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Um desafio à edilidade e aos munícipes do Barreiro: Fazer de Coina uma Vila-Museu
Por José Poças
Barreiro

Um desafio à edilidade e aos munícipes do Barreiro: Fazer de Coina uma Vila-Museu<br />
Por José Poças<br />
Barreiro As eleições autárquicas são sempre um momento importante para as populações e para a vida cívica das sociedades democráticas. Para além das habituais promessas conducentes à resolução dos problemas mais candentes que afligem os munícipes, embora nem sempre cumpridas, a verdade é que as autoridades ficam quase completamente submergidas de seguida pela premência de lhes acorrer num dia-a-dia pleno de assuntos “urgentes”, o que limita em grande parte a sua intenção de conseguir concretizar o respetivo programa de intenções.

Realidade que quase impede por completo uma gestão operativa mais ambiciosa e aberta a outras temáticas. Neste quadro, é necessário, contudo, nunca desistir de dar estímulo a outro tipo de preocupações que possibilitem romper com esse ciclo vicioso, permitindo a concretização, num prazo definido, de outro tipo de projetos que também contribuam para o bem-estar de quem vive, trabalha ou visita a urbe, no sentido de projetar a sua imagem e de fazer os munícipes sentirem que valeu a pena acreditar que afinal era possível ter uma estratégia alternativa mais satisfatória para todos.

Refiro-me a iniciativas de âmbito cultural e da possibilidade de, por via disso, propiciar o acesso a financiamentos que permitam ajudar a reabilitar o espaço público. O exemplo da Expo98, é por todos reconhecido como algo que representou um verdadeiro volte face numa zona extremamente degradada da cidade capital de Portugal. O investimento financeiro, que tendo sido muito vultuoso, justificou largamente os benefícios a diversos níveis que se vieram a colher a prazo, não só para os residentes e para os visitantes, mas também para a economia local e nacional.

O denominado turismo cultural, por não ser massificado, tem a enorme vantagem de respeitar por inerência as tradições das urbes, das suas gentes e do património natural envolvente, sendo muito mais interessante em termos económicos para as suas populações do que aquele que traz pessoas que apenas fazem uma curta incursão pela rama, sem se preocuparem muito com o que diferencia um local do outro, o que só será possível através da valorização das particularidades que caracterizam a sua tipicidade, o que inclui a gastronomia, o artesanato, as paisagens naturais, os seus museus e monumentos, as suas tradições musicais e outras, ou seja, de uma forma abrangente e mais lata, da vida cultural que define a sua própria identidade.

O Barreiro é cidade sede de concelho que abrange o extinto concelho de Coina, que teve foral no século XVI. A primeira destas localidades é lembrada sobretudo pelo complexo industrial que foi edificado no início do século XX e que durou os seus primeiros 75 anos, o que fez alterar significativamente o envolvente ambiente sociológico, tendo passado de uma pacata vila que se dedicava essencialmente a atividades económicas do setor primário, para se tornar no maior polo industrial do Portugal desses tempos passados.

Com a rápida desarticulação deste setor que se seguiu à implantação do regime democrático, esta virou-se para o setor de serviços, sendo presentemente um dos dormitórios de Lisboa, buscando legitimamente agora um outro vetor de desenvolvimento que lhe restitua a importância de outrora, o que poderá ser facilitado pela prometida construção de importantes ligações rodoferroviárias, quer com Lisboa, quer com o Seixal.
Do ponto de vista cultural, para além do facto de ter sido um dos clássicos baluartes de resistência ao regime ditatorial deposto em 25 de abril de 1974 e de ter um dos polos mais importantes do espólio da Ephemera, importante obra da iniciativa e responsabilidade do historiador Pacheco Pereira, que sendo uma misto de biblioteca e de arquivo, constitui-se com todo o mérito no repositório vivo de um dos principais acervos documentais do país, não se distingue, contudo, por ser visitada por muitos por esse tipo de motivação específica, mau grado possuir outras instituições e certas personagens históricas de indiscutível relevância que mereceriam ser certamente mais conhecidas. Tal é o caso da Escola de Jazz, que organiza desde há alguns anos um apreciado festival anual num parque da cidade com intérpretes de renome nacional e internacional, tal como o exemplo do artista Manuel Cabanas, que deu nome à biblioteca municipal, entre outros.

Contudo, no seu concelho, existe Coina que, na própria vila ou nas suas imediações, tem um importante conjunto de vestígios históricos, a maioria em acentuado estado de degradação desde há muito, que poderiam e deveriam ser reabilitados, mau grado serem infelizmente pouco conhecidos. Citaria o castelo árabe de Coina-a-Velha, situado junto da nascente do rio Coina, em plena encosta norte da serra da Arrábida, recentemente classificada com reserva da Biosfera pela UNESCO, ter sido sede da Real Fábrica dos Vidros, ter tido uma Mina de azougue, bem como possuir os vestígios dos Fornos Reais da Cal e ter tido importante indústria naval no tempo da Era dos Descobrimentos, que se situava na Ribeira da Telha, afluente da margem direita do Rio Coina, e, ainda, no complexo militar de Vale de Zebro e na Mata da Machada, os Reais Fornos do Biscoito, que alimentaram os nossos navegadores daquela epopeia, para além de existir ainda um edifício monumental já centenário, o denominado Palácio do “Rei do Lixo”, numa propriedade que foi em tempos um dos maiores pomares da europa, onde num dos edificados adjacente nasceu o Intendente no reinado de D. Maria I, o famoso Pina Manique.

Tem também dois moinhos de maré, sendo um deles denominado de “Zeimoto”, doado por D. Manuel I à família de supostos cristãos-novos com esse mesmo nome. Sendo importante aprofundar o seu estudo, sabe-se que um seu familiar terá sido um dos três portugueses que primeiro chegou ao Japão numa embarcação a meio do século XVI e, segundo algumas fontes, o primeiro ocidental a casar com uma princesa nipónica.
As relações entre os povos de Portugal e do Japão é, assim, uma história de séculos que não tem praticamente nada em Portugal que lhe faça referência específica e que projete para o futuro um importante conjunto de memórias coletivas de ambas as Nações e dos seus respetivos Povos, em contraste com o que se passou na vizinha Espanha, em Coria del Rio, ao sul de Sevilha. Durante praticamente um século os portugueses dedicaram-se a fazer trocas comerciais e a tentar evangelizar os autóctones daquele longínquo arquipélago asiático, como o fizeram noutras paragens, embora neste caso com uma intensidade nunca antes atingida.
Durante a primeira metade do século XVII, no entanto, o Japão voltou a fechar-se quase completamente ao contacto com povos oriundos de outras nações, isolamento que só terminou em meados do século XIX. É reconhecido o respeito e até uma certa idolatria que os japoneses nutrem pelos portugueses, sentimento que está bem registado no facto de celebrarem anualmente a denominada “festa da espingarda”, dado que os primeiros nacionais que aí chegaram a primeira vez entre 1541 e 1543, mais especificamente o(s) navegador(es) Zeimoto, como se diz na Peregrinação de Fernão Mendes Pinto, lhes deram a conhecer a pólvora e os arcabuzes, o que permitiu que no espaço de algumas décadas apenas, aquela nação tivesse deixado de ser meramente um conjunto de clãs que se digladiavam constantemente com sabres, para adquirir uma homogeneidade territorial e político-administrativa por via da subordinação, pela força, de um deles sobre os restantes, o que permitiu a emergência de um único imperador com uma autoridade bem estabelecida e respeitada.

O longínquo conhecimento pelos portugueses do Japão e dos Japoneses ficou registado em diversas obras literárias e cartas, bem como na cartografia lusa, sendo de destacar a já referida “Peregrinação”, obra literária escrita no século XVI, que é uma epopeia de aventuras de que existem inúmeras edições, quer em Portugal, quer em diversos países estrangeiros, que começaram logo a surgir depois da sua publicação e que foram bastante difundidas. Por tudo isso, não será, pois, por mero acaso, que existem dezenas de palavras japoneses que derivam do Português, tal como algumas que a língua lusa utiliza e que têm origem na língua nipónica.
Sabendo-se que quem deu a conhecer a espingarda e a pólvora foram os Zeimoto (Diogo, como diz Fernão Mendes Pinto, ou Francisco, como o afirmam António Galvão ou Diogo do Couto), é de perguntar se não seria adequado e frutuoso erigir um Museu alusivo a esta temática nos moinhos de maré do rio Coina que bordejam a vila e que pertenceram a elementos dessa família.
Deve enfatizar-se que em Coria del Rio, a propósito da comemoração dos vestígios deixados pela segunda embaixada do Japão à Europa, realizada no séc. XVII, onde existem presentemente mais de seis centenas de pessoas com o apelido de Japón, muitas delas com traços fisionómicos indesmentivelmente orientais, houve a iniciativa de deixar isso registado através de um Museu, da publicação de vários livros, bem como de mandar erigir a estátua do chefe dessa representação diplomática enquadrada por um arco de estilo oriental num dos seus parques, bem como de festividades que aí decorrem anualmente que justificaram a visita oficial, tanto do Embaixador japonês, como do próprio Imperador daquele país.

Se o Japão tem esse reconhecimento da importância histórica de Portugal, de que é exemplo a existência de vários cantores de fado muito aficionados e de inúmeras estátuas de personagens importantes que lembram sobretudo os jesuítas, não se deveria considerar seriamente a concretização desta iniciativa, a par de se promover a geminação desta vila portuguesa com a Ilha de Tenegashima, no sul do Japão, onde os Zeimoto aí chegaram? E, até, talvez também com Coria del Rio, dado que muitos destes factos ocorreram durante a Dinastia Filipina e Portugal ter sido o país a que a primeira embaixada japonesa aportou à Europa para ir visitar o papa a Roma, no século XVI?

Esta iniciativa teria candente utilidade pedagógica e seria de interesse turístico e económico inegável, sobretudo para a vila de Coina, para o Concelho do Barreiro e também para o próprio país, permitido talvez vir a poder estimular a futura reabilitação do restante património histórico enumerado que se encontra a ruir a ritmo acelerado, temática que foi abordada num Simposium específico a que presidi, que decorreu há ano e meio no Barreiro, sendo assim de almejar que, talvez um dia, Coina possa ser antes conhecida como Vila-Museu. Será, pois, pertinente perguntar, com a concretização integral deste projeto, que teria a Vila de Coina menos que, por exemplo, a de Mértola?

Seria ainda uma forma de prestar uma merecida homenagem ao embaixador no Japão, Armando Martins Janeira, também escritor e fundador da Associação de Amizade Portugal-Japão, que na introdução do seu livro publicado em 1981, intitulado “Figuras de Silêncio”, escreveu “… o significado da vida e da felicidade- todos os sábios do Oriente e do Ocidente o ensinam, só se encontram quando o Homem se dedica a uma grande tarefa, se entrega inteiramente a uma missão e se dissolve no poder imenso que o transporta para além da existência individual…”.

Neste sentido e não desconsiderando outras iniciativas de mais munícipes ou associações locais que se possam vir a desencadear, sou da opinião que o próximo governo do Concelho deve constituir um gabinete de peritos que, apoiados por um secretariado competente e dedicado, escudado naturalmente, do ponto de vista político, por quem vier a vencer as próximas eleições, tenha por missão estudar propostas para implementar um plano de realizações que dê corpo, de forma consequente, à candidatura de Coina a Vila-Museu num prazo que seja considerado adequado à concretização das referidas iniciativas que a suportem, esperando que não aconteça desta vez o que se passou no ano 2000, quando a ideia que tive de construir em Águas de Moura o Museu Nacional da Malária, que idealizei em conjunto com os malogrados Prof. Armindo Filipe e o meu colega e amigo Irineu Cruz, depois de concretizada uma exposição itinerante, de realizado um Simpósio Internacional e de publicado um livro, se gorou, estando grande parte do seu notável acervo encaixotado.

Terminaria acrescentando que se Portugal e Japão elevaram recentemente, aquando da visita do nosso Primeiro-Ministro àquele país, a sua relação bilateral para o nível de “Parceria Estratégica”, como foi noticiado em parangonas pelos órgãos de comunicação social, o pavilhão de Portugal na Expo 2025 de Osaka venceu três prémios, ouro na categoria “Melhor Conceito Temático” e bronze nas categorias de “Melhor Arquitetura Exterior” e “Melhor Apresentação”, e a série japonesa “Shogun” sobre os católicos portugueses no Japão venceu a 82ª edição dos Globos de Ouro na categoria de televisão, em cerimónia realizada em Los Angeles, porque é que não se há-de pensar seriamente em concretizar esta proposta?

Como disse há dias numa reunião com responsáveis da CM do Barreiro, a melhor forma de ser consequente com o recente reconhecimento que a edilidade atribuiu ao inegável interesse económico, estratégico e ecológico da bacia hidrográfica do rio Coina, que justificou a feitura de um estudo aprofundado que ficou registado numa edição prínceps da sua própria iniciativa, é evidenciar vontade política genuína, assente numa liderança estratégica e numa logística operativa eficiente, de modo a levar por diante este projeto, cuja viabilidade, mais do que tudo o resto, depende do facto de lhe ser atribuída a categoria de um verdadeiro desígnio.
Aqui deixo o meu repto a quem de direito.

José Poças
Setúbal, 2025/10/01

José Poças (Médico e escritor, residente em Coina dos 4 aos 22 anos de idade, tendo frequentado o ex-Colégio Diocesano Manuel de Mello nos seis primeiros anos do ensino básico no Barreiro. Presidente do Simpósio “Coina: da História à Medicina” realizado em 2023, bem como editor e coautor de um livro com o mesmo título e publicado na mesma altura);(josepocas.com)

02.10.2025 - 23:35

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