opinião
A coragem política no Barreiro
Por Miguel Amaral
Barreiro
Se a coragem se define pela firmeza de ânimo ante o perigo, a incerteza e os reveses com que nos defrontamos pessoalmente no decorrer da nossa vida, a coragem política é a capacidade de um político demonstrar essa mesma firmeza e abnegação nas suas tomadas de decisão, na definição de políticas e de medidas que defendam a população que o elegeu.
Coragem política é, por exemplo, o inverso daquilo a que assistimos nas políticas que têm destruído o Serviço Nacional de Saúde, público, ao longo de décadas, com desvalorização de carreiras, descuido na gestão, falta de regulação e fervor na defesa da expansão dos hospitais e clínicas privados.
Coragem política é também o inverso do que tem sido a postura nada combativa, indolente, resignada, lamentável, por parte do Presidente da Câmara do Barreiro e do executivo com maioria representativa nos órgãos autárquicos, quanto ao fecho das Urgências Obstétricas do Centro Hospitalar Barreiro Montijo.
Coragem política seria – num contexto em que os dados do Instituto Nacional de Estatística revelam que a morte de bebés no Barreiro e Montijo é de mais do dobro da média nacional – o Sr. Presidente da Câmara, a Sra. Vereadora responsável por este pelouro e restantes vereadores com representação maioritária, conseguirem ir muito além da sua costumeira retórica e do seu posicionamento meramente teórico contra o encerramento definitivo e a perda de valências do hospital do Barreiro. As suas intervenções carecem de uma componente prática, interventiva, esclarecedora e tranquilizadora para os munícipes.
Coragem política seria que o Sr. Presidente da Câmara, o Sr. Presidente da Assembleia Municipal e restantes representantes de órgãos autárquicos se tivessem associado aos protestos dos Barreirenses na rua, junto ao hospital, e não tivessem troçado e atacado publicamente a Comissão de Utentes e todos aqueles que questionaram, rejeitaram e se manifestaram espontaneamente contra esta decisão do Governo.
Coragem política seria que o Sr. Presidente da Câmara não tivesse sido o primeiro a dizer nos meios de comunicação que “(...) pode haver uma solução que passe por urgências rotativas, que dê alguma previsibilidade a quem necessita de urgências, mas também aos transportes urgentes.” (Rádio Renascença - 10/1/2023), concordado assim com o fecho rotativo das urgências proposto em 2023 pelo Governo PS. A previsibilidade de que tanto fala o Sr. Presidente para dar cobertura à sua posição é um falso argumento, pois a indicação das urgências de serviço na região teria sempre de ser garantida pelo Governo ao determinar-se o encerramento no Barreiro. Se tivesse rejeitado o fecho rotativo em vez de se ter tornado conivente com o Governo da sua cor partidária, o Sr. Presidente da Câmara teria mostrado mais coragem, combatividade, pressão junto do Governo para solucionar o problema e não teria criado um precedente para o fecho por tempo indeterminado a que assistimos ultimamente.
No passado 17 de junho, um Bebé de 10 meses morreu no Hospital do Barreiro. O serviço de urgência pediátrica encontrava-se encerrado, no entanto conseguiu-se abri-lo, excepcionalmente, para tentar socorrer a criança, o que infelizmente já não se revelou eficaz. No dia 3 de julho mais um bebé morreu no contexto do encerramento das urgências obstétricas do hospital do Barreiro. A mãe viu-se forçada a deslocar-se para o hospital de Cascais, sofreu um descolamento de placenta e o bebé não sobreviveu. No dia 11 de julho, devido ao encerramento das urgências obstétricas do hospital do Barreiro uma grávida foi forçada a ter o bebé no carro, a caminho de Almada. Estes acontecimentos dramáticos não são meramente acidentais, mas sim fruto de ideologias, políticas e agendas que se têm revelado negligentes e devastadoras para a maioria da população. São fruto de um somatório de vários episódios de falta sistemática de coragem política.
Neste contexto crítico, e com um novo Governo liderado pela AD, o discurso do Sr. Presidente da Câmara mudou, de forma conveniente, mas não surpreendente, ao vir mencionar recentemente “a falta de recursos humanos no Serviço Nacional de Saúde” e a necessidade de “valorizar as carreiras médicas e melhorar as condições de trabalho para reter profissionais” (Diário do Distrito - 31/01/2025), quando no passado, durante o Governo PS, argumentava que nunca se investiu tanto no SNS e rejeitava as críticas da oposição a este respeito.
Em janeiro deste ano foi solicitada pelo Sr. Presidente da Câmara uma “reunião urgente com a ministra da Saúde, Ana Paula Martins, para discutir alternativas e garantir que a população não fica desprotegida” (Diário do Distrito - 31/01/2025). Meio ano depois “Frederico Rosa garante que já pediu mais esclarecimentos ao Ministério da Saúde, mas ainda aguarda uma resposta de Ana Paula Martins” (TSF – 09/7/2025). Continuamos à espera; não se vislumbra, neste momento, nenhuma acção expressiva, nenhum esclarecimento aos barreirenses a este respeito por parte do Sr. Presidente da Câmara, nada.
Quando questionados, nos órgãos autárquicos, acerca da estratégia do Barreiro para fazer face a estes graves problemas, tanto o Presidente de Câmara como alguns dos Vereadores com pelouros e responsabilidades não hesitam em descartar, de imediato, essas mesmas responsabilidades – como fazem sempre que se sentem escrutinados. O Vereador e Vice-presidente da Câmara diz que “se não tivéssemos sido favoráveis ao fecho rotativo teríamos ficado na mesma”, o que seria mais uma razão para termos sido desfavoráveis; diz ainda que a rotatividade era “um mal necessário” – será que, com isto, deixa implícito que devemos aceitar o fecho por tempo indeterminado e a morte de bebés e eventualmente de mães, também como males necessários?
Os adversários políticos, as associações, as comissões de utentes, os munícipes e todos aqueles que fazem perguntas pertinentes, mas incómodas, às quais os responsáveis não sabem, não conseguem, ou não querem responder, são silenciados, os seus pontos de vista são desvalorizados como sendo “conversas de café”, “ataques pessoais” e/ou são imediatamente catalogados de “populistas”, “desinformados”, “impreparados” “mentirosos”, “sem valores”... mais do mesmo, naquilo que já é a imagem de marca autocrática e ardilosa desta maioria.
As respostas claras e concretas aos barreirenses, essas ficam sempre por dar, deixando cada vez mais exposta a escassez de coragem política e a abundância de uma cobardia política descarada que nos deixa a todos bem mais vulneráveis.
Miguel Amaral
Prof. Universitário
22.07.2025 - 10:50
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