em 1973) e o Brasil (com Knobel, em 1986).

Assim, começou a dar-se mais importância à participação do psicoterapeuta no processo terapêutico e à capacidade do paciente em estabelecer uma aliança terapêutica, e não tanto aos critérios de indicação que tinham subjacentes os conflitos nucleares de pacientes neuróticos.

Esta abordagem permitiu atender qualquer pessoa que demonstrasse conseguir estabelecer uma boa relação em contexto terapêutico, tentando-se perceber e solucionar os aspectos da sua problemática.

Uma psicoterapia que tenha uma “…curta duração não será necessariamente breve, a menos que circunscreva o problema a ser trabalhado, visando à obtenção de um objectivo específico e que empregue os recursos técnicos e a duração temporal de forma articulada…” (Éneas, 1999, p.20).

Coimbra de Matos (2002, p.20X) refere que a psicoterapia psicanalítica terá como consequências da sua aplicação na pessoa “…uma melhor percepção de si próprio e da sua situação interior (insight), uma compreensão (reconstrução) da sua história, e a conquista de uma experiência relacional diferente, através do qual pode retomar o desenvolvimento que ficou suspenso”.

Desta forma, qualquer indivíduo que demonstre competências para lidar com conceitos abstractos, capacidade de introspecção e reflexão, desejo em alterar significativamente aspectos relativos à sua vida, terá com certeza as condições exigidas para poder submeter-se a uma psicoterapia breve psicodinâmica.

Um bem haja.
Rui Grilo

15.01.2022 - 10:06

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