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25 de Abril, sempre
Por André Carmo
Barreiro

25 de Abril, sempre<br />
Por André Carmo <br />
Barreiro Num futuro não muito longínquo, a memória do dia 25 de Abril de 1974, a memória do “dia inicial inteiro e limpo”, poderá não passar de um distante e imperceptível murmúrio. A cada ano que avançamos rumo ao futuro, o passado que hoje recordamos e celebramos corre o risco de se desvanecer.

Mas isso só acontecerá se o povo que hoje somos permitir que isso aconteça, qual sonâmbulo que caminha rumo ao precipício.

Se o povo que hoje somos esquecer que o 25 de Abril de 1974 lançou as bases para uma sociedade nova, de liberdade e igualdade. Uma sociedade livre do tenebroso pesadelo do fascismo, da ditadura e da censura.

Se o povo que hoje somos esquecer que a Revolução de Abril e os seus Valores, mais do que memória a celebrar, são um farol que nos ajuda a pensar e a construir uma sociedade melhor, mais justa e mais fraterna.

É, pois, momento de olhar o futuro. De revisitar as promessas não cumpridas de Abril e de lutar para que estas possam efectivamente tornar-se realidade. Para que a gente comum que vive do seu trabalho e com ele faz deste país aquilo que ele é, possa voltar a ter esperança num futuro melhor para si, para os seus filhos e para os seus netos.

Democratizar. Foi este o primeiro desígnio de Abril e aprendemos com Saramago que, efectivamente, “é o cidadão que muda as coisas”. Mas a erosão democrática da sociedade portuguesa é uma das suas tendências mais preocupantes: seja porque o sistemático incumprimento de compromissos assumidos e da palavra dada conduz ao descrédito nas instituições e nos representantes eleitos pelo povo, seja porque o grau de sofisticação da manipulação cognitiva a que estamos sujeitos num mundo ultra-digitalizado nos torna a todos mais susceptíveis de sermos enganados sem nos darmos conta, seja, enfim, porque, num quadro de triunfo avassalador do capitalismo neoliberal ao longo do último meio século, cada um de nós se tornou, acima de tudo, um potencial consumidor e não um cidadão esclarecido e interveniente. E este é o passo que importa dar. Se acreditamos, como Saramago, que “é o cidadão que muda as coisas”, compete a cada um de nós, no quadro das suas possibilidades, em cada espaço e em cada tempo onde a vida acontece, não virar a cara à luta e constituir-se enquanto sujeito político actuante, defendendo aquilo em que acredita. Nunca sozinho, sempre em colectivo. Juntos. Sempre. Num tempo em que a social-democracia realmente existente há muito vendeu a alma ao fundamentalismo de mercado e a extrema-direita emerge com renovado fulgor, compete às esquerdas que verdadeiramente importam e à gente comum que sonha com uma vida digna para si e para os seus encontrar soluções e construir caminhos novos. Caminhos que não podem prescindir de um poder local democrático com autonomia, meios técnicos e financeiros para cumprir as suas inúmeras missões de forma adequada. O Estado não pode aqui desresponsabilizar-se e apenas atirar problemas para cima das autarquias. O poder local democrático merece mais e melhor.

Descolonizar. Terá sido este o segundo desígnio de Abril. Também aqui, muito ficou por cumprir. Se é certo que todas as ex-colónias são hoje Estados independentes, Portugal precisa de se confrontar com os fantasmas de um Império que foi seguramente expressão de audácia, mas foi também de pilhagem, de saque e de destruição. Enquanto não o fizer, continuaremos, como diria Eduardo Lourenço, perdidos no “Labirinto da Saudade”, continuaremos a reproduzir uma visão mitificada do nosso próprio passado, continuaremos a não ser capazes de ultrapassar mundividências e quotidianos caracterizados, senão mesmo determinados, pela discriminação e pela xenofobia, pelo racismo e pela violência. A violência que torna invisível cada uma das mulheres que, ainda de madrugada, sai das periferias metropolitanas para limpar o chão e as sanitas, esfregar as janelas e varrer os tapetes dos escritórios, das universidades, das empresas e dos bancos. A violência que torna cada jovem negro ou de etnia cigana uma ameaça, levando à sua alienação e à instalação da desesperança. A violência que transforma cada imigrante brasileira num objecto sexual a quem se obstaculiza o acesso a direitos fundamentais como a habitação e o trabalho. A violência que produz escravos nas estufas do Alentejo ou que leva ao assassinato de imigrantes às mãos do Estado. Só a confrontação com o racismo estrutural que permanentemente negamos poderá revelar a sua existência, invisibilizado que foi por séculos de naturalização. É preciso, pois, para cumprir Abril, prosseguir e aprofundar o caminho da descolonização das mentalidades, das instituições e das atitudes sociais, afirmar o respeito pelas diferenças e a valorização da diversidade.

Desenvolver. Foi este o terceiro desígnio de Abril. E também aqui muito ficou por cumprir pois não há – não poderá nunca haver – desenvolvimento sem a dignificação de quem trabalha. É pelo trabalho que nos definimos enquanto sujeitos e integramos o tecido social que ajudamos a tecer. Mas Portugal é hoje uma das sociedades mais desiguais do mundo desenvolvido, um terreno fértil para o avanço da precariedade laboral, do trabalho sem direitos, intermitente e episódico, das vidas adiadas e dos baixos salários, onde a saúde mental dos trabalhadores e das trabalhadoras se degrada de dia para dia. A sensação de ansiedade, o cansaço e a exaustão, o esgotamento e a depressão são-nos, infelizmente, demasiado familiares. A existência de pessoas que, mesmo trabalhando, não conseguem sair de uma situação de pobreza é algo que nos deve envergonhar a todos, ao mesmo tempo que é cada vez mais difícil compreender porque é que, mais de 100 anos depois de se ter instituído em Portugal a jornada de trabalho diária de 8h, e numa economia infinitamente mais produtiva como é a atual, tanta gente continua a prolongar a jornada de trabalho muito para além de um limite que é, ele próprio, um anacronismo. Importa pois perguntar que desenvolvimento é este que impede tanta gente de viver com dignidade e bem-estar? Que desenvolvimento é este, que continua a permitir que os Vampiros cantados por Zeca continuem a sugar as energias de uma sociedade que tem todas as condições para proporcionar uma vida digna e de bem-estar a todas as pessoas mas que teima em não o fazer? Que desenvolvimento é, enfim, este, que nos fez desistir do sonho e da utopia, nos aprisiona na ideologia do “fim da história” e nos faz crer que o futuro não poderá nunca passar da eterna repetição do presente?

48 anos depois da Revolução de Abril, em que o povo saiu à rua, é preciso voltar a ela. Se, para a gente comum que fez Abril, Portugal é hoje um lugar melhor do que antes, por tudo aquilo que falta cumprir, Abril não pode morrer. É nossa responsabilidade histórica para com as gerações vindouras assumir que o espírito de 74 permanecerá vivo e que, tal como escreveu Ary, “ninguém mais cerra as portas que Abril abriu!”.

25 de Abril, sempre. Fascismo nunca mais.

André Carmo
Deputado Municipal eleito pela CDU Barreiro

24.04.2022 - 00:49

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