Conta Loios

opinião

EUROPA
Por João Pedro Soares
Barreiro

EUROPA<br />
Por João Pedro Soares<br />
Barreiro Esta dissertação tem como objectivo essencial remexer nas nossas visões, muitas vezes parametrizadas, balizadas e banalizadas por uma teia de actores principais que pretendem que os povos se mantenham eternamente como sorvedouros de informação completamente inquinada.

Mais do que nunca, no estado a que o panorama mundial está a chegar, é estritamente necessário, não só estarmos atentos, como também sabermos ler as informações tantas vezes difusas, mas sobretudo termos a capacidade de dialogar, ouvir o outro e colocar questões e opiniões, muitas vezes novas em relação à padronização que é corrente e recorrente …
Será que todos nós, que vivemos o nosso quotidiano ainda em paz, a corrermos de casa para o emprego e vice-versa, a não termos tempo, nem muitas vezes paciência, para tomarmos atenção, consciência e posição acerca das questões actuais que parecem estar tão longe e tão perto, não deveríamos estar muito mais disponíveis para disponibilizar os nossos recursos de concentração sobre os desenvolvimentos da cena política internacional?

Durante muitos anos, fui dizendo em privado e em público que o excesso de Liberalismo, levar-nos-ia aos Nacionalismos do Sec. XX, que jamais pretendíamos ressuscitar. Infelizmente, o desenvolvimento político e económico da União Europeia, a partir de Maastricht foi totalmente nesse sentido, ou seja, uma construção rápida, de índole completamente virada para os aspectos mercantis, de elites económicas que passaram a subjugar a maioria das populações, que para além de sentirem frustradas as suas expectativas, percebiam que as transformações estavam nos antípodas daquela Europa dos passos pequenos e seguros. Sem nunca conseguir ter controlo numa PESC (Política Externa e de Segurança Comum), a União Europeia, quis tudo e ao mesmo tempo … moeda única, coesão, alargamento a leste, numa velocidade tão estonteante para veículo com pneus tão diferentes …
Questionem-me …

Mas qual a relação de todas estas questões com a Guerra na Ucrânia?
Quando se estuda um qualquer momento histórico, o período entre 10 a 20 anos é um período curto e da minha parte considero que as causas deste conflito, de consequências ainda tão imprevisíveis, são várias e estão mais atrás do que possa parecer, daí ter levantado as questões acerca da União Europeia, assim como posso e devo levantar o crescimento desregrado do comércio mundial, do liberalismo total e da Globalização Económica Internacional a partir dos Acordos de Marraquexe, em 1993, que proporcionaram a total integração da China na Organização Mundial do Comércio em 2001.
Desta forma, como referi atrás, a Europa, por razões sempre do foro económico/capitalista, transferiu a maioria da sua capacidade produtiva para os destinos onde a mão de obra era mais barata, Ásia e Leste da Europa, com a China a conseguir ganhar uma ascensão meteórica no plano internacional.

Caros leitores, pois é ... Nesta altura, continuarão a perguntar ... O que é que tudo isto tem ver com este grave conflito?
A Alemanha, foi a principal percursora e defensora europeia da evolução que temos, naturalmente com os devidos afastamentos do Reino Unido, que acabou em BREXIT e numa França que, felizmente, continua a ser o "Fiel da Balança" dos equilibrios na Europa, mas que tal sucesso está colocado em causa a partr do momento em que os Alemães abraçaram de tal forma o Leste da Europa, que foi necessário chegar um Putin, para que pé ante pé, pudesse ir reagindo ao crescente dominio Alemão.
Onde é que já ouvimos tais coisas? Faz-nos precisamente lembrar coisas horrendas do passado! Milhões e milhões de mortes, com a assinatura das mais variadas ditaduras do século XX!

Na minha opinião, em tudo isto, como aliás, já havia dito tantas vezes, a União Europeia, claudicou. Nem sequer temos capacidade para nos defendermos de forma coordenada, sem uma NATO/OTAN, que ainda nem sequer integra todos os países da União Europeia, como é do dominio público. Ao longo dos últimos vinte anos anos, a ascenção da Extrema Direita tem sido uma realidade atroz, por responsabilidade iminentemente das Democracias Europeias, que não lhe atribuiram a devida importância no inicio do seu percurso, tendo chegado ao cúmulo na disputa de uma segunda volta nas Presidenciais Francesas.

De forma inteligente e oportunista, a extrema direita tem vindo a degradar e a corroer o ambiente por dentro da União Europeia. Aproveitou o mote dado pela crise financeira internacional, passando pela pandemia, pelo BREXIT, para perceber que esta é altura chave no ataque à DEMOCRACIA. E agora questiono, quem poderá ter interesse em colocar a União Europeia de joelhos? Será que os negócios mais obscuros do capitalismo global são compatíveis com DEMOCRACIA? Quem poderá ter tão grandes interesses na capitulação da União Europeia, como grande bloco politico-económico? E o reinado de Donald Trump nos Estados Unidos? Quais as suas relações com Vladimir Putin? Com que objectivos? Creio, serem perguntas fundamentais para rebuscarmos sobre elas ...
Por tudo, depois de uma crise financeira internacional, que fez muita mossa na saúde económica Europeia, de uma Pandemia, que, ao que parece, toda gente ainda desconhece a sua origem e um BREXIT, a Europa está largamente fragilizada e por coincidência ... é precisamente nesta altura, depois de ter anexado a Crimeia, em 2014, que Vladimir Putin resolve atacar a Ucrânia. Primeiro, com a ideia de ir até Kiev, fazendo posteriormente um recuo estratégico num outro sentido, não sendo forçosamente menos gravoso.
Depois de ter invocado as causas mais distantes desta guerra, centrar-me-ei, nas mais próximas e este conflito para além de prosseguir a estratégia Putin/Trump e quiçá Nethanyahu/Mossad de claro ataque à DEMOCRACIA, é claramente uma guerra de índole Geopolítica, em que a Rússia tenta colocar vastos meios para se ir reposicionando no Leste da Europa, reeditando a velha e ancestral rivalidade com a Alemanha por estes territórios. O que na actualidade, os Alemães conquistaram pela via económica, vão querer os Russos pela via Militar. E isto, caros leitores, será o maior quebra-cabeças deste confilto, uma vez que o "Senhor da Guerra" Russo não vai parar até que as suas condições sejam consideradas e essas não são mais, nem menos do que aquilo que outrora foi considerado como "Lebensraum" ou Espaço Vital, precisamente idealizado pelo lado contrário.

Como sabemos, a política externa é uma teia tão obscura, cheia de labirintos e esconderijos que nos levam aos mais vastos raciocínios .. No entanto, parece-me claramente que Vladimir Putin, está ainda a seguir uma lógica de clara "Real Politik", mais concretamente, o recuo na questão Kiev e o ataque ao Sul da Ucrânia encerra uma lógica calculista de estrangulamento total da Ucrânia em relação á saída para os mares quentes. Além disso, se olharmos e estivermos bem concentrados no Mapa da região, iremos verificar que a ideia é fechar o anel sul, com a probabilidade muito alta, num futuro, quiçá bem próximo, de uma anexação da Moldávia, até porque Putin já está a tocar num conflito congelado há muito, na Transnístria, oficilamente região pertencente á República da Moldávia, mas que se julga independente, em função das ajudas Russas e Cossacas.

Mais uma vez, atentando no Mapa, direi, se no decorrer deste processo bélico, Putin, fechar primeiro o anel sul da Ucrânia e seguir com sucesso para a Moldávia, aí sim, poderemos estar a caminho de um conflito de cariz global, uma terceira guerra mundial. Até porque, mais uma vez, se traçarmos um paralelo no mapa, verificaremos de que a norte apenas faltarão os três países Bálticos (Estónia, Letónia e Lituânia), que já estiveram sob alçada Russa e Soviética e que hoje são membros da NATO.
Tal como nos lembraremos da Cimeira de Munique de 1938, em que Neville Chamberlain, Primeiro-Ministro Inglês, foi aplaudido pelo acordo com Hitler e Mussolini, a NATO e os Estados Unidos, com todos os cuidados que, supostamente, têm tido para não alargar o conflito, será que cuidaram devidamente do plano de disuassão para que esta guerra não tivesse o seu inicio, para que a Ucrânia não fosse violada e invadida pelos planos expansionistas e Imperais da Rússia?
Mais uma vez, na história da Europa, estamos perante uma enorme encruzilhada ...

Será que o Nuclear ainda tem a capacidade dissuasora de outrora? No dia em que possa vir a estar encurralado pelos acontecimentos, será que Vladimir Putin se manterá em "Real Politik"? Com as várias ascenções da Extrema Direita, juntamente com quem não pretende a Europa como actor forte no Sistema Internacional, como procederá esta à defesa dos seus valores? A União Europeia, estará já fatalmente ferida, em função dos desenvolvimentos erróneos pós-Maastricht, que tantas e tantas brechas abriram no seu sistema?

Com toda a certeza, a maioria destas questões irão sendo respondidas nos tempos mais próximos, esperando sempre que os ensinamentos retirados do Século XX possam ser fundamentais para que os decisores tenham consciência do que está, de facto, em causa ... a sobrevivência do planeta terra e da vida humana. E esse é precisamente o grito que deixo ...
Tenham consciência!

João Pedro Soares
Professor
Licenciado em Relações Internacionais

03.05.2022 - 19:08

Imprimir   imprimir

PUB.

Pesquisar outras notícias no Google

Design: Rostos Design

Fotografia e Textos: Jornal Rostos.

Copyright © 2002-2022 Todos os direitos reservados.