opinião

A (in)decisão dos debates
Por João Naia da Silva
Barreiro

A (in)decisão dos debates<br />
Por João Naia da Silva<br />
Barreiro Estamos este ano, 2024, a celebrar os 50 anos da implantação de um Portugal livre, justo e acima de tudo, democrático. Desde abril de 1974 que se começou a percorrer um caminho muitas vezes penoso, mas que conseguiu de certa forma, melhor ou pior, alcançar muitos dos seus objetivos quer ao nível económico, demográfico ou social.

É importante lembrarmo-nos que em 1974 eramos dos países mais atrasados da europa, e hoje, apesar de não sermos de forma alguma um dos seus vanguardistas, igualámos e alcançámos em 50 anos aquilo que em muitos casos nunca foi sequer ambicionado desde o início do século XX.

Este ano, e curiosamente 50 anos depois da abertura das portas para as primeiras eleições livres, o país vê-se novamente na necessidade de ir a eleições. E ainda bem, pois mau seria se, como noutros tempos, houvesse essa necessidade e não o pudéssemos fazer. Desde meados de janeiro deste ano que se iniciaram as campanhas eleitorais, primeiro mais subtis e depois mais intensas, tendo estas duas últimas semanas sido, na minha opinião, o fervoroso culminar de uma das fases da atividade e campanha eleitoral dos diferentes partidos inscritos na nossa democracia. Por outro lado, acredito que a população está hoje, por sua vez, tão ou mais confusa do que em janeiro, ou dezembro, ou do que no dia em que os jornais noticiavam em última hora a “queda” do último governo. E esta indecisão da população deve-se a uma conjuntura de fatores, cada um deles com os seus responsáveis, e uns com maior peso nessa indecisão do que outros.

Um dos fatores para esta confusão, que de há umas semanas para cá foi tomado como principal culpado, é já famosa questão do (reduzido) tempo dos debates televisivos. De facto, uma média de 20 minutos no registo em que os nossos debates têm decorrido, é pouco. E é pouco principalmente porque durante esses 20 minutos, cada um dos candidatos perde-se em acusações, críticas e outros assuntos, e nalguns casos mais intensos, torna os 20 minutos em totais peixeiradas em direto. Claro que as televisões regozijam-se completamente e aproveitam esta parte, quanto mais escandaloso e mediático, melhor para as audiências. Acredito que atualmente, com a acessibilidade a outros meios de comunicação social como redes sociais ou jornais online, onde aliás muitos dos partidos já fazem uma considerável parte da sua campanha eleitoral, os debates televisivos com 20 minutos seriam mais do que suficiente se de facto os partidos e candidatos se restringissem puramente ao debate, ou até mesmo a apresentações do modelo “eu farei isto” e “eu farei isto”. Por sua vez, tornando-os nas arenas de combate verbal e trocas de acusações que têm sido, muitos deles a fazer lembrar certos reality shows dos anos 90, faz com que se perca tempo e no final de tudo bem exprimido, as pessoas continuem com as mesmas dúvidas, quando não ficam até com mais. Em nota de rodapé, lembro-me há uns dias de ter lido por aí alguém que condenava a duração dos debates de agora, 20 minutos, e os comparava com os primeiros debates pós 25 de abril, cuja duração eram 4 horas. E eu pergunto, quantos de nós teria hoje disponibilidade, dedicação e “estofo” para assistir a um debate de 4 horas?

Depois, por outro lado, e em contradição do que deveria ser um estado democrata e igualitário, acho que a luta individual dos partidos é extremamente desigual. A discrepância mediática dada a cada partido é absolutamente abominável, e a meu ver, verdadeiramente escandalosa em contexto de “democracia” em que todos tem direito a ter a mesma oportunidade de voz. Para mim é absolutamente condenável que, e falando apenas em partidos com assento parlamentar, todos tenham direito a debates de 20 minutos com transmissão num canal televisivo, e depois haja um debate com apenas dois desses partidos, num teatro na capital, com uma duração superior a 40 minutos e com transmissão simultânea nos 3 canais generalistas. Esta discrepância faz-me pensar que as televisões estão a dar maior primazia a uns do que a outros. Aquele que continua inevitavelmente a ser um dos maiores meios de comunicação social do nosso país, dá maior tempo de antena a dois partidos, do que para os restantes. Na prática, estes dois partidos conseguem chegar a mais gente do que os restantes, quer pelo tempo de antena que recebem, quer pelo alcance de audiências resultante da transmissão da sua imagem nos 3 maiores canais em simultâneo. Isto é tudo menos democrático. É o oposto da igualdade e considero que possa ter como principal consequência o enviesamento dos resultados eleitorais. E reitero, não estou sequer a falar de outros partidos sem assento parlamentar, muitos deles com peso fulcral na construção do país nos últimos 50 anos.

Em suma, acredito que um dos principais motivos, hoje em dia, da existência de debates eleitorais se prende não na necessidade de clarear posições partidárias e esclarecer dúvidas da população, mas sim no mediatismo e na guerra de audiências entre canais televisivos. Por consequência, temos debates cuja utilidade fica verdadeiramente aquém das necessidades dos eleitores, que é a de esclarecimento. Por outro lado, os canais televisivos têm hoje, ainda, um enorme peso em todo o processo eleitoral, principalmente na divulgação partidária. Por mais “neutros” e “apartidários” que se possam considerar, a verdade é que não o demonstram com estas posições. São dos maiores meios de propagação da democracia, mas têm, obviamente, de o saber fazer!

João Naia da Silva

22.02.2024 - 12:54

Imprimir   imprimir

PUB.

Pesquisar outras notícias no Google

Design: Rostos Design

Fotografia e Textos: Jornal Rostos.

Copyright © 2002-2024 Todos os direitos reservados.