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Mês do Coração: Prevenção do Risco Cardiovascular, Hipertensão
Arterial e Obesidade Pediátrica
Por Vera Silva e Sérgio Matoso Laranjo
Barreiro

Mês do Coração: Prevenção do Risco Cardiovascular, Hipertensão<br />
Arterial e Obesidade Pediátrica<br />
Por Vera Silva e Sérgio Matoso Laranjo<br />
Barreiro Mês do Coração, apesar de já ter passado, uma oportunidade para refletirmos sobre a saúde cardiovascular e sua importância desde o nascimento. As doenças cardiovasculares, incluindo a hipertensão arterial e a obesidade pediátrica, são preocupações crescentes que merecem a nossa atenção.
Este artigo visa informar o público sobre estes desafios da saúde, suas causas, sinais de alerta e estratégias de prevenção.

A hipertensão arterial, ou tensão alta, é a pressão elevada do sangue nas artérias. Embora tradicionalmente associada a adultos, a
hipertensão tem-se tornado comum entre crianças e adolescentes devido ao aumento da obesidade infantil. A tensão arterial é a força exercida pelo sangue contra as paredes das artérias enquanto é bombeado pelo coração. Quando essa pressão é constantemente alta, diz-se que a pessoa tem hipertensão arterial.

Para entender melhor, podemos comparar a circulação do sangue no nosso corpo a um sistema de canalização. O coração funciona como uma bomba, e as artérias são os canos que transportam o sangue. Quando a bomba funciona muito rapidamente ou com muita força, a pressão nos canos aumenta. Assim, a hipertensão arterial pode ser entendida como uma "sobrecarga" do sistema de canalização do nosso corpo.

Em crianças, a hipertensão é avaliada com base em percentis específicos para a idade, sexo e altura, e não em valores absolutos
como nos adultos. A deteção precoce é crucial, pois a hipertensão não tratada na infância pode contribuir para problemas graves na juventude e vida adulta. A hipertensão arterial pode levar a danos a longo prazo no sistema cardiovascular (coração e artérias), contribuindo para o desenvolvimento de doenças cardíacas, acidentes vasculares cerebrais (AVCs) e doenças renais crónicas. Tratando-se de uma doença silenciosa, é crucial entender, prevenir e tratar esta condição desde cedo.

A obesidade infantil é um dos principais fatores de risco para a hipertensão e outras doenças cardiovasculares. Em Portugal, um terço das crianças apresenta excesso de peso, com prevalência crescente. A obesidade resulta de um desequilíbrio entre a ingestão calórica e o gasto energético, agravado por dietas ricas em açúcares e gorduras e pela falta de atividade física. Além de aumentar o risco de hipertensão, a obesidade pode causar resistência à insulina (tendo como complicação a diabetes), dislipidemia (níveis anormais de colesterol e triglicéridos) e problemas psicológicos, como baixa autoestima e depressão.

As causas da hipertensão em crianças e adolescentes podem ser variadas.Nalguns casos, a hipertensão pode ser causada por outras
condições médicas, como doenças renais ou cardíacas, conhecida como hipertensão secundária. No entanto, na maioria dos casos, a hipertensão ocorre sem uma causa aparente, sendo então classificada como hipertensão primária ou essencial. A hipertensão primária em crianças e adolescentes está muitas vezes associada a fatores de estilo de vida, como uma dieta pouco saudável, rica em sal e gorduras, com excesso de peso e a falta de atividade física. Também se tem observado uma associação entre o stress e a hipertensão, com alguns estudos a sugerirem que as expectativas sociais e escolares elevadas poderão contribuir para o aumento da tensão arterial nos mais jovens.

A prevenção da hipertensão e da obesidade começa com a adoção de um estilo de vida saudável. Uma alimentação equilibrada, rica em frutas, legumes, grãos integrais e proteínas magras (contemplando a roda dos alimentos), é essencial para manter uma boa saúde cardiovascular. Reduzir a ingestão de sal, açúcares e gorduras saturadas também é crucial. Promover a prática de pelo menos
60 minutos de atividade física moderada a intensa diariamente, como brincadeiras ao ar livre, desportos e caminhadas, ajuda a manter o peso adequado e fortalece o coração. A hidratação adequada, com incentivo ao consumo de água em vez de bebidas açucaradas como refrigerantes e sumos industrializados, é igualmente importante.

Os sinais de alarme que devem motivar uma consulta médica incluem dores de cabeça frequentes, tonturas, fadiga e dificuldade em
respirar. Estes sintomas podem ser indicativos de hipertensão e necessitam de avaliação profissional. É importante que os pais estejam atentos a esses sinais e procurem ajuda médica quando necessário.

A saúde cardiovascular deve ser uma prioridade desde a infância.
Promover hábitos alimentares saudáveis e a prática regular de exercício físico são passos fundamentais para prevenir a hipertensão e
a obesidade, garantindo um futuro mais saudável para as nossas crianças. O Mês do Coração é uma excelente oportunidade para aumentar a consciência sobre estas questões e agir em prol da saúde dos nossos jovens. Juntos, podemos construir um futuro com corações fortes e vidas saudáveis.

A abordagem multidisciplinar é essencial no combate à hipertensão e à obesidade pediátrica. Quando uma criança é diagnosticada com hipertensão, é crucial uma avaliação numa consulta multidisciplinar, que inclua especialistas de Cardiologia Pediátrica, Pediatria, Nutrição, Psicologia e Medicina Geral e Familiar. A cooperação entre estas várias disciplinas permite uma abordagem abrangente e eficaz do problema. Os cardiologistas pediátricos são especialistas no estudo, diagnóstico e tratamento de doenças que afetam o coração e o sistema circulatório das crianças. Os pediatras são responsáveis pela saúde geral das crianças e adolescentes, enquanto os nutricionistas podem ajudar a criar planos de alimentação saudável para controlar a pressão arterial. Os psicólogos podem oferecer apoio emocional e estratégias de enfrentamento para lidar com a hipertensão e outros desafios relacionados. Os médicos de medicina geral e familiar têm um papel crucial na deteção precoce e no acompanhamento regular.

Para diagnosticar a hipertensão arterial em crianças e adolescentes, é necessário um processo detalhado e cuidadoso que envolve para além da avaliação clínica um conjunto de exames complementares de diagnóstico e procedimentos. A medição regular da pressão arterial é o primeiro passo, podendo ser realizada no consultório médico. Se a pressão arterial da criança for consistentemente alta ao longo de várias medições, o médico poderá suspeitar de hipertensão. Em caso de suspeita, outros exames podem ser realizados para confirmar o diagnóstico e descobrir a causa da hipertensão, como electrocardiograma (ECG), ecocardiograma, monitorização ambulatorial da pressão arterial (MAPA) de 24 horas, e análises ao sangue e à urina.

Monitorizar a tensão arterial em casa é uma prática útil, especialmente se a criança já foi diagnosticada com hipertensão ou tem
um risco elevado de desenvolver a condição. Escolher o equipamento certo, aprender a usar o monitor, estabelecer uma rotina, garantir que a criança está relaxada antes da medição, registar as leituras e partilhá-las com o médico são passos fundamentais para uma monitorização eficaz.

Quando o diagnóstico de hipertensão arterial é confirmado, é crucial iniciar um plano de tratamento adequado, que pode incluir alterações no estilo de vida e, nalguns casos, medicação. As alterações no estilo de vida incluem uma alimentação saudável e equilibrada, prática regular de atividade física e limitação do tempo passado em frente a ecrãs. A medicação pode ser necessária se as mudanças no estilo de vida não forem suficientes para baixar a pressão arterial. O acompanhamento regular é fundamental para monitorizar a evolução da condição, avaliar a eficácia do tratamento e fazer ajustes, se necessário.

A construção de um futuro de corações saudáveis para as nossas crianças deve começar desde cedo. À medida que nos deparamos com um cenário em que as doenças cardiovasculares têm-se tornado cada vez mais comuns em idades precoces, é essencial compreender o papel fundamental que a nutrição desempenha na prevenção do risco cardiovascular. Através de uma alimentação equilibrada e adequada, podemos estabelecer as bases para um futuro saudável, fortalecendo o coração e reduzindo os riscos de doenças cardíacas. A promoção de estilos de vida saudável deve começar o mais cedo possível, envolvendo a alimentação saudável e a prática regular de atividade física. São necessárias medidas adaptadas aos contextos socioeconómicos e culturais da população, sustentáveis a longo prazo e com articulação entre as instituições relacionadas com a saúde e a defesa dos
consumidores e a própria indústria alimentar.

A importância de uma abordagem integrada, que combine a adoção de hábitos alimentares saudáveis, a prática regular de atividade física, a hidratação adequada e a monitorização regular da pressão arterial, jamais pode ser subestimada. Cada passo em direção a uma vida mais saudável faz a diferença e contribui para um futuro de excelência em saúde para as nossas crianças.

O Mês do Coração é uma excelente oportunidade para aumentar a consciência sobre estas questões e agir em prol da saúde dos nossos jovens. Juntos, podemos construir um futuro com corações fortes e vidas saudáveis.

Sérgio Matoso Laranjo, MD, PhD, PGDipHM, FESC, FACC
Cardiologista Pediátrico
Serviço de Cardiologia Pediátrica
Centro de Coração e Vasos
Hospital CUF Tejo

Prof. Auxiliar Convidado de Fisiologia & Pediatria
Nova Medical School | Faculdade de Ciências Médicas da Universidade
Nova de Lisboa (NMS)
Comprehensive Health Research Centre (CHRC) - pólo NMS
Campo dos Mártires da Pátria 130, 1169-056 Lisboa

Vera Silva, MD
Pediatra
Coordenação da Pediatria
Clínica Cuf Barreiro

Docente de Pediatria, Mestrado em Enfermagem de Saúde Infantil e Pediátrica
Escola Superior de Saúde da Cruz Vermelha Portuguesa
Avenida de Ceuta 1, 1300-125 Lisboa
Investigadora em Meditação
Instituto de Ciências da Saúde, Universidade Católica Portuguesa de Lisboa


10.06.2024 - 14:40

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