opinião
O Kira quando começou a ser Kira
Jorge Morais
Barreiro
A mensagem do Carlos Bicas e a notícia no Rostos do António Sousa Pereira deixaram-me desasado: morreu o Kira. Morreu o Kira? Pode lá ser! E, no entanto, já todos nos preparávamos intimamente para este desfecho – sem ousarmos dizê-lo em voz alta.
Alguns sinais esperançosos pontuavam a recta final: em Abril, vimo-lo em cadeira de rodas na cerimónia de atribuição do seu nome a uma rua da nossa terra, com ar animado (e, pareceu-me, um esgarzinho sarcástico que tão bem lhe conheci, como se sorrisse secretamente de si mesmo, eterno anarca); ainda há pouco o Bicas me dizia que ele continuava a desenhar, nesse gesto instintivo que fora o de toda a sua vida. Mas havia também sinais de desistência, num quadro clínico em declive, agravado por problemas de coluna que lhe tolhiam os movimentos (a ele, que era movimento personificado!).
Enfim, chegou o seu dia. Mas por mais que uma pessoa se vá conformando, no recôndito da mente, com o desenlace inexorável, nunca estamos verdadeiramente preparados para aceitar a morte de um amigo.
A notícia apanhou-me às sete e pouco da tarde de 29 de Junho, estava eu em Glasgow, longe do Barreiro e dos amigos, longe de quem pudesse partilhar comigo a estupefação daquele absurdo. Porque é absurdo o sentimento da privação. Nenhum dos meus companheiros de trabalho na Escócia fazia a mais pequena ideia de quem teria sido aquele grande pintor português. Estava só na minha tristeza. Caminhando sombriamente pela Queen Street, vieram-me então à memória ‘flashes’ do Kira vivo, do Kira pulsante de génio e energia, do Kira que permanecerá na minha memória até ao dia em que me for juntar a ele, lá nos eternos jardins oníricos onde nasce a luz.
Conheci o Kira no início dos anos 70: terá sido depois de 1969, pois não me lembro dele na campanha eleitoral desse ano; e por 1971 já tenho registo de ele ser frequentador da casa de Cabanas, na Rua dos Combatentes. O Kira tinha chegado ao Barreiro de armas e bagagens, vindo de uma passagem breve por Vila Franca, salvo erro, e trabalhava como escriturário em Lisboa. Mas todo ele transpirava Alentejo: falava com forte sotaque alentejano e, sobretudo à mesa, não podia negar a origem – na orelha assada, no porco temperado a pimentão, no pão para molhar, no coentro. Nascido em Avis, fizera-se artista na Galeria A Trave, em Évora, de que falava com um entusiasmo contagiante: lá tinha exposto pela primeira vez os seus trabalhos, ainda adolescente.
O Kira desse seu primeiro tempo no Barreiro era, na verdade, não uma pessoa – mas uma tribo. Nunca estava só. Consigo andava sempre, em debates e petisqueiras, exposições e conspiratas, um grupo heterogéneo que o acompanhava já do Alentejo ou ele encontrara em Lisboa e em Almada, sendo esta vila muito visitada pela tribo. E que tribo! Das letras, destaco Carlos Alberto Correia e Rogério Vidigal; das artes, Henrique Mourato (o “Mourato das luas”), Victor Ferreira (o “Ferreira das galáxias”) e José António Lopes, mais conhecido pelo acrónimo ZAL.
Este grupo marcou profundamente a minha juventude e ainda hoje recordo os mundos que desvendaram aos meus olhos de rapaz, tanto no domínio das artes plásticas como em tantas outras expressões do pensamento. Foi há mais de meio século – eu era um miúdo de 15 anos – mas, longe ou perto, a tribo do Kira ficou para sempre no meu coração. Do Victor Ferreira perdi o rasto nos anos 80. A última notícia que tive do ZAL foi em 2006, quando fez uma exposição de pintura no Barreiro (mas nunca esqueço que foi ele quem me levou a ler Fernando Namora, emprestando-me uma edição de capa dura do Domingo à Tarde que nunca lhe devolvi). Tenho acompanhado à distância o percurso do Carlos Alberto Correia, autor de grande sensibilidade (e cronista regular do Rostos); do Henrique Mourato continuo também amigo (embora não o veja desde que deixou a Escola Superior de Dança, minha vizinha). E do Rogério Vidigal, já falecido, guardo um exemplar do seu primeiro livro, Ferrugem, e fui seu camarada de profissão, e até camarada de Redacção num jornal.
Havia entre todos nós um elo de ligação: Manuel Cabanas. Era em torno do velho Mestre que se compunha a agenda desses dias, agenda de arte, letras e política conjugadas. E não se diga que a admiração do Kira e seus amigos por ele ficava por corresponder: Manuel Cabanas prezava a tribo com carinho protector, independentemente de nuances ideológicas que pudesse haver caso a caso. E todos os pintores amigos do Kira tiveram obras suas na colecção de arte que Cabanas doou em 1973 ao seu Museu em Vila Real de Santo António.
Quanto ao Kira, em especial, o sentimento era óbvio e expresso: amizade profunda e cumplicidade total, sempre temperadas pela independência mental que caracterizava todas as relações do Mestre. Um grande óleo do jovem pintor, dedicado ao tema da guerra, figurou em lugar de destaque no escritório da Rua dos Combatentes; e Cabanas acabou mesmo por estampar o busto do Kira numa das suas xilogravuras.
Esta bela amizade durou toda a vida do Mestre, mesmo quando temperada por arrufos de artista – e prolongou-se por toda a vida do Kira. Por iniciativa do Carlos Bicas, o Kira dedicou a Cabanas, mais tarde, um ciclo extenso de pinturas, o qual circulou, primeiro, pela Galeria Municipal Mestre Manuel Cabanas, em Vila Real de Santo António, depois pelo salão da Associação dos Corticeiros, no Barreiro (exposição que teve, na inauguração, como orador convidado, António de Almeida Santos), e finalmente na Fundação Mário Soares, em Lisboa, a cuja abertura presidiram Soares e Maria de Jesus Barroso. Nesse ciclo de pinturas dedicado exclusivamente a Manuel Cabanas, intitulado «In Memoriam Manuel Cabanas», o Kira pintou então uma tela de grandes dimensões (200 centímetros por 190), que hoje se encontra exposta em permanência no átrio de entrada da Biblioteca Municipal do Barreiro. Esse quadro, oferecido à Câmara Municipal do Barreiro por um grupo de amigos e admiradores do pintor, está composto de acordo com a Simbólica Maçónica, pois tanto Cabanas como Kira pertenceram à Augusta Fraternidade (o Kira foi Obreiro da Loja do Castelo, de Lisboa, filiada no Grande Oriente Lusitano). Mais tarde ainda, o Kira pintou uma galeria de figuras contemporâneas locais, acompanhadas de figuras gradas da nossa História Literária, das Artes e da política, e em cada um dos quadros está sempre presente Manuel Cabanas.
Mas o Kira daqueles dias de que falava ainda não era inteiramente o Kira que há dias nos deixou. Naquele tempo era ainda o António Joaquim Pereira Gama, que apenas gostava de assinar “Kira”. Alguns dos seus amigos mais antigos continuavam a tratá-lo por Gama – e foram os mais novos, como eu, orgulhosos de contribuírem para a construção da sua persona pública, quem mais insistiu no uso desse heterónimo quase musical, popularizando-o no meio artístico e intelectual barreirense, primeiro como Gama-Kira e depois, ostensivamente, como Kira. E Kira ficou, como ele desejava.
A arte do Kira, como o próprio algumas vezes sublinhou, não é engavetável: o seu estilo (ou os seus estilos, pois há distintas fases na evolução da sua obra) cruza várias escolas, assimila inúmeras técnicas – e até o seu propósito é móvel, descendo umas vezes às profundezas do ser, pairando outras na leveza ornamental, fixando-se ainda outras numa ironia acre ou derretendo-se em ternura sensual. O Kira era como o vento, ninguém conseguia prendê-lo com alfinetes num catálogo de lepidópteros.
No período em que o conheci, contudo, era patente a sua identificação com o trabalho pictórico do António Palolo; e creio não me enganar ao recordar-me da admiração que o Kira então tinha pelo Artur Bual (tio do nosso comum amigo Pedro Pereira), pelo Júlio Pomar, pelo Manuel Cargaleiro, pelo António Charrua e por outros artífices de primeira água, como o António Inverno, o João Hogan e o Francisco Relógio. Quanto ao Palolo, não me surpreenderia que tivessem partilhado a mesma formação n’A Trave de Évora, sobretudo no que respeita à grande densidade cromática que caracteriza a obra de ambos.
Naquele tempo, o Kira começara já a publicar alguns dos seus trabalhos, nomeadamente desenhos, na Imprensa. Alguma coisa saíra já no Diário de Lisboa, pela mão do Rogério Vidigal e do Manuel Geraldo (outro amigo comum). Depois de 1972, o Carlos Bicas e eu carreámos algumas ilustrações do Kira para o República, mas a censura não gostava do seu traço ácido. De todo o modo, a pintura era o seu destino – as ilustrações eram apenas raids pontuais do guerrilheiro que havia em si.
O Kira era um criador nato. À mesa do café, um resto de cinza molhada no pires, um fósforo queimado e as costas de uma prata de maço de cigarros bastavam-lhe como materiais de pintura, fazendo de tinta, pincel e tela. Nesse tempo fiquei-lhe com muitas destas obras avulsas, testemunhos de um talento iluminado difícil de igualar. No dia em que me ofereceu pela primeira vez um quadro a óleo (um contraplacado de 80 por 100 centímetros, fixando em tons verdes uma teia de transparências liquefeitas), logo escreveu nas costas, em auto-ironia: “Morais, a arte é um rebuçado e os artistas uns caramelos!”. A minha admiração por ele e pela sua obra ficou gravada em textos que escrevi então para os catálogos de duas exposições suas.
Seria hoje impossível reconstituir a atmosfera de tertúlia, de boémia inspirada e de criação fecunda em que Kira fermentou a sua obra: essa atmosfera ressumava dos lugares de socialização do Barreiro daquele tempo e da disponibilidade individual para uma entrega sem limites. Não houve nesse tempo, nas fileiras de quem contava no Barreiro, uma única pessoa que não tivesse sido tocada pelo génio do Kira. Com ele aprendi a conhecer todas as tasquinhas barreirenses, casquilhenses e lavradienses que ainda sobreviviam em 1970, com ele vivi muitas madrugadas ardentes de sonho e argumento, com ele soube de quantos fios se faz um pincel de arte. E a poesia e a prosa que vinham entrelaçadas nestes ramos de cerejas? E a filosofia e a ciência e as ideias e a política que eram o nosso alimento? Foi tudo isto que desfilou perante os meus olhos, enquanto caminhava sombriamente, ao fim da tarde do dia 29 de Junho, pela Queen Street de Glasgow. O Kira morreu e todos nós morremos um pouco com ele.
Jorge Morais
07.07.2025 - 23:11
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