opinião

A REALIDADE SEGUE DENTRO DE MOMENTOS
Por Pedro M. Pereira
Barreiro

A REALIDADE SEGUE DENTRO DE MOMENTOS<br />
Por Pedro M. Pereira<br />
Barreiro<br />
As imagens da crise política à portuguesa, mais as guerras da Ucrânia/Rússia e de Israel/Palestina-Hamas, permanentemente difundidas nas têvês e em outros meios de comunicação social espelham uma realidade modelada de acordo com os seus emissores, de forma a «agarrar» audiências.

Como o medo suscita o terror, a «indústria» da comunicação aproveita - com proveito - essa propaganda gratuita, convertendo-a em espetáculo de massas e objeto de consumo.
Desta forma, já não é necessário que os fins justifiquem os meios.

De ora avante, os meios de comunicação justificam os fins de um sistema de poder que impõe os seus valores à escala planetária.
Os meios de comunicação social dominantes são detidos por poucas mãos, que, regra geral, atuam ao serviço de um sistema que reduz as relações humanas à interdependência e ao medo mútuo.

Porém, ao mesmo tempo, nas últimas décadas, a Internet abriu imprevistas oportunidades de modos e formas de informação, opinião e expressão alternativos assumindo-se como um novo espaço de liberdade de comunicação, mas também de comércio
No planeta virtual não se corre o perigo de encontrar alfândegas nem governos opressores. Por sua vez, a informação é recolhida, selecionada e consultada de acordo com o livre arbítrio do internauta.

A cibercomunidade encontra refúgio contra a realidade que a cerca, na realidade virtual através das redes sociais, enquanto as cidades tendem a converter-se em imensos desertos onde cada indivíduo se encerra dentro da sua própria «cápsula», graças a essa que é a «indústria» mais dinâmica da economia mundial, a qual vende as chaves que abrem as portas à Nova Era da História da Humanidade.
Atente-se, no entanto, que o acesso a esta autoestrada da informação é um «privilégio» exclusivo dos países desenvolvidos, onde se encontram noventa e cinco por cento dos usuários.

Nos tempos que correm ainda há quem afirme que diversidade tecnológica equivale a diversidade democrática. Não obstante, as estruturas do poder estão cada vez mais internacionalizadas, pelo que, resulta difícil distinguir as suas fronteiras.
Neste contexto, é oportuno referir que os Estados Unidos ocupam o centro do sistema nervoso da comunidade de informação contemporânea, enquanto a Microsoft e a Apple são os maiores gigantes mundiais dos sistemas operativos e da programação informática.
Por outro lado, dois em cada três seres humanos vivem no chamado Terceiro Mundo. Em contrapartida, dois de cada três corresponsáveis pelas agências noticiosas mais importantes a nível planetário, fazem o seu trabalho na Europa e nos Estados Unidos. Resulta assim, que a maioria das notícias que o mundo recebe, é produzida pelos meios de informação de uma minoria da Humanidade.

Desta forma, assistimos a um monólogo por parte do Norte do Mundo. As demais regiões recebem pouca ou nenhuma atenção.
Enquanto isto, a cultura encontra-se reduzida ao entretenimento e o entretenimento convertido num esplendoroso negócio universal; a vida está reduzida ao espetáculo e o espetáculo em fonte de poder económico, político e de controlo de massas. A informação, reduzida a publicidade ou propaganda encapotada.

Em suma: podemos considerar que os grandes meios de comunicação social nem sempre refletem a realidade, antes o modelam, na certeza de que o mundo foi invadido por uma mistela mortal de soporíferos e publicidade onde a televisão desempenha o papel principal.
Trabalhar, dormir e ver televisão são as três atividades que mais tempo ocupam o homem no chamado «mundo civilizado». Os políticos sabem-no bem.
Em todos os países os mesmos temem ser castigados ou excluídos pela televisão. Nenhum deles gosta de ser visto como um vilão, pese embora o possa ser. Os políticos têm pânico que a televisão os ignore condenando-os à morte cívica, dentro do princípio de que quem não aparece na televisão, não está no mundo real. Por outro lado, os políticos não ignoram o desprestígio das suas «profissões» e o poder mágico da sedução que a televisão exerce sobre as pessoas.

Para se estar presente no cenário político, há que aparecer com regularidade nas televisões e essa continuidade não costuma ser gratuita. Assim, os empresários dos meios audiovisuais dão imagem aos políticos e os políticos retribuem o favor concedendo-lhes impunidade, porque lhes entregam serviços públicos.
Mas também o entretenimento é modelado. Por exemplo: as telenovelas de êxito são, em geral, o único lugar do mundo onde os corruptos, os assassinos, os facínoras são castigados e a bondade recompensada, mas também onde os cegos recuperam a vista e os pobres recebem heranças que os convertem em novos-ricos, criando assim, espaços ilusórios onde as contradições sociais se dissolvem em lágrimas de felicidade.
A verdade é que este género de mensagens é captado com facilidade pela maioria dos indivíduos, que são pobres, mas que adoram a ilusão do luxo.

Qualquer pobre, por paupérrimo que seja, pode, vendo as telenovelas, penetrar nos cenários sumptuosos onde decorrem as cenas, compartilhando, assim, os prazeres dos ricos, as suas desventuras, mas também as suas alegrias.
Na televisão criam-se espaços onde a fé religiosa promete a entrada no Paraíso depois da vida e a comunicação com os entes queridos falecidos é feita por supostos médiuns com auditórios repletos de gente crédula, enquanto os big brothers satisfazem o voyeurismo voraz das hordas de marginalizados da partilha das decisões políticas que lhes traçam o destino, alienando-se dessa forma o indivíduo da impotência que lhe subjaz, projetando no outro o estar e o devir do querer e não ser.
Constatando-se assim, que a realidade dos personagens substitui a realidade das pessoas.

Em conclusão: - Os meios de difusão audiovisual assumem, hoje, na voragem dos dias de convulsão social, económica e política que correm, o catalisador e modelador das mentes das massas, com especial destaque para a televisão.
Por seu turno, em contraponto, a Internet desempenha um papel charneira fundamental, como espaço de liberdade individual.
Nela é colocada à disposição do internauta uma infinidade de informação, permitindo que o indivíduo a selecione livremente a compare e forme opinião sobre os assuntos consultados, dispondo em simultâneo de um infinito leque de matérias e temas de lazer e reflexão.

Enquanto isso, as cidades, as grandes metrópoles, estão-se desertificando como espaços de vivências reais, em detrimento da realidade virtual onde não existe sede nem fome, nem dores ou angústias.
A realidade segue dentro de momentos.

Pedro M. Pereira

21.11.2023 - 16:58

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