opinião

Um Adeus Incompreendido
Por Ivo Pereira
Barreiro

Um Adeus Incompreendido<br />
Por Ivo Pereira<br />
Barreiro Quando um ente querido morre, existe por norma, compreensão. Existe algum nível de empatia.
Às vezes, essa empatia, compreensão e até compaixão, se estendem ao falecimento de um ente não assim tão querido: "Sei que não te davas nada bem com esse teu familiar mas ainda assim, entendo que estejas a passar por um momento muito difícil".

O luto é um processo natural, necessário até, para nos permitirmos adaptar à vida após aquela perda.

Passamos por isso, vemos outros a passar por isso. Culturalmente conhecemos este processo.

Mas então, porque é que nos é por vezes tão difícil, aceitar que a perda de um animal de estimação possa ter um impacto tão grande (ou por vezes bastante superior) ao da perda de um familiar próximo?

A incompreensão sobre este tema, pode causar um prejuízo enorme na pessoa que o vivencia, como se não tivesse direito a passar pelo luto. Como se fazer um luto pela perda de um animal fosse algo exagerado, desnecessário ou até disparatado.

Nada mais contrário.

O espaço de convivência torna-se mais vazio, silencioso e até frio sem aquela presença.
Com a morte de um animal de estimação, perde-se não só a figura de vínculo, como também as rotinas diárias associadas. Quando falamos por exemplo de um cão, a rotina de o levar a passear, a fazer as necessidades, pode servir também por si como um apoio à interação social.

A incompreensão e falta de empatia em contexto social, provoca frequentemente, na pessoa que vive o luto, uma vergonha até. Faz-se um luto às escondidas, tentando-se camuflar a tristeza e aguardando até chegar a casa, àquele espaço que outrora tinha uma outra vida, para em solidão mas também segurança, dar espaço ao seu processo de despedida.

Há coisas que ajudam. Um álbum de fotografias. Uma tela a simular uma pintura do animal querido, guardar e usar no colo a manta em que ele se aninhava... Guardar e acarinhar a memória de quem nos deu felicidade, conforto e aconchego. E o tempo... O tempo ajuda. Não cura mas ajuda.

Se tentarmos imaginar alguém que tenha crescido com pais emocionalmente distantes ou ausentes, que nunca deram suporte aos filhos, que nunca deram uma palavra de amor ou tiveram um gesto de carinho, diria que nos é fácil entender que a partida de um animal de estimação que durante anos recebeu o dono, feliz, quando este entrava na casa ou que se sentava ao seu colo quando o sentia mais triste, é bastante mais dolorosa que a perda de um familiar.
Não custa assim tanto, tentarmo-nos colocar no lugar do outro.

Pela sua saúde mental.

Ivo Pereira
Psicólogo Clínico

01.05.2024 - 17:41

Imprimir   imprimir

PUB.

Pesquisar outras notícias no Google

Design: Rostos Design

Fotografia e Textos: Jornal Rostos.

Copyright © 2002-2024 Todos os direitos reservados.