opinião
O Centro do Barreiro: Do Pulso Vivo à Desertificação
Por Isabel Mateus Braga
Durante décadas, o Centro do Barreiro foi o coração pulsante da cidade. Era comum ver casais jovens a passear com os filhos pela rua, com o som das gargalhadas infantis a encher o ar. Nos bancos dos jardins, idosos sentavam-se tranquilamente, lendo o jornal ou observando, com ternura, as brincadeiras das crianças.
As lojas estavam cheias, os cafés fervilhavam de conversas e os vizinhos cruzavam-se diariamente, trocando cumprimentos como quem se conhece desde sempre. Ao sábado, na praça da cidade, encontravam-se casais que, devido à distância de localização de residência, sentiam ali o ponto de encontro semanal e passavam longas horas em "alegre cavaqueira", atualizando estados de saúde e percursos escolares dos seus rebentos.
Hoje, essa imagem parece distante.
O Centro do Barreiro vive um processo de desertificação visível e inquietante. Muitos dos estabelecimentos encerraram portas, ou foram substituídos por lojas de chineses e indianos e as ruas perderam o seu brilho. Ao cair da noite, e por vezes mesmo à luz do dia, instala-se um silêncio desconfortável. A insegurança, real ou sentida, faz com que muitos evitem circular por ali. O medo, aliado à falta de policiamento, substituiu o sentimento de pertença e comunidade. Valha-nos as "barraquinhas" no parque Catarina Eufémia que, pontualmente, animam os espaços. Também as Festas do Barreiro, com a atuação de artistas conceituados trazem transeuntes que, são "obrigados" a atravessar o centro.
A desertificação não é apenas física, mas também afetiva. O que antes era um lugar de encontros, memórias e partilhas, tornou-se um espaço esquecido. E, no entanto, ainda há quem acredite na sua revitalização quem veja, nas ruas vazias, o potencial de um regresso, não ao passado, mas a uma nova vida urbana, onde a segurança, a cultura e a convivência possam florescer de novo
Isabel Mateus Braga.
03.08.2025 - 17:09
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